Uma cena incomum da fauna brasileira surpreendeu turistas durante uma pescaria em Mato Grosso do Sul. Um grupo de sucuris-verdes foi registrado em pleno período reprodutivo no Rio Brilhante, formando o chamado “bolo de reprodução”, um comportamento natural que reúne uma grande fêmea e vários machos em torno dela. O flagrante foi feito por turistas de Goiás que estavam acompanhados pelo guia Antônio Marcos da Silva de Oliveira, conhecido como Maza Fishing.
O encontro ocorreu durante uma expedição de pesca e rapidamente chamou a atenção dos visitantes. As serpentes estavam enroladas próximas à vegetação às margens do rio, enquanto o grupo observava a movimentação dos animais. O guia orientou os turistas a manter distância e não interferir no comportamento das cobras, permitindo que o processo reprodutivo continuasse naturalmente.
Segundo o relato do guia, foi possível identificar pelo menos três cabeças entre as serpentes agrupadas. Isso indica que o registro provavelmente mostra uma fêmea acompanhada por dois ou mais machos, embora a quantidade exata de animais presentes no “bolo” não possa ser determinada apenas pelas imagens.
O fenômeno não é uma briga entre cobras nem um comportamento agressivo. Trata-se de uma estratégia reprodutiva conhecida cientificamente como poliandria, na qual uma única fêmea pode copular com diversos machos. Durante o período de reprodução, os machos são atraídos pelos feromônios liberados pela fêmea e permanecem próximos a ela, formando a característica massa de corpos entrelaçados.
Um comportamento que pode durar semanas
O chamado “bolo de reprodução” é particularmente impressionante porque não necessariamente termina em poucas horas. Pesquisas realizadas com sucuris-verdes em Mato Grosso do Sul já documentaram agrupamentos reprodutivos que permaneceram ativos durante dez a 12 dias, enquanto estudos sobre a espécie indicam que determinados eventos podem se prolongar por semanas.
Em registros científicos realizados na Serra da Bodoquena, pesquisadores acompanharam fêmeas de aproximadamente 4,5 metros cercadas por vários machos. Em um dos casos foram observados cinco machos junto à fêmea durante 12 dias; em outro, sete machos permaneceram envolvidos no processo por dez dias.
A diferença de tamanho entre os sexos ajuda a explicar a aparência impressionante dessas concentrações. As fêmeas são consideravelmente maiores e mais pesadas que os machos, podendo atingir vários metros de comprimento, enquanto os machos apresentam porte muito menor. Essa diferença pode fazer com que um observador sem conhecimento sobre a espécie interprete equivocadamente o agrupamento como uma fêmea cercada por filhotes.
Por que as sucuris se reúnem?
Durante a maior parte do ano, as sucuris-verdes são animais de hábitos predominantemente solitários. Elas podem compartilhar determinadas áreas, mas não costumam permanecer agrupadas. A exceção ocorre justamente durante a temporada reprodutiva.
A fêmea libera sinais químicos que atraem os machos existentes na região. Eles se aproximam e procuram permanecer próximos à região posterior do corpo da fêmea, esperando uma oportunidade para copular. O resultado é o característico “bolo”, que pode parecer uma massa de serpentes entrelaçadas na margem de um rio ou entre a vegetação.
Pesquisas realizadas em Mato Grosso do Sul também demonstram que esses encontros oferecem uma oportunidade excepcional para estudar a espécie em seu ambiente natural. Em trabalhos científicos, pesquisadores observaram os animais a partir de barcos, mantendo distância para evitar interferência no comportamento reprodutivo.
Uma das maiores serpentes do planeta
A protagonista do registro é a sucuri-verde (Eunectes murinus), uma das maiores serpentes do mundo e a espécie de maior massa entre as serpentes atualmente conhecidas. É um animal semiaquático, altamente adaptado à vida em rios, lagoas, áreas alagadas e regiões próximas à água.
Seus olhos e narinas ficam posicionados na parte superior da cabeça, característica que permite à serpente permanecer parcialmente submersa enquanto observa o ambiente e respira. A espécie é também uma excelente nadadora e utiliza os ambientes aquáticos tanto para se deslocar quanto para caçar e se reproduzir.
Apesar do tamanho e da força, especialistas destacam que a fama de agressividade das sucuris é frequentemente exagerada. Fora do período reprodutivo, elas tendem a permanecer isoladas e, diante da aproximação humana, normalmente procuram escapar para a água.
O registro também mostra a importância da conservação
O encontro no Rio Brilhante chama atenção para outro aspecto: a preservação dos ambientes naturais permite que comportamentos raros continuem ocorrendo diante dos olhos dos visitantes.
Mato Grosso do Sul possui extensas áreas de rios, matas e zonas úmidas que abrigam uma grande diversidade de espécies. Para pesquisadores e profissionais do turismo de natureza, registros como esse ajudam a mostrar que a fauna não está simplesmente “em exposição”: os animais possuem seus próprios ciclos e comportamentos, que precisam ser respeitados.
A orientação dada pelo guia aos turistas foi justamente manter uma distância segura e não tentar tocar, cercar ou movimentar os animais. Aproximar-se excessivamente poderia provocar estresse nas serpentes e interferir em um processo reprodutivo importante para a espécie.
Um espetáculo raro para quem estava no rio
Para os turistas que participavam da pescaria, o passeio acabou proporcionando algo muito diferente do que estava planejado. Em poucos minutos, uma atividade de lazer se transformou em uma oportunidade de observar um dos comportamentos mais particulares da fauna brasileira.
O episódio também demonstra que o ecoturismo pode proporcionar encontros extraordinários com a natureza quando realizado com orientação e respeito aos animais. O “bolo de sucuris” registrado em Mato Grosso do Sul não representa uma ameaça ou uma invasão de serpentes, mas um momento específico do ciclo de vida desses gigantes dos rios.
Para os turistas, foi uma cena inesperada. Para a ciência, é mais uma demonstração de como ainda existem comportamentos da fauna brasileira que podem ser observados diretamente em seu habitat natural — desde que o ser humano mantenha distância suficiente para que a natureza siga seu curso.
Foto: Maza Fishing / Reprodução
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