Pequenos detalhes espalhados pelas calçadas de Goiânia estão ajudando a contar uma história que normalmente permanece escondida sob os pés dos moradores: antigas tampas de bueiros, registros de obras e marcas deixadas na infraestrutura urbana revelam diferentes momentos da expansão da capital de Goiás. Uma delas, localizada na esquina da Rua 1 com a Rua 29, junto ao Bosque dos Buritis, registra 1973 como o ano da pavimentação do Setor Oeste, transformando uma peça aparentemente banal de infraestrutura em uma espécie de documento a céu aberto. A descoberta chama atenção justamente porque Goiânia foi uma cidade planejada desde sua origem e suas ruas, bairros, sistemas viários, galerias e redes de saneamento acompanharam as diferentes fases de crescimento urbano. Ao observar essas tampas com atenção, é possível reconstruir parte da trajetória de uma capital que nasceu na década de 1930 para cerca de 50 mil habitantes e que, em poucas décadas, passou por uma expansão urbana muito superior ao planejamento inicial.
O detalhe registrado na tampa localizada próxima ao Bosque dos Buritis ganha ainda mais significado quando se conhece a história do Setor Oeste. A área fazia parte do planejamento urbano concebido para a nova capital e foi incorporada ao desenho de Goiânia durante a revisão do projeto original realizada por Armando Augusto de Godoy. Segundo o Anuário Estatístico da Prefeitura de Goiânia, Godoy reformulou o projeto inicial de Attilio Corrêa Lima, incluindo o parcelamento do Setor Oeste e modificando significativamente o sistema viário do Setor Sul.
Isso significa que aquela inscrição de 1973 não representa simplesmente uma data colocada sobre uma peça de metal. Ela registra uma etapa posterior da transformação de um bairro que havia sido concebido décadas antes. Entre o projeto urbanístico de 1933–1935 e a pavimentação indicada na tampa passaram-se aproximadamente quatro décadas, período em que Goiânia deixou de ser uma cidade em construção para se transformar em um dos principais centros urbanos do Centro-Oeste brasileiro.
A própria Prefeitura de Goiânia informa que a capital foi planejada inicialmente para aproximadamente 50 mil habitantes. O crescimento, entretanto, foi muito mais rápido do que os primeiros planejadores poderiam imaginar. A chegada da estrada de ferro em 1951, a expansão econômica regional, a construção de Brasília entre 1954 e 1960 e outros fatores aceleraram a ocupação urbana. Em 1965, Goiânia já tinha aproximadamente 150 mil habitantes e, somente durante a década de 1960, surgiram cerca de 125 novos bairros.
É justamente nesse processo de expansão que elementos como ruas pavimentadas, galerias de águas pluviais, redes de água e esgoto e tampas de inspeção passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante. A infraestrutura subterrânea acompanhou a cidade que crescia na superfície.
O mais interessante é que parte dessa infraestrutura permanece visível décadas depois. Enquanto edifícios são demolidos, lojas mudam de nome, ruas recebem novas camadas de asfalto e bairros passam por transformações profundas, determinadas peças de metal continuam no mesmo lugar. Elas podem carregar datas, nomes de empresas, órgãos públicos, símbolos e referências técnicas, funcionando involuntariamente como pequenas cápsulas do tempo.
A cidade planejada que cresceu muito além do projeto original
Para compreender por que esses registros são importantes, é preciso voltar ao início de Goiânia.
Em 1932, o governo de Pedro Ludovico Teixeira criou uma comissão destinada a escolher o local da futura capital. Depois de estudos topográficos, hidrológicos e climáticos, a região próxima ao povoado de Campinas foi escolhida. Em 24 de outubro de 1933, foi lançada a pedra fundamental da nova capital. O projeto inicial ficou sob responsabilidade do urbanista Attilio Corrêa Lima, que concebeu uma cidade marcada por grandes avenidas, áreas verdes e um sistema viário inspirado em princípios modernos de urbanismo.
Posteriormente, Armando de Godoy assumiu uma etapa importante da reformulação do projeto. O resultado foi uma estrutura urbana que combinava grandes eixos de circulação, setores residenciais, áreas administrativas e espaços destinados ao crescimento futuro.
A atual Praça Cívica e suas avenidas radiais são exemplos dessa concepção. A partir dela, importantes vias se projetam em diferentes direções, estruturando o núcleo inicial da capital. A própria Agência Municipal de Turismo destaca que a Praça Cívica funcionou como referência para a organização dos primeiros setores da cidade, incluindo Centro, Sul, Oeste e Leste Universitário.
O planejamento, porém, não conseguiu conter a velocidade do crescimento populacional.
A cidade que deveria atender dezenas de milhares de pessoas passou a receber trabalhadores, comerciantes, migrantes e famílias atraídos pelo desenvolvimento econômico de Goiás e pela posição estratégica da nova capital. Com isso, ruas precisaram ser abertas, bairros foram ampliados e a infraestrutura urbana precisou acompanhar uma expansão que ocorria em ritmo acelerado.
O significado especial de 1973
A data de 1973 gravada na tampa encontrada junto ao Bosque dos Buritis também coincide com um período de forte investimento municipal na infraestrutura viária.
Documentos oficiais da Prefeitura de Goiânia mostram que naquele ano foram autorizados recursos para obras envolvendo galerias de águas pluviais e pavimentação, incluindo intervenções em importantes avenidas e no sistema viário básico da capital. Uma lei municipal de dezembro de 1973 autorizou créditos de 35 milhões de cruzeiros para equipamentos e obras, incluindo projetos de pavimentação e galerias.
Isso fornece um contexto histórico importante para a inscrição encontrada pelo jornalista Marcio Fernandes, autor da reportagem original. A tampa não está isolada de um processo maior: ela pertence a uma época em que a administração municipal ampliava a infraestrutura necessária para acompanhar o crescimento de Goiânia.
O registro pode ser lido, portanto, como uma espécie de marcador físico da modernização urbana.
Enquanto documentos administrativos ficam arquivados em prédios públicos e fotografias antigas permanecem em museus, uma tampa de bueiro pode continuar exposta diariamente, no mesmo lugar onde uma obra foi realizada décadas atrás.
Quando uma tampa deixa de ser apenas uma tampa
Existe uma particularidade fascinante nesses objetos.
Uma tampa de bueiro é normalmente percebida como parte da paisagem urbana que ninguém observa. As pessoas caminham sobre ela sem prestar atenção, carros passam por cima e equipes de manutenção a removem quando precisam acessar a rede subterrânea.
Mas, quando uma data ou inscrição é preservada, ela ganha outra função.
Ela passa a ser uma peça de memória urbana.
O conceito é especialmente interessante em Goiânia porque a cidade possui um patrimônio arquitetônico reconhecido nacionalmente, sobretudo relacionado ao Art Déco de seus primeiros edifícios. A Prefeitura destaca, entre os locais históricos, o Palácio das Esmeraldas, o Museu Zoroastro Artiaga e o Centro Cultural Marieta Telles Machado, construções ligadas à formação da capital e que ajudam a preservar a memória de seus primeiros anos.
As tampas antigas representam uma camada diferente dessa mesma memória. Não são monumentos, não foram projetadas para serem contempladas e provavelmente jamais foram pensadas como patrimônio. Seu valor surge justamente porque sobreviveram ao tempo.
Elas registram a história cotidiana da cidade.
O que existe embaixo da cidade
A descoberta também chama atenção para uma dimensão pouco conhecida da urbanização: a cidade que vemos é apenas uma parte da cidade real.
Sob o asfalto estão galerias, tubulações, redes de drenagem, sistemas de esgoto, cabos e outras estruturas que permitem que milhões de pessoas vivam e trabalhem diariamente.
Em Goiânia, documentos municipais mostram que a manutenção das tampas de bueiros e das estruturas de drenagem continua fazendo parte das atividades de infraestrutura urbana. A Prefeitura registra, inclusive, equipamentos utilizados especificamente para reparos de tampas de bueiros e manutenção de estruturas relacionadas à drenagem.
O sistema subterrâneo, portanto, continua sendo atualizado e reparado, mas algumas partes da infraestrutura antiga permanecem como testemunhas das etapas anteriores.
É como se Goiânia tivesse duas cidades simultâneas: a que se transforma diariamente na superfície e outra, subterrânea, que conserva vestígios de décadas anteriores.
Do Setor Oeste de 1973 à Goiânia atual
O contraste entre o registro encontrado na tampa e a paisagem atual é particularmente expressivo.
Em 1973, o Setor Oeste ainda estava inserido em uma Goiânia que atravessava uma etapa de expansão e modernização de sua infraestrutura. Hoje, a região está entre as áreas mais valorizadas e consolidadas da capital.
O próprio texto publicado pelo Jornal Opção destaca que os tampões espalhados pela cidade permitem encontrar registros de lugares que atualmente apresentam alto valor imobiliário, mas também de áreas que passaram por processos de decadência e transformação, incluindo setores do Centro e do bairro de Campinas.
Esse contraste revela algo importante sobre a dinâmica das cidades: o valor de um lugar muda com o tempo.
Uma área pode ser periferia em determinado período, tornar-se região valorizada décadas depois e, posteriormente, enfrentar perda de população ou atividade econômica. As ruas permanecem, mas a função urbana muda.
As tampas, quando preservam datas e inscrições, ajudam a marcar essas diferentes fases.
Uma história que pode estar espalhada por toda a cidade
O caso da tampa do Setor Oeste levanta uma possibilidade interessante: quantas outras inscrições históricas existem nas calçadas de Goiânia sem que os moradores saibam?
O trabalho de identificação poderia revelar uma espécie de mapa subterrâneo da expansão urbana da capital.
Datas diferentes poderiam indicar quando determinadas regiões receberam pavimentação, drenagem ou redes de saneamento. Nomes de empresas poderiam identificar prestadores de serviços que participaram de obras antigas. Símbolos de órgãos públicos poderiam indicar mudanças administrativas. Algumas peças poderiam até registrar períodos anteriores à consolidação de determinados bairros.
Uma iniciativa de inventário fotográfico dessas estruturas poderia transformar elementos aparentemente banais em uma fonte complementar para pesquisadores, estudantes, jornalistas e moradores interessados na história da cidade.
Não seria necessário retirar as tampas das ruas. Bastaria registrar sua localização, fotografar as inscrições, documentar o estado de conservação e cruzar as informações com leis municipais, mapas, jornais antigos, fotografias e documentos de obras públicas.
O passado permanece onde quase ninguém procura
A história urbana costuma ser contada através de grandes acontecimentos: a fundação da cidade, a construção de prédios importantes, a abertura de grandes avenidas, a chegada da ferrovia, a expansão econômica ou a construção de novos bairros.
Mas existe também uma história feita de pequenos objetos.
Uma placa antiga.
Um trilho escondido.
Uma inscrição em uma parede.
Uma calçada original.
E, no caso de Goiânia, uma tampa de bueiro marcada com uma data.
Esses objetos não substituem os documentos históricos, mas acrescentam uma dimensão concreta à memória. Eles mostram que as grandes transformações urbanas aconteceram através de milhares de pequenas obras realizadas durante décadas.
A tampa que registra 1973 na região do Bosque dos Buritis é, nesse sentido, uma testemunha silenciosa de uma Goiânia que já não existe exatamente como era. Ao mesmo tempo, continua fazendo parte da cidade atual.
Antes, agora e depois
Antes, Goiânia era uma capital planejada para crescer de maneira relativamente controlada, concebida para uma população muito menor e estruturada a partir de princípios urbanísticos modernos para a época. O projeto de Attilio Corrêa Lima, posteriormente reformulado por Armando de Godoy, criou as bases da cidade que conhecemos.
Agora, Goiânia é uma grande metrópole, com uma infraestrutura urbana que precisou ser ampliada e modificada inúmeras vezes para acompanhar décadas de crescimento. As antigas tampas de bueiros sobrevivem dentro dessa paisagem transformada, algumas ainda desempenhando sua função original e outras carregando marcas históricas que já não têm relação evidente com a cidade contemporânea.
Depois, essas peças poderão adquirir ainda mais valor histórico.
Se forem identificadas, documentadas e preservadas, poderão ajudar futuras gerações a compreender quando, como e onde Goiânia foi sendo construída. E talvez essa seja a maior surpresa proporcionada por uma simples tampa de bueiro: ela mostra que a memória de uma cidade não está apenas nos museus, monumentos e edifícios históricos.
Às vezes, ela está literalmente sob os nossos pés.
A descoberta registrada pelo Jornal Opção transforma, assim, um objeto cotidiano em uma pequena porta para o passado de Goiânia. E sugere que quem quiser conhecer verdadeiramente a história da capital talvez precise olhar não apenas para cima, para seus prédios e monumentos, mas também para o chão por onde a cidade caminha todos os dias.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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