As investigações envolvendo o Banco Master entraram em uma nova fase neste sábado (12), com a divulgação de documentos, pedidos de acesso integral aos dados apreendidos pela Polícia Federal e uma disputa dentro do Supremo Tribunal Federal sobre a condução e a transparência das apurações. O caso, que começou com suspeitas de fraudes financeiras atribuídas ao grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, agora alcança ministros do STF, políticos e outras autoridades.
O ponto central das apurações é a chamada Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master. A análise dos documentos e dos dados apreendidos ampliou o alcance da investigação e revelou contatos entre Vorcaro e autoridades, além de operações financeiras que estão sendo examinadas pelos investigadores. O banqueiro permanece preso e é apontado pela investigação como figura central do esquema.
Entre as informações que ganharam destaque estão dados extraídos do celular de Vorcaro. Parte desse material contém mensagens trocadas com o ministro Alexandre de Moraes, incluindo conversas nas quais o ex-banqueiro teria buscado informações sobre a investigação que poderia levar à sua prisão e até perguntado sobre a possibilidade de deixar o país. O conteúdo está no centro da análise que será submetida ao plenário do STF.
A Polícia Federal também apontou elementos relacionados a um contrato entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Segundo documentos divulgados, o contrato tinha valor de aproximadamente R$ 131 milhões e previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões. A PF analisou metadados de documentos e atribuiu a um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” alterações na minuta contratual. A defesa e o escritório sustentam que a participação de Moraes ocorreu em contexto de revisão do documento e contestam interpretações de irregularidade.
O caso também alcançou o ministro Dias Toffoli. Um relatório anterior da Polícia Federal havia apontado indícios relacionados à sua proximidade com Vorcaro, incluindo referência a uma transferência de R$ 35 milhões ligada ao resort Tayayá. O episódio, porém, foi arquivado por unanimidade pelo STF, sem que o mérito das acusações fosse analisado, sob o entendimento de que a PF não poderia formular pedido de suspeição de um ministro daquela maneira.
Agora, a principal tensão dentro da Corte envolve Alexandre de Moraes e André Mendonça. Mendonça é o relator das investigações relacionadas ao caso Master e determinou a divulgação de documentos que estavam sob sigilo. Moraes, por sua vez, acusou o colega de ter feito uma “escolha seletiva” ao liberar apenas parte do material. Segundo Moraes, cerca de 180 documentos não teriam sido apresentados na abertura do sigilo.
Mendonça respondeu que retirou o sigilo de dezenas de procedimentos relacionados ao caso e que permaneceriam protegidas apenas informações cuja divulgação pudesse prejudicar diligências ainda em andamento ou futuras. A decisão foi tomada depois de o presidente do STF, Edson Fachin, solicitar maior transparência para que os ministros pudessem examinar o material antes das próximas sessões do plenário.
A discussão ganhou novo capítulo neste sábado. O ministro Gilmar Mendes pediu a Fachin que todos os integrantes do STF tenham acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro. Caso o gabinete de Mendonça não disponibilize o material, Gilmar solicitou que a própria Polícia Federal seja acionada para fornecer as cópias. Para ele, o acesso desigual ao conteúdo pode comprometer a formação independente da convicção dos ministros e a própria colegialidade da Corte.
Fachin, entretanto, decidiu não colocar as duas investigações na mesma sessão. O plenário deverá analisar na próxima terça-feira, 15 de setembro, o relatório relacionado à possível investigação sobre a atuação de Alexandre de Moraes e sua relação com Vorcaro. Já a análise envolvendo André Mendonça foi marcada para 23 de setembro, porque, segundo Fachin, os dois procedimentos encontram-se em estágios diferentes de instrução.
O caso também chega ao campo eleitoral
A abertura dos documentos revelou ainda uma investigação envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo os documentos divulgados, a investigação foi autorizada por Mendonça e apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento da produção. O material também aponta que Daniel Vorcaro teria destinado pelo menos R$ 61 milhões à produtora responsável pelo filme, embora o acordo mencionado na investigação previsse um aporte de US$ 24 milhões.
Outros políticos aparecem nos documentos que vieram a público, entre eles os senadores Jaques Wagner e Ciro Nogueira, além de referências a autoridades e dirigentes de instituições públicas. A divulgação ampliou o impacto político do caso justamente em um período de intensa disputa eleitoral no Brasil.
Suspeitas de fraude bilionária
No campo financeiro, uma das frentes mais graves da investigação envolve operações de crédito consideradas fraudulentas. A Polícia Federal afirma que Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, teria participado da criação de carteiras de crédito falsas posteriormente repassadas ao Banco de Brasília (BRB).
Segundo a investigação, o BRB teria comprado aproximadamente R$ 12,2 bilhões em ativos considerados falsos, enquanto uma auditoria identificou prejuízo de pelo menos R$ 5 bilhões para o banco público. A PF solicitou novas quebras de sigilos bancário e fiscal para aprofundar a apuração. A defesa de Lima nega as acusações e afirma que não existem provas que sustentem as suspeitas.
Outro conjunto de documentos aponta que Master e a empresa Tirreno Consultoria teriam firmado 28 instrumentos de cessão de créditos consignados entre dezembro de 2024 e maio de 2025. Perícia citada nas investigações indicou que não houve liquidação financeira real das operações nem transferência efetiva dos valores para a empresa, o que levantou novas suspeitas sobre a existência de créditos sem lastro.
Uma crise que ultrapassou o Banco Master
O que começou como uma investigação financeira transformou-se em uma crise institucional de grandes proporções. O caso agora envolve Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público Federal, STF, políticos de diferentes grupos e interesses empresariais, enquanto novas informações continuam surgindo a partir da análise do material apreendido.
A disputa dentro do Supremo acrescenta uma dimensão inédita ao processo. De um lado, ministros defendem o acesso integral às provas para garantir transparência e julgamento colegiado. De outro, há preocupação de que a divulgação de determinadas informações possa prejudicar diligências ainda em andamento.
O Caso Master, portanto, deixou de ser apenas uma investigação sobre possíveis irregularidades no sistema financeiro. As novas revelações colocaram sob escrutínio relações entre empresários, autoridades, instituições públicas e integrantes da própria Suprema Corte. Com novas sessões do STF já marcadas e investigações ainda abertas, o conteúdo dos documentos que continuam sendo analisados poderá ampliar ainda mais o alcance da crise nas próximas semanas.
Foto: Divulgação / Banco Master
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