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A tensรฃo atual nรฃo surgiu de uma divergรชncia pontual. Ela tem raรญzes na prรณpria campanha presidencial argentina de 2023, quando Milei fez crรญticas duras a Lula e questionou a conveniรชncia de manter o modelo de integraรงรฃo regional existente. Naquele perรญodo, o entรฃo candidato argentino chegou a defender uma profunda reformulaรงรฃo โ e em determinados momentos atรฉ a eliminaรงรฃo โ do Mercosul, argumentando que a uniรฃo aduaneira limitava a liberdade comercial da Argentina.
A chegada de Milei ร Casa Rosada colocou, portanto, dois projetos polรญticos muito diferentes frente a frente. De um lado, Lula defende o Mercosul como instrumento estratรฉgico de integraรงรฃo, negociaรงรฃo conjunta e projeรงรฃo internacional da Amรฉrica do Sul. De outro, Milei prioriza a abertura comercial, a reduรงรฃo das barreiras e uma relaรงรฃo mais flexรญvel da Argentina com parceiros externos.
Essa diferenรงa ganhou uma dimensรฃo ainda maior porque Brasil e Argentina sรฃo as duas maiores economias do Mercosul e possuem uma relaรงรฃo comercial profundamente integrada. Uma crise entre os governos pode ser administrada diplomaticamente, mas uma deterioraรงรฃo prolongada da relaรงรฃo entre os dois principais sรณcios do bloco inevitavelmente produz efeitos sobre empresas, cadeias produtivas, investimentos e negociaรงรตes comerciais.
O prรณprio Mercosul foi construรญdo sobre a ideia de que as diferenรงas polรญticas entre governos nรฃo deveriam destruir os interesses econรดmicos permanentes dos Estados. A organizaรงรฃo mantรฉm uma agenda institucional que envolve comรฉrcio, circulaรงรฃo de pessoas, infraestrutura, energia, integraรงรฃo fronteiriรงa e negociaรงรตes externas. A Presidรชncia Pro Tempore estรก atualmente com o Uruguai, que assumiu a conduรงรฃo do bloco em 2026.
A crise diplomรกtica deixa de ser apenas retรณrica
O momento atual รฉ especialmente delicado porque a troca de acusaรงรตes jรก provocou consequรชncias diplomรกticas concretas.
O chanceler brasileiro Mauro Vieira afirmou que a normalizaรงรฃo das relaรงรตes dependerรก do fim das agressรตes pรบblicas de Milei contra Lula e contra autoridades brasileiras. O Itamaraty adotou uma postura mais firme diante da repetiรงรฃo dos ataques, enquanto a Argentina reagiu acusando o Brasil de permitir que diferenรงas ideolรณgicas contaminassem a relaรงรฃo bilateral.
A deterioraรงรฃo chegou ao ponto de o Brasil reduzir o nรญvel da representaรงรฃo diplomรกtica com a Argentina, enquanto o embaixador argentino deixou Brasรญlia e a embaixada passou a ficar temporariamente sob responsabilidade de uma encarregada de negรณcios. Trata-se de uma medida de forte significado polรญtico, porque mostra que a crise ultrapassou a esfera das declaraรงรตes presidenciais.
Isso nรฃo significa rompimento das relaรงรตes diplomรกticas. Brasil e Argentina continuam mantendo canais oficiais e interesses econรดmicos comuns. Mas a reduรงรฃo da interlocuรงรฃo polรญtica aumenta o risco de que problemas comerciais ou regulatรณrios que normalmente seriam resolvidos por negociaรงรฃo passem a ser tratados dentro de um ambiente de maior desconfianรงa.
O Mercosul รฉ o verdadeiro campo de batalha
A discussรฃo central รฉ sobre o modelo de Mercosul que deve prevalecer.
O modelo atual combina uma uniรฃo aduaneira com regras comuns e mecanismos de coordenaรงรฃo entre os paรญses. Para o Brasil, esse formato oferece uma vantagem estratรฉgica: negociar conjuntamente com grandes parceiros internacionais aumenta o peso econรดmico e polรญtico do bloco.
Milei, por outro lado, considera que esse modelo pode limitar a capacidade argentina de negociar individualmente com outras economias. Sua visรฃo รฉ mais prรณxima de um Mercosul com maior flexibilidade comercial, permitindo que os paรญses avancem em acordos externos mesmo quando os demais integrantes nรฃo estejam preparados para acompanhรก-los.
Essa diferenรงa nรฃo รฉ meramente acadรชmica. Ela pode determinar como o bloco negociarรก com China, Estados Unidos, Uniรฃo Europeia e outras grandes economias durante os prรณximos anos.
O documento oficial do Mercosul mostra que os Estados Partes vรชm defendendo justamente o fortalecimento da integraรงรฃo, a ampliaรงรฃo das oportunidades comerciais, a atraรงรฃo de investimentos e a eliminaรงรฃo de obstรกculos ao comรฉrcio intrabloco.
A questรฃo รฉ saber se essa agenda continuarรก avanรงando enquanto os governos de Brasil e Argentina permanecem politicamente afastados.
O comรฉrcio pode ser o primeiro grande teste
A economia รฉ provavelmente o setor onde a crise poderรก produzir consequรชncias mais rapidamente.
O Brasil รฉ um dos principais mercados da Argentina, enquanto empresas brasileiras dependem do mercado argentino para exportaรงรตes industriais, especialmente nos setores automotivo, quรญmico, de mรกquinas, equipamentos e alimentos.
O setor automobilรญstico รฉ particularmente sensรญvel. Brasil e Argentina desenvolveram durante dรฉcadas uma cadeia produtiva integrada, na qual peรงas e componentes atravessam a fronteira diversas vezes antes da montagem final dos veรญculos.
Qualquer alteraรงรฃo relevante nas regras comerciais, nos regimes tarifรกrios ou nos mecanismos de importaรงรฃo pode aumentar custos e reduzir competitividade.
Anรกlises recentes jรก apontam preocupaรงรฃo entre empresas dos dois paรญses diante da crise diplomรกtica, justamente porque a relaรงรฃo econรดmica nรฃo pode ser separada das decisรตes polรญticas quando os governos comeรงam a utilizar o comรฉrcio como instrumento de pressรฃo.
No primeiro semestre de 2026, o comรฉrcio bilateral tambรฉm apresentou desequilรญbrio para a Argentina, com dรฉficit de aproximadamente US$ 1,396 bilhรฃo em relaรงรฃo ao Brasil, segundo dados divulgados na imprensa argentina. O nรบmero ajuda a explicar por que a relaรงรฃo comercial tambรฉm estรก presente nas crรญticas de Milei ao atual funcionamento do Mercosul.
Energia mostra por que os dois paรญses nรฃo podem simplesmente se afastar
Existe, entretanto, uma dimensรฃo da relaรงรฃo bilateral que torna extremamente difรญcil imaginar um divรณrcio econรดmico completo: a energia.
Argentina e Brasil possuem interesses complementares no setor de gรกs natural. A produรงรฃo argentina de Vaca Muerta criou a perspectiva de ampliar significativamente a oferta de gรกs para o mercado brasileiro, enquanto o Brasil possui demanda crescente para geraรงรฃo elรฉtrica e atividades industriais.
Estudos do IPEA jรก identificaram a integraรงรฃo energรฉtica entre os dois paรญses como uma รกrea estratรฉgica, destacando especialmente o potencial do gรกs natural argentino e a complementaridade das matrizes energรฉticas.
Isso significa que, mesmo quando Lula e Milei trocam acusaรงรตes, empresas brasileiras e argentinas continuam tendo razรตes econรดmicas concretas para cooperar.
O mesmo vale para infraestrutura, corredores logรญsticos e integraรงรฃo fronteiriรงa. O Mercosul trabalha hรก anos para reduzir obstรกculos nas รกreas de controle integrado e facilitar o trรขnsito de mercadorias entre os paรญses.
Uma deterioraรงรฃo polรญtica prolongada poderia, portanto, prejudicar projetos que levam anos para serem planejados e executados.
E os outros paรญses do Mercosul?
A crise tambรฉm coloca Paraguai e Uruguai diante de uma situaรงรฃo delicada.
Os dois paรญses tรชm interesses prรณprios e nรฃo necessariamente desejam escolher um lado na disputa entre Brasรญlia e Buenos Aires. O Paraguai depende fortemente das relaรงรตes econรดmicas com Brasil e Argentina, enquanto o Uruguai historicamente procura ampliar sua liberdade de negociaรงรฃo externa.
Montevidรฉu, atualmente responsรกvel pela Presidรชncia Pro Tempore do Mercosul, terรก de administrar uma situaรงรฃo particularmente sensรญvel. O governo uruguaio jรก sinalizou que nรฃo pretende atuar como mediador direto do conflito entre Lula e Milei.
Isso deixa uma mensagem importante: os demais membros podem tentar preservar a agenda institucional do bloco independentemente da relaรงรฃo pessoal entre os dois presidentes.
Essa pode ser justamente uma das chaves para evitar que a crise bilateral paralise o Mercosul.
Antes: a integraรงรฃo nasceu justamente para impedir novas rivalidades
Para compreender o tamanho do risco atual, รฉ necessรกrio voltar ร s origens do processo de integraรงรฃo.
Brasil e Argentina foram durante boa parte do sรฉculo XX paรญses que competiam por influรชncia regional e mantinham perรญodos de forte desconfianรงa estratรฉgica. A aproximaรงรฃo iniciada nas dรฉcadas de 1980 e 1990 ajudou a transformar essa relaรงรฃo.
O Tratado de Assunรงรฃo, de 1991, criou o Mercosul como projeto econรดmico e polรญtico destinado a aprofundar a integraรงรฃo entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Desde entรฃo, milhรตes de empresas e trabalhadores passaram a operar em um ambiente de maior integraรงรฃo comercial. A construรงรฃo dessa relaรงรฃo levou dรฉcadas.
Por isso, a crise atual รฉ mais profunda do que uma discussรฃo entre dois presidentes. Ela testa uma estrutura institucional construรญda para sobreviver justamente ร s mudanรงas de governos.
Agora: dois modelos polรญticos disputam espaรงo
O contraste entre Lula e Milei tambรฉm possui uma dimensรฃo ideolรณgica evidente.
Lula defende uma visรฃo de Estado mais ativo, polรญticas sociais, coordenaรงรฃo regional e fortalecimento de instituiรงรตes multilaterais. Milei promove uma agenda baseada em liberalizaรงรฃo econรดmica, reduรงรฃo do tamanho do Estado e maior liberdade de mercado.
Essas diferenรงas aparecem na polรญtica domรฉstica, mas tambรฉm foram transportadas para a polรญtica externa.
A questรฃo รฉ se o Mercosul deve funcionar como uma organizaรงรฃo polรญtica e econรดmica com interesses estratรฉgicos comuns ou apenas como uma plataforma comercial que cada paรญs utiliza conforme suas necessidades.
Essa discussรฃo jรก apareceu anteriormente dentro do bloco, mas agora adquiriu maior intensidade porque ocorre simultaneamente a uma crise pessoal entre os dois presidentes.
O risco para o acordo Mercosul-Uniรฃo Europeia
Outro ponto de atenรงรฃo รฉ a relaรงรฃo com a Uniรฃo Europeia.
O acordo entre os dois blocos representa uma das maiores oportunidades comerciais jรก negociadas pelo Mercosul. Para que seus benefรญcios sejam plenamente aproveitados, entretanto, os paรญses sul-americanos precisam manter coordenaรงรฃo polรญtica e capacidade de implementaรงรฃo.
Uma disputa prolongada entre Brasil e Argentina pode complicar essa coordenaรงรฃo.
Ao mesmo tempo, a crise pode produzir o efeito contrรกrio: pressionar os demais paรญses a acelerar negociaรงรตes e buscar mecanismos que reduzam a dependรชncia das decisรตes polรญticas de Brasรญlia e Buenos Aires.
O resultado dependerรก de quanto os governos estarรฃo dispostos a separar a agenda institucional do Mercosul da disputa ideolรณgica entre seus presidentes.
Depois: trรชs cenรกrios comeรงam a aparecer
O primeiro cenรกrio seria uma reconciliaรงรฃo pragmรกtica. Lula e Milei poderiam manter profundas diferenรงas ideolรณgicas, mas reconstruir canais diplomรกticos mรญnimos para preservar comรฉrcio, energia, fronteiras e negociaรงรตes do Mercosul. Esse seria o caminho menos prejudicial para empresas e governos.
O segundo seria uma convivรชncia fria, na qual os presidentes continuariam sem diรกlogo polรญtico relevante, mas os ministรฉrios, diplomatas e setores empresariais manteriam funcionando a relaรงรฃo econรดmica. Nesse caso, o Mercosul continuaria operando, embora com maior dificuldade.
O terceiro cenรกrio seria o mais preocupante: uma crise estrutural do bloco, na qual a Argentina pressionasse por maior liberdade para negociar individualmente e o Brasil defendesse a manutenรงรฃo da uniรฃo aduaneira. Nesse caso, a disputa poderia produzir reformas profundas nas regras do Mercosul.
Nenhum desses cenรกrios significa automaticamente o fim do bloco. O Mercosul possui instituiรงรตes, normas e interesses econรดmicos que nรฃo desaparecem com a troca de governos. Mas uma crise prolongada entre seus dois maiores integrantes poderia reduzir significativamente sua capacidade de agir de forma coordenada.
A disputa que vai alรฉm de Lula e Milei
A principal conclusรฃo รฉ que o futuro do Mercosul nรฃo serรก decidido apenas pela relaรงรฃo pessoal entre Lula e Milei.
O bloco terรก de responder a uma questรฃo muito maior: como conciliar diferentes projetos econรดmicos e polรญticos sem destruir os mecanismos de integraรงรฃo construรญdos durante mais de trรชs dรฉcadas.
A experiรชncia histรณrica mostra que os interesses de Brasil e Argentina sรฃo muito mais profundos do que as divergรชncias entre dois presidentes. Comรฉrcio, energia, indรบstria, agricultura, infraestrutura, fronteiras e milhรตes de empregos criaram uma interdependรชncia que nenhum governo consegue eliminar rapidamente.
Mas tambรฉm mostra que a integraรงรฃo nรฃo รฉ irreversรญvel. Ela depende de vontade polรญtica, confianรงa e capacidade de negociaรงรฃo.
O Mercosul entra, portanto, em uma fase decisiva. Se Brasil e Argentina conseguirem separar a rivalidade presidencial dos interesses permanentes de seus Estados, a atual crise poderรก ser administrada como mais um episรณdio da histรณria regional. Se permitirem que a disputa ideolรณgica domine comรฉrcio, diplomacia e instituiรงรตes, o conflito Lula-Milei poderรก deixar como legado nรฃo apenas uma relaรงรฃo bilateral deteriorada, mas uma transformaรงรฃo profunda no projeto de integraรงรฃo sul-americano.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileรฑo, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integraciรณn regional, geopolรญtica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el รกmbito de la comunicaciรณn internacional.
Posee un Mรกster en Desarrollo y Cooperaciรณn Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, acadรฉmicas y diplomรกticas en Amรฉrica Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrรณfono de Oro de la Asociaciรณn Nacional de Locutores de Mรฉxico (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional Mรฉxico Blanco (2020) y el tรญtulo de Amigo de la Niรฑez y la Adolescencia.
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