O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a se manifestar sobre a crise envolvendo o Banco Master e as investigações que atingiram o Supremo Tribunal Federal (STF). Em Curitiba, o presidente afirmou que ninguém pode ocupar uma cadeira na Suprema Corte com o objetivo de enriquecer e defendeu que eventuais irregularidades sejam apuradas com transparência e dentro da lei. A declaração ocorre em meio ao agravamento da crise institucional provocada pelas investigações sobre o banco e pelas relações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e integrantes do STF.
A declaração de Lula ocorre poucos dias antes de uma sessão plenária decisiva do Supremo. O presidente do STF, Edson Fachin, marcou para 15 de setembro a análise do relatório da Polícia Federal que reúne informações sobre a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Fachin, entretanto, decidiu que a investigação envolvendo o ministro André Mendonça será analisada separadamente, em 23 de setembro.
O caso ganhou dimensão nacional depois que vieram a público mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. Segundo os documentos divulgados no âmbito da investigação, o ex-banqueiro buscou informações sobre as apurações e chegou a perguntar ao ministro se deveria deixar o país diante da possibilidade de prisão. A investigação também apontou que Moraes teria participado da edição final de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam, por si só, uma conclusão de responsabilidade criminal.
Lula já havia afirmado anteriormente que, se Moraes ou Mendonça tivessem cometido irregularidades, deveriam responder de acordo com a legislação. O presidente também criticou vazamentos seletivos de investigações e defendeu maior transparência no caso. Em entrevista recente, chegou a propor uma discussão sobre mandatos para ministros do STF, em vez da permanência até a aposentadoria compulsória.
O que Lula disse sobre Daniel Vorcaro
O próprio presidente também entrou no debate sobre sua relação com o ex-controlador do Banco Master. Lula reconheceu que se encontrou com Vorcaro em dezembro de 2024 e afirmou que, naquela ocasião, transmitiu ao banqueiro a mensagem de que o banco seria analisado pelas autoridades como qualquer outra instituição financeira.
Segundo Lula, Vorcaro teria reclamado de uma suposta perseguição contra o banco. O presidente afirmou que respondeu que o Master precisaria estar em conformidade com as regras e que, caso fossem identificadas irregularidades, as autoridades poderiam agir. O Banco Master acabou posteriormente submetido a medidas que culminaram em sua liquidação, enquanto Vorcaro foi preso no âmbito das investigações.
A defesa política de Lula é que o Banco Master foi criado durante o governo de Jair Bolsonaro e que as medidas mais duras contra a instituição e contra Vorcaro ocorreram durante sua administração. O caso, entretanto, ultrapassou a disputa entre governo e oposição e passou a envolver autoridades dos três Poderes.
Crise chegou ao centro do Supremo
A investigação provocou uma crise interna sem precedentes recentes no STF. André Mendonça, relator de parte dos processos relacionados ao Banco Master, divulgou documentos que levaram à abertura de uma frente de apuração envolvendo Moraes. Em reação, Moraes questionou a atuação de Mendonça e houve decisões conflitantes entre integrantes da Corte.
O presidente do STF, Edson Fachin, passou então a intervir diretamente para tentar reorganizar os procedimentos. Fachin retirou Moraes da relatoria do chamado inquérito das fake news, assumiu determinadas decisões relacionadas às investigações e determinou que futuras apurações envolvendo ministros da Corte passem por sua autorização.
Nos últimos dias, Mendonça também retirou o sigilo de parte das investigações relacionadas ao Banco Master. A medida atingiu 15 procedimentos, embora documentos cujo sigilo seja considerado necessário para preservar diligências ainda permaneçam protegidos.
Outros políticos também aparecem nas investigações
A crise não se limita ao Supremo. As investigações também alcançaram políticos de diferentes grupos. O senador Flávio Bolsonaro passou a ser investigado em uma apuração relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro que teria recebido recursos vinculados a Vorcaro. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades.
Outros nomes do cenário político brasileiro também aparecem em diferentes frentes da investigação, entre eles os senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner. A amplitude do caso fez com que a apuração deixasse de ser apenas uma investigação sobre uma instituição financeira e passasse a representar uma crise de confiança envolvendo relações entre empresários, políticos, autoridades policiais e integrantes do Judiciário.
O problema financeiro também ameaça o BRB
Paralelamente à crise política e institucional, permanecem os efeitos financeiros relacionados ao Banco Master. O Banco Regional de Brasília (BRB) enfrenta dificuldades decorrentes da aquisição de carteiras de crédito relacionadas ao Master e solicitou medidas para evitar impactos imediatos sobre seus balanços.
O ministro Luiz Fux determinou que a União, o Banco Central e o Fundo Garantidor de Créditos expliquem, em 15 dias, os obstáculos para viabilizar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões destinado a ajudar o BRB. O objetivo é enfrentar parte do rombo associado às operações com ativos posteriormente considerados problemáticos.
Lula tenta se colocar fora da crise
Ao defender que qualquer autoridade deve responder perante a lei, Lula procura estabelecer uma posição institucional em relação à crise que envolve o Supremo. O presidente afirma que não cabe ao Executivo proteger integrantes de outros Poderes diante de suspeitas e que as investigações devem seguir seu curso.
A declaração feita em Curitiba ganha peso justamente porque ocorre em um momento em que o STF tenta recuperar estabilidade interna. Com a sessão de 15 de setembro se aproximando e novos documentos sendo liberados, o caso Banco Master ainda pode produzir novos desdobramentos políticos e judiciais.
A crise coloca em discussão não apenas as suspeitas envolvendo uma instituição financeira, mas também os limites das relações entre o setor privado e as mais altas autoridades da República. Para Lula, a mensagem deve ser direta: ocupar uma cadeira na Suprema Corte significa exercer uma função de Estado, e não utilizar o poder público como instrumento de enriquecimento pessoal. Qualquer conclusão sobre responsabilidades, contudo, dependerá das investigações e das decisões das autoridades competentes.
Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República
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