No Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, uma mobilização nacional transformou a proteção da floresta em tema de debate político a apenas 30 dias das eleições gerais brasileiras. Com a mensagem “Cada voto pela Amazônia conta”, a quinta edição da Virada Cultural Amazônia de Pé promoveu atividades em diferentes regiões do país e defendeu que os eleitores observem as propostas ambientais dos candidatos antes de escolher seus representantes.
A iniciativa é conduzida pelo movimento Amazônia de Pé, que reúne mais de 20 mil ativistas e aproximadamente 300 coletivos e organizações não governamentais. Durante o fim de semana, a mobilização levou para as ruas festivais culturais, atividades gastronômicas, apresentações musicais e debates, com ações distribuídas pelas cinco regiões brasileiras.
A proposta não se limita a uma campanha de conscientização ambiental. O movimento procura colocar a preservação da floresta dentro do debate eleitoral, defendendo que os cidadãos analisem os compromissos dos candidatos com a conservação ambiental e com as populações que vivem nos territórios amazônicos. A codiretora executiva da organização, Catarina Nefertari, afirmou que é necessário pressionar os candidatos para que os planos de governo considerem as soluções e as necessidades apresentadas pelas comunidades da região.
Um dos momentos simbólicos da programação ocorreu no Território Indígena Borari, em Alter do Chão, no município paraense de Santarém. Uma cobra cenográfica de aproximadamente 30 metros de comprimento foi utilizada para marcar o início da mobilização. A estrutura já havia sido apresentada em Belém durante a COP30, realizada em novembro de 2025, e voltou a ser utilizada como símbolo da necessidade de proteger a maior floresta tropical do mundo.
A Amazônia representa quase metade do território brasileiro
A dimensão do desafio ajuda a explicar a importância que a questão ambiental adquiriu no debate nacional. A Amazônia é o maior bioma brasileiro e ocupa aproximadamente 49,5% do território do país. Sua preservação envolve não apenas a proteção da biodiversidade, mas também questões relacionadas à segurança climática, aos recursos hídricos, às comunidades indígenas, à economia regional e ao combate aos crimes ambientais.
Entre as principais preocupações apresentadas pelo movimento estão as Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs). São áreas públicas que ainda não receberam uma definição oficial quanto ao seu uso e gestão. Segundo a codiretora da Amazônia de Pé, Karina Penha, a ausência de destinação para conservação, uso sustentável ou reconhecimento territorial aumenta a vulnerabilidade dessas áreas aos crimes ambientais.
Desmatamento registra queda, mas pressão permanece
Os dados mais recentes também introduzem uma informação importante no debate. Segundo o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os alertas de desmatamento na Amazônia caíram 36,87% entre agosto de 2025 e julho de 2026.
No período, foram registrados 2.874,38 quilômetros quadrados sob alerta, o menor índice da série histórica iniciada em 2016. Para dimensionar a área, o território afetado equivale aproximadamente à metade do Distrito Federal.
Outro dado apresentado recentemente pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostra que 60% das terras indígenas da Amazônia registraram desmatamento zero entre agosto de 2025 e julho de 2026. Os números indicam avanços em determinadas áreas, mas não significam que a pressão sobre a floresta tenha desaparecido.
A floresta entra no debate eleitoral
A mobilização ocorre justamente quando o Brasil entra na reta final para as eleições gerais de 4 de outubro. No primeiro turno, os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Caso haja necessidade de segundo turno para presidente ou governador, a votação está prevista para 25 de outubro nas disputas em que nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos válidos no primeiro turno.
É nesse cenário que a Amazônia de Pé tenta transformar a questão ambiental em um dos critérios considerados pelos eleitores. A mensagem da campanha é que a conservação da floresta não deve ser tratada apenas como uma questão ambiental, mas como uma decisão política com consequências econômicas e sociais para todo o país.
Para Catarina Nefertari, a mobilização representa também uma forma de aproximar a população do território amazônico. A dirigente defende que conhecer a região é condição fundamental para compreender sua importância e construir políticas capazes de protegê-la.
Uma questão que ultrapassa as fronteiras brasileiras
A discussão também interessa diretamente aos países do Mercosul e da América do Sul, porque a Amazônia desempenha papel relevante no equilíbrio climático e hídrico regional. A floresta não está isolada das demais áreas do continente: seus rios, ciclos de chuva e ecossistemas estão relacionados a processos ambientais que ultrapassam fronteiras nacionais.
Por isso, as decisões tomadas no Brasil sobre desmatamento, conservação, infraestrutura, exploração econômica e proteção dos territórios indígenas possuem repercussões que vão além do eleitorado brasileiro.
A mobilização do Dia da Amazônia deixa, assim, uma mensagem que ultrapassa a própria campanha eleitoral: a preservação da floresta será influenciada não apenas pelas políticas ambientais dos governos, mas também pelas escolhas feitas nas urnas. Com a eleição a apenas um mês de distância, organizações ambientais tentam fazer com que a Amazônia deixe de ser apenas um tema de discursos e passe a ocupar um espaço concreto na avaliação que cada eleitor fará dos candidatos.
Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
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