O cacique Raoni Metuktire, uma das mais reconhecidas lideranças indígenas do Brasil e símbolo internacional da defesa da Amazônia e dos povos originários, foi diagnosticado com um câncer no aparelho digestório e está recebendo cuidados paliativos em sua residência, em Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso. A informação foi divulgada pelo Instituto Raoni na segunda-feira, 14 de setembro. Aos 94 anos, Raoni permanece acompanhado por familiares, profissionais de saúde e pessoas de sua confiança.
O diagnóstico identificado pelos exames é de um adenocarcinoma pouco diferenciado, uma forma de câncer que pode apresentar comportamento agressivo. Segundo o Instituto Raoni, a decisão pelo tratamento paliativo levou em consideração a idade do cacique, seu estado clínico e os riscos elevados que poderiam representar procedimentos e tratamentos oncológicos mais agressivos. A prioridade passou a ser o controle dos sintomas, o conforto e a preservação da melhor qualidade de vida possível.
A doença foi descoberta depois de uma sequência de problemas de saúde registrados ao longo de 2026. Raoni começou a apresentar dores abdominais persistentes e precisou passar por avaliações médicas em Mato Grosso. Em junho, seu estado se agravou com vômitos intensos e uma obstrução intestinal na região do duodeno, provocada pelo tumor. Exames confirmaram a presença da lesão, enquanto o quadro também foi acompanhado por desidratação, alterações renais, infecção e pneumonia aspirativa.
Diante da gravidade, Raoni foi transferido de Mato Grosso para São Paulo, onde recebeu atendimento especializado no Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No dia 20 de junho, foi submetido a uma gastroenteroanastomose por videolaparoscopia. O procedimento criou uma nova passagem para que os alimentos pudessem contornar a região obstruída pelo tumor, permitindo melhorar a alimentação e proporcionar maior conforto ao paciente.
Após o período de internação, houve melhora suficiente para que o cacique recebesse alta e retornasse a Mato Grosso. Entretanto, no fim de julho, ele voltou a apresentar complicações e sofreu uma grave hemorragia digestiva, necessitando de novo atendimento médico. A sequência de intercorrências levou as equipes a considerar que intervenções mais agressivas poderiam representar riscos desproporcionais diante de sua condição clínica.
Agora, os cuidados são realizados em uma estrutura de assistência domiciliar em Peixoto de Azevedo. O acompanhamento envolve profissionais médicos e de enfermagem, fisioterapia, controle da alimentação e hidratação, administração de medicamentos, controle da dor e monitoramento de possíveis complicações. O Instituto Raoni ressalta que cuidados paliativos não significam ausência de tratamento, mas uma mudança no objetivo da assistência, concentrada no bem-estar e na qualidade de vida.
Há também uma dimensão cultural e espiritual nesse atendimento. Raoni é pajé e, segundo o Instituto, recebe a presença e os cuidados de pajés de sua confiança, além do acompanhamento de familiares e de profissionais vinculados à rede de saúde indígena. A assistência procura respeitar a cultura Mẽbêngôkre, sua língua, suas escolhas e suas referências espirituais, integrando os cuidados médicos convencionais às práticas e necessidades culturais do cacique.
A rede de assistência envolve diferentes instituições, entre elas equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), da Casa de Saúde Indígena (CASAI) de Peixoto de Azevedo, do Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas da Unifesp e dos hospitais que acompanharam sua trajetória recente. O Instituto Raoni também informou que familiares, lideranças e parceiros construíram uma rede para garantir a continuidade do atendimento próximo à comunidade.
Uma vida dedicada à defesa da Amazônia
Raoni Metuktire é uma das figuras indígenas brasileiras de maior projeção internacional. Integrante do povo Kayapó, passou décadas denunciando a destruição da floresta, defendendo os territórios indígenas e alertando líderes políticos e instituições internacionais sobre as ameaças à Amazônia.
Sua projeção internacional cresceu especialmente a partir do final dos anos 1980, quando estabeleceu uma conhecida parceria com o músico britânico Sting. Juntos, percorreram diferentes países para chamar a atenção para a proteção das florestas tropicais e dos direitos dos povos indígenas. Sua trajetória também foi registrada no documentário “Raoni”, lançado em 1978 e indicado ao Oscar de 1979.
Mesmo aos 94 anos, Raoni continuou participando de mobilizações indígenas. Em abril deste ano, esteve no Acampamento Terra Livre, em Brasília, uma das principais mobilizações anuais dos povos indígenas brasileiros. Sua presença demonstrava que, apesar da idade avançada e das limitações físicas, continuava ligado às principais discussões sobre os direitos dos povos originários.
Agora, afastado das grandes mobilizações e sob cuidados contínuos, Raoni vive uma etapa diferente de sua longa trajetória. O Instituto pediu respeito à privacidade do cacique e de sua família, enquanto a equipe responsável concentra seus esforços em garantir conforto, assistência médica e acompanhamento próximo.
A notícia sobre o estado de saúde de Raoni ultrapassa a dimensão de um diagnóstico médico. Durante décadas, sua voz se tornou uma das mais conhecidas internacionalmente na defesa da Amazônia, dos povos indígenas e da preservação ambiental. Aos 94 anos, o cacique enfrenta agora uma batalha pessoal, cercado pela família, por sua comunidade e por uma rede de cuidados que procura respeitar não apenas suas necessidades clínicas, mas também sua cultura e sua espiritualidade.
Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, originario de Goiás, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur y Director General de Radio Mercosur. Es miembro de la Asociación Brasileña de Prensa (ABI) y desarrolla su trayectoria en el periodismo internacional, el Mercosur, la integración regional, la geopolítica y los derechos humanos. Cuenta con un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y un Doctorado Honoris Causa.
También fue Director General del Comité Paraguay de la Cámara de Industria y Comercio del Mercosur y las Américas. Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México, recibido en 2021, y el reconocimiento como Amigo de la Niñez y la Adolescencia otorgado por Plan International Paraguay.
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