O Espírito Santo poderá avançar em uma nova frente para ampliar a participação de empresas locais no comércio internacional. A proposta está inserida em uma estratégia mais ampla de fortalecimento da cultura exportadora e busca criar condições para que um número maior de negócios capixabas consiga acessar compradores estrangeiros, diversificar mercados e reduzir a dependência de poucos produtos e destinos.
A discussão ganha relevância porque o Espírito Santo possui uma posição logística privilegiada no Brasil, com infraestrutura portuária, conexão rodoviária e ferroviária em expansão e proximidade dos principais centros econômicos do país. O próprio Governo do Estado apresenta a localização capixaba como estratégica para alcançar uma parcela expressiva do PIB brasileiro em um raio de mil quilômetros.
A iniciativa também se relaciona com o Plano de Promoção da Cultura Exportadora do Espírito Santo, elaborado para o período de 2026 a 2027 em uma parceria entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Desenvolvimento do Estado. O plano foi estruturado em quatro grandes eixos: articulação institucional, promoção de negócios, promoção da imagem e financiamento.
A proposta parte de um diagnóstico importante: aumentar as exportações não depende apenas de produzir mais, mas de preparar empresas para vender fora do país. Isso envolve capacitação, identificação de compradores, adequação dos produtos às exigências de cada mercado, formação de preços, logística internacional, documentação, promoção comercial e acesso a mecanismos de financiamento.
Nesse contexto, um programa voltado à ampliação das vendas internacionais poderá beneficiar especialmente pequenas e médias empresas que possuem produtos competitivos, mas ainda não possuem estrutura ou conhecimento suficiente para iniciar uma operação de exportação. A estratégia estadual prevê justamente a construção de competências entre empreendedores e atores públicos e privados, além da promoção de produtos, serviços e negócios destinados ao mercado externo.
Diversificar para reduzir a dependência
A necessidade de diversificação ganhou ainda mais importância diante da concentração histórica da pauta exportadora capixaba. O Estado possui forte presença internacional em segmentos como minério de ferro, aço, café, celulose e rochas ornamentais. Ao mesmo tempo, existem setores capazes de ampliar sua participação no comércio exterior.
Dados apresentados pelo Governo do Espírito Santo mostram que o Estado é um dos principais produtores de petróleo e gás do Brasil, além de possuir forte atuação em mármore e granito, pelotas de minério de ferro, aço, agricultura, logística, turismo e inovação.
No agronegócio, por exemplo, o Governo mantém acompanhamento específico das exportações e publicou relatórios trimestrais referentes a 2026, mostrando a importância crescente dos produtos agropecuários na pauta internacional capixaba.
O desafio, portanto, é fazer com que a capacidade produtiva do Estado se transforme em uma presença internacional mais diversificada. Isso significa alcançar novos compradores e ampliar o número de empresas exportadoras, em vez de concentrar grande parte das vendas externas em um grupo limitado de grandes companhias.
Logística pode ser uma das grandes vantagens
Outro fator que favorece a estratégia é a infraestrutura logística. O Espírito Santo vem buscando consolidar-se como uma plataforma de conexão entre o Brasil e o mercado mundial.
Em junho, durante a Modal Expo 2026, a Secretaria de Desenvolvimento destacou investimentos em infraestrutura portuária e corredores de transporte, incluindo projetos relacionados à Ferrovia EF-118, à BR-101 e à BR-262. O Estado também apresentou seu potencial como hub logístico nacional.
A mesma estratégia está associada ao fortalecimento do comércio exterior e à atração de investimentos. A avaliação do governo estadual é que uma estrutura logística mais eficiente pode reduzir custos, aumentar a competitividade das empresas e facilitar a chegada dos produtos capixabas a mercados internacionais.
Para pequenos negócios, esse ponto é especialmente importante. Uma empresa pode possuir um produto competitivo, mas perder mercado se o custo de transporte, armazenamento, seguro ou desembaraço aduaneiro tornar o preço final pouco atrativo.
Oportunidade para pequenas empresas
Um dos objetivos mais relevantes de uma política de expansão das exportações é permitir que empresas que nunca venderam para fora do Brasil consigam fazer sua primeira operação internacional.
A experiência do Espírito Santo com programas de apoio a micro e pequenas empresas já mostra uma estrutura de cooperação entre governo, Sebrae, Federação das Indústrias e outras instituições. O programa Compre do ES, por exemplo, foi criado para ampliar oportunidades de negócios para micro e pequenas empresas e estimular sua competitividade.
Na área de comércio exterior, a lógica é semelhante: preparar o empresário para compreender o mercado internacional antes de assumir os custos e riscos de uma operação.
Essa preparação pode ser decisiva para setores como alimentos, café, bebidas, rochas ornamentais, produtos industrializados, tecnologia, equipamentos, serviços e turismo. Quanto maior a diversidade de empresas capazes de exportar, menor a dependência da economia estadual de poucos produtos tradicionais.
O mercado internacional também está mudando
A busca por novos compradores ocorre em um cenário de transformação do comércio mundial. Mudanças tarifárias, conflitos geopolíticos, novas exigências ambientais, alterações nas cadeias de fornecimento e disputas comerciais tornam arriscada a dependência excessiva de um único país comprador.
Um exemplo recente está nas exportações capixabas para os Estados Unidos. Em agosto de 2026, as vendas do Espírito Santo ao mercado norte-americano chegaram a US$ 232,6 milhões, embora tenham recuado 34,7% em relação a julho. O volume embarcado também caiu 48,9% na comparação mensal.
Esse tipo de oscilação reforça a importância de uma estratégia de diversificação. Ter diferentes países compradores e uma pauta exportadora mais ampla pode ajudar as empresas a absorver mudanças repentinas em tarifas, demanda ou condições econômicas.
Uma porta para o mercado global
O possível novo programa representa, portanto, mais do que uma iniciativa para aumentar o valor das exportações. Ele pode contribuir para mudar a relação de pequenas e médias empresas capixabas com o mercado internacional.
A ideia central é transformar empresas que hoje produzem principalmente para o mercado brasileiro em negócios preparados para disputar consumidores em diferentes países.
Para isso, será fundamental combinar capacitação, inteligência comercial, financiamento, logística, participação em feiras internacionais, promoção da marca Espírito Santo e aproximação com compradores estrangeiros — exatamente os elementos previstos nos eixos do Plano de Promoção da Cultura Exportadora do Estado.
Se o Espírito Santo conseguir transformar sua vantagem logística e sua diversidade produtiva em uma base maior de empresas exportadoras, o resultado poderá ultrapassar o aumento imediato das vendas externas. A internacionalização pode significar novos investimentos, empregos, inovação, agregação de valor e maior integração do Estado com as cadeias produtivas globais.
Foto: Governo do Espírito Santo / Divulgação
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