O encontro Conexões Produtivas, que será realizado em Goiânia nesta quinta-feira, 17 de setembro, coloca Goiás no centro de uma discussão estratégica para o comércio exterior brasileiro: como transformar a capacidade industrial do Estado em novos negócios internacionais. A iniciativa reúne governo federal, indústria, entidades empresariais e instituições de apoio para discutir competitividade, financiamento, inovação e, principalmente, as oportunidades abertas pelo Acordo Mercosul–União Europeia.
Promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pela ApexBrasil, com participação de instituições como Sebrae, BNDES, INPI, Inmetro e FIEG, o encontro pretende aproximar quem produz de quem pode ajudar a colocar esses produtos em mercados estrangeiros. A programação inclui debates sobre acordos comerciais, tecnologia, financiamento ao comércio exterior e oportunidades específicas para empresas goianas.
Mas quais empresas podem efetivamente se beneficiar desse movimento? A resposta não está apenas nas grandes indústrias. A estratégia também alcança pequenas e médias empresas que já possuem capacidade produtiva, mas ainda não têm experiência suficiente para exportar. O programa Brasil Mais Produtivo, por exemplo, já atendia até o final de agosto 134.943 empresas, sendo 60.205 industriais e 74.566 dos setores de comércio e serviços. Segundo o governo, as empresas atendidas registraram aumento médio de 28% na produtividade.
Agroindústria e alimentos podem ganhar espaço
Goiás possui uma das bases mais importantes do agronegócio brasileiro, o que cria possibilidades para a exportação de produtos agroindustriais, alimentos processados, carnes, derivados, produtos de origem vegetal e insumos relacionados à cadeia agrícola.
A oportunidade, porém, está justamente em avançar da exportação de matérias-primas para produtos com maior valor agregado. Uma indústria que transforma a produção agrícola em alimentos processados, ingredientes, produtos congelados ou outros derivados pode encontrar mercados internacionais mais diversificados, desde que consiga cumprir requisitos sanitários, ambientais, técnicos e de rastreabilidade.
Para empresas goianas, o desafio será identificar quais produtos possuem demanda real na Europa e quais condições tarifárias serão aplicadas. É justamente para facilitar essa análise que a ApexBrasil criou o “Painel Acordo Mercosul-União Europeia: Oportunidades por Estado”, uma plataforma que permite consultar oportunidades por unidade da Federação, produto e mercado, além de informações sobre tarifas e cronogramas de redução.
Farmacêutica, química e saúde também entram no radar
Outro segmento com potencial é a indústria química e farmacêutica, especialmente empresas que produzem insumos, produtos especializados, equipamentos ou soluções tecnológicas.
A entrada nesses mercados, entretanto, exige uma preparação muito maior do que simplesmente encontrar um comprador. Certificações, propriedade intelectual, padrões de qualidade, registro de produtos, regras ambientais e exigências específicas de cada país podem determinar se uma empresa terá condições de competir.
Nesse ponto, a participação do INPI, Inmetro e instituições de apoio no Conexões Produtivas ganha importância. A internacionalização exige que a indústria esteja preparada não apenas para vender, mas para atender às normas do mercado de destino.
Máquinas, equipamentos e tecnologia podem ampliar a pauta
A transformação industrial de Goiás também abre espaço para empresas produtoras de máquinas, equipamentos, componentes, automação e soluções tecnológicas.
Esse segmento pode atuar de duas maneiras: exportando produtos diretamente ou integrando cadeias produtivas internacionais como fornecedora de componentes e tecnologia.
A própria agenda do evento prevê discussão sobre difusão tecnológica e competitividade. A estratégia é particularmente relevante para pequenas e médias empresas, que muitas vezes possuem produtos competitivos, mas enfrentam dificuldades para investir em digitalização, produtividade e adequação aos padrões internacionais.
E onde entra a importação?
O movimento não deve ser analisado somente pelo lado das exportações. A abertura de novos mercados também pode estimular as importações de máquinas, equipamentos, componentes e tecnologias necessárias para modernizar a indústria goiana.
Uma empresa pode importar uma máquina europeia, incorporar essa tecnologia à sua linha de produção e, posteriormente, exportar o produto final para outros países. Dessa maneira, o comércio exterior deixa de funcionar apenas como uma operação de compra ou venda e passa a integrar toda a estratégia industrial.
Para o Mercosul, essa possibilidade é especialmente relevante. Uma empresa instalada em Goiás pode utilizar fornecedores internacionais, produzir no Brasil e buscar mercados dentro do próprio bloco ou na União Europeia, dependendo das regras de origem e das condições estabelecidas pelos acordos comerciais.
O Mercosul pode ser a primeira etapa
A grande oportunidade para empresas goianas não precisa necessariamente começar diretamente pela Europa. O mercado regional do Mercosul pode funcionar como uma etapa de preparação para empresas que ainda não possuem experiência internacional.
Exportar para Argentina, Paraguai e Uruguai, por exemplo, permite que uma empresa desenvolva capacidade logística, documentação de comércio exterior, formação de preços internacionais, atendimento a compradores estrangeiros e experiência com operações cambiais.
Depois, com maior maturidade, a empresa pode ampliar sua atuação para mercados mais distantes.
Esse modelo pode ser particularmente interessante para pequenas e médias indústrias. Em vez de imaginar a internacionalização como um salto imediato para a Europa, o processo pode ser construído gradualmente dentro de uma cadeia regional que posteriormente alcance outros mercados.
Goiás tem uma posição logística estratégica
Outro fator que pode favorecer a expansão comercial é a localização de Goiás no centro do território brasileiro. O Estado está conectado a importantes corredores rodoviários e ferroviários e possui proximidade com centros econômicos como Brasília, Minas Gerais e São Paulo.
Essa posição pode facilitar a movimentação de mercadorias para portos utilizados nas exportações brasileiras e também a distribuição de produtos importados para diferentes regiões do país.
Para uma indústria exportadora, entretanto, logística competitiva é apenas uma parte da equação. O produto precisa chegar ao destino com preço, prazo e qualidade capazes de competir com fornecedores de outros países.
Uma oportunidade que exige preparação
O presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, destacou que o Acordo Mercosul–União Europeia abre uma perspectiva importante para ampliar a inserção internacional da indústria brasileira, mas ressaltou que transformar esse potencial em negócios exige preparação, competitividade e inteligência de mercado.
É exatamente esse ponto que interessa às empresas do Mercosul: não basta existir um acordo comercial; é necessário descobrir quais produtos serão beneficiados, quais mercados apresentam demanda, quais tarifas serão reduzidas e quais exigências deverão ser cumpridas.
O Painel da ApexBrasil procura responder parte dessas perguntas ao apresentar oportunidades por Estado, produto e mercado. A ferramenta também permite que o empresário deixe de trabalhar apenas com uma visão genérica de “exportar para a Europa” e passe a identificar oportunidades específicas.
Uma porta para a integração regional
O Conexões Produtivas de Goiânia ocorre em um momento em que o comércio internacional passa por profundas mudanças. Para Goiás, a discussão representa uma oportunidade de aproximar a indústria de novos compradores, fornecedores, tecnologias e fontes de financiamento.
Para o Mercosul, o movimento também merece atenção. Uma indústria mais competitiva no Brasil pode significar novas cadeias de fornecedores, maior circulação de investimentos e novas possibilidades de integração produtiva entre os países do bloco.
Empresas de alimentos, agronegócio, máquinas, equipamentos, química, saúde, tecnologia, componentes industriais e outros segmentos podem encontrar oportunidades tanto para exportar quanto para importar tecnologia e insumos.
O verdadeiro desafio começa depois do evento: transformar informação em estratégia empresarial. Para uma empresa que hoje vende apenas no mercado brasileiro, identificar um produto com demanda na Europa pode ser o primeiro passo. Para outra, importar uma tecnologia que reduza custos pode ser a forma de se tornar competitiva para posteriormente exportar. E, para o Mercosul, esse processo pode representar uma nova etapa de integração baseada não apenas em comércio, mas em cadeias produtivas compartilhadas.
Foto: Júlio César Silva / MDIC / A Redação
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Periodista prensa mercosur
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