O avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia abre uma nova frente de oportunidades para o setor de infraestrutura brasileiro, especialmente com a possibilidade de maior circulação de investimentos, participação de empresas em projetos internacionais e ampliação das relações comerciais. A avaliação é do advogado Augusto Dal Pozzo, especialista em Direito Administrativo, em entrevista ao Capital Infra, do Times Brasil.
O acordo de parceria entre os dois blocos foi assinado em 17 de janeiro de 2026 e estabeleceu um marco para comércio, investimentos e cooperação entre as regiões. Segundo o governo brasileiro, o acordo integra um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas, com Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 22 trilhões. O acordo comercial interino entrou em vigor em 1º de maio de 2026.
Na avaliação de Dal Pozzo, a infraestrutura será um dos elementos necessários para que a abertura comercial produza efeitos mais amplos. Isso envolve não apenas a construção de novas obras, mas também a modernização de rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, terminais e sistemas de armazenamento, capazes de reduzir custos e gargalos que afetam o comércio exterior brasileiro.
O especialista também aponta uma possibilidade de expansão internacional para empresas brasileiras. Segundo ele, companhias nacionais que já possuem experiência em engenharia, operação e serviços públicos podem disputar projetos na Europa, desde que atendam aos requisitos estabelecidos nos processos de contratação. Uma das características destacadas é que a empresa não precisaria necessariamente ter atuação anterior no país europeu onde pretende executar determinado projeto.
Outro ponto importante está relacionado às compras governamentais. O capítulo 12 do acordo estabelece regras que, segundo a análise apresentada por Dal Pozzo, podem ampliar a participação de empresas brasileiras e europeias em determinados processos de contratação. Para isso, segurança jurídica, transparência e critérios objetivos serão fundamentais, principalmente em contratos de infraestrutura que envolvem investimentos elevados e prazos de execução prolongados.
O licenciamento ambiental aparece entre os temas que exigem maior previsibilidade. A avaliação apresentada na entrevista é de que critérios claros e previamente conhecidos podem contribuir para reduzir incertezas em projetos de longo prazo. Ao mesmo tempo, empresas interessadas em atuar nos dois mercados terão de compreender as exigências regulatórias brasileiras e europeias.
A infraestrutura também poderá determinar quanto o Brasil conseguirá aproveitar da abertura comercial. A redução de tarifas e a ampliação do acesso aos mercados europeus não eliminam problemas logísticos internos. Se portos, ferrovias, rodovias, hidrovias e sistemas de armazenagem permanecerem com limitações, parte dos ganhos obtidos com o comércio poderá continuar sendo consumida pelos custos de transporte e logística.
Para Dal Pozzo, o desafio não está apenas em exportar mais commodities. O Brasil também possui espaço para ampliar a participação de produtos industrializados, tecnologia e serviços especializados no comércio internacional. Para isso, entretanto, será necessário acompanhar a expansão comercial com investimentos capazes de aumentar a eficiência da infraestrutura nacional.
O acordo Mercosul-UE também prevê mecanismos de cooperação e amplia as condições de acesso dos produtos do bloco sul-americano ao mercado europeu. O comunicado oficial do Mercosul informa que a União Europeia eliminará tarifas para 92% das exportações do Mercosul e concederá acesso preferencial para outros 7,5%, abrangendo quase a totalidade das exportações do bloco destinadas ao mercado europeu.
Esse cenário coloca a infraestrutura no centro de uma etapa de integração econômica que ultrapassa a questão tarifária. Para o Brasil, a capacidade de movimentar mercadorias com menor custo, garantir segurança regulatória e preparar empresas para disputar contratos internacionais será determinante para transformar a ampliação do comércio em novos projetos e investimentos.
A discussão ocorre em um momento no qual o acordo já possui aplicação provisória e os países precisam avançar na implementação de seus compromissos. Para empresas de infraestrutura, investidores e governos, a nova realidade exige planejamento de longo prazo, preparação técnica e atenção às regras de contratação, financiamento, licenciamento e operação nos dois mercados.
O acordo Mercosul-UE, portanto, não representa apenas uma abertura para novos mercados de exportação. Ele também coloca em evidência uma questão estrutural: sem infraestrutura adequada, parte das oportunidades criadas pelo comércio internacional pode não alcançar todo o seu potencial. A próxima etapa será transformar a abertura econômica em investimentos concretos, maior eficiência logística e participação efetiva das empresas brasileiras em uma relação comercial que conecta diretamente o Mercosul a um dos maiores mercados do mundo.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Periodista prensa mercosur
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