A cenoura é conhecida por sua concentração de betacaroteno, um pigmento que o organismo pode transformar em vitamina A, mas a maneira como esse alimento é consumido pode influenciar a quantidade de nutrientes efetivamente aproveitada pelo corpo. Estudos de nutrição mostram que os carotenoides, incluindo o betacaroteno e o alfa-caroteno presentes na cenoura, são compostos lipossolúveis e tendem a ser melhor absorvidos quando a refeição contém alguma fonte de gordura. A descoberta ajuda a explicar por que uma simples combinação de alimentos pode modificar a biodisponibilidade de determinados nutrientes.
A vitamina A desempenha funções importantes na visão, no sistema imunológico, na manutenção da pele e no funcionamento de diferentes tecidos. Entretanto, a cenoura não fornece principalmente vitamina A pronta: ela contém carotenoides provitamina A que podem ser convertidos pelo organismo em retinol, a forma biologicamente ativa da vitamina. Essa conversão varia entre as pessoas e depende de diversos fatores relacionados à digestão, absorção e metabolismo dos carotenoides. Pesquisas com seres humanos demonstram, inclusive, uma ampla variação individual na capacidade de transformar o alfa-caroteno e o betacaroteno em vitamina A.
A presença de gordura na refeição pode favorecer esse processo porque os carotenoides são incorporados às estruturas responsáveis pelo transporte de substâncias lipossolúveis durante a digestão. Por isso, consumir cenoura acompanhada de uma pequena quantidade de uma fonte de gordura pode aumentar a disponibilidade de seus carotenoides para absorção intestinal. Isso não significa que seja necessário adicionar grandes quantidades de óleo ou outros alimentos gordurosos: o princípio nutricional está relacionado à presença de gordura suficiente para facilitar a absorção dos compostos.
A forma de preparação da cenoura também interfere na biodisponibilidade. Um estudo realizado com participantes humanos comparou a absorção de betacaroteno proveniente de cenouras cruas e de cenouras preparadas na forma de suco. O suco de cenoura apresentou concentração máxima de betacaroteno no sangue 2,33 vezes maior e uma área de absorção aproximadamente 2,09 vezes superior à observada após o consumo da cenoura crua, possivelmente porque o processamento rompe parte das estruturas celulares que mantêm os carotenoides dentro do vegetal.
Pesquisas anteriores também encontraram diferenças importantes de acordo com o preparo. Em um estudo com cenouras marcadas isotopicamente, a biodisponibilidade do betacaroteno foi muito maior quando as cenouras foram preparadas de maneira que facilitasse a liberação dos carotenoides. Quando a cenoura foi salteada, a disponibilidade do betacaroteno proveniente do alimento foi estimada em aproximadamente 75%, contra cerca de 11% na preparação crua, enquanto o rendimento de retinol derivado dos carotenoides da cenoura aumentou aproximadamente 6,5 vezes com o preparo utilizado no experimento.
A combinação com outras fontes de gordura também pode ser utilizada no cotidiano sem alterar completamente os hábitos alimentares. Cenoura com azeite de oliva, abacate, sementes, castanhas ou outras fontes alimentares de gordura são exemplos de combinações que podem favorecer o aproveitamento dos carotenoides. O mesmo princípio vale para outros vegetais ricos nesses compostos, como batata-doce, tomate, espinafre e folhas verdes. A evidência científica indica que o efeito está relacionado principalmente à natureza lipossolúvel dos carotenoides, e não a uma propriedade exclusiva da cenoura.
Isso não significa, porém, que a cenoura precise ser consumida obrigatoriamente com gordura para ser saudável. O vegetal continua sendo uma fonte importante de fibras, carotenoides e outros componentes nutricionais mesmo quando consumido sozinho. A combinação com gordura representa uma estratégia para potencializar a absorção de determinados compostos, e não uma condição para que o alimento tenha valor nutricional. Da mesma forma, uma alimentação equilibrada não depende de combinações específicas em todas as refeições.
O conhecimento sobre a biodisponibilidade dos nutrientes reforça uma ideia importante da ciência da alimentação: não importa apenas quais nutrientes estão presentes em um alimento, mas também quanto deles o organismo consegue absorver e utilizar. O preparo, a composição da refeição e as características individuais podem modificar esse processo. No caso da cenoura, a associação entre carotenoides, processamento e presença de gordura mostra como pequenas mudanças na maneira de preparar os alimentos podem influenciar o aproveitamento de seus componentes.
Para a alimentação cotidiana, a recomendação mais simples é manter a cenoura dentro de uma dieta variada e combinar alimentos de diferentes grupos. Uma salada de cenoura com azeite, uma preparação cozida acompanhada de uma fonte saudável de gordura ou outros pratos que associem vegetais e lipídios podem favorecer a absorção dos carotenoides, sem necessidade de recorrer a suplementos. A evidência disponível apoia a importância da combinação, mas também mostra que fatores como processamento e diferenças individuais têm papel relevante na quantidade de vitamina A efetivamente produzida pelo organismo.
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