O Brasil chega a uma nova etapa de monitoramento ambiental com o lançamento, nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, da Coleção 11 do MapBiomas, que atualiza a série histórica de cobertura e uso da terra e permite observar com maior precisão como o território brasileiro mudou ao longo das últimas décadas. Os dados mais recentes consolidam um cenário em que cerca de 65% do território nacional permanecia coberto por vegetação nativa em 2024, enquanto aproximadamente 32% já estava ocupado por atividades agropecuárias. A nova coleção representa uma atualização metodológica importante porque amplia e aperfeiçoa a capacidade de acompanhar, ano a ano, a transformação de florestas, savanas, campos, áreas alagadas, pastagens, lavouras, áreas urbanizadas e outras formas de ocupação. O levantamento também ajuda a compreender uma contradição central do Brasil contemporâneo: o país continua sendo uma das maiores potências ambientais e agrícolas do planeta, mas perdeu, desde 1985, uma área natural equivalente a mais de 111 milhões de hectares, extensão superior ao território da Bolívia.
A apresentação da Coleção 11 ocorre em Brasília e representa uma nova atualização da série histórica construída pelo MapBiomas. A iniciativa utiliza imagens de satélite e processamento de dados para acompanhar as mudanças de cobertura e uso da terra em escala nacional, permitindo comparar períodos e identificar onde a vegetação nativa foi preservada, substituída, recuperada ou fragmentada.
A importância dessa atualização vai além de simplesmente saber quantos quilômetros quadrados de floresta existem no país. O mapa permite identificar a trajetória de cada região e compreender quais atividades econômicas estão substituindo os ambientes naturais. A plataforma disponibiliza dados anuais e cruzamentos por biomas, estados e municípios, permitindo análises muito mais específicas sobre a dinâmica territorial brasileira.
De 80% para 65% de vegetação nativa
Para compreender a dimensão da transformação, é necessário voltar a 1985, primeiro ano da série histórica do MapBiomas.
Naquele momento, aproximadamente 80% do território brasileiro era classificado como área natural. Quatro décadas depois, em 2024, essa proporção havia recuado para aproximadamente 65%. No mesmo intervalo, a agropecuária avançou até ocupar cerca de 32% do território nacional.
A diferença representa uma transformação territorial gigantesca. Entre 1985 e 2024, o Brasil perdeu aproximadamente 111,7 milhões de hectares de áreas naturais, o equivalente a 13% de todo o território nacional.
Para dimensionar esse número, trata-se de uma área maior que a Bolívia. A perda ocorreu em diferentes ritmos e regiões, mas esteve fortemente relacionada à expansão de pastagens e lavouras, além de urbanização, infraestrutura, mineração e outras atividades humanas.
O dado, entretanto, precisa ser interpretado corretamente: «áreas naturais» é uma categoria mais ampla que vegetação nativa. Ela inclui diferentes formações naturais e corpos d’água. Por isso, a análise da vegetação nativa propriamente dita exige observar separadamente florestas, formações savânicas, campos e áreas alagadas.
A velocidade da transformação também mudou
O levantamento histórico mostra que o avanço sobre a vegetação brasileira não ocorreu de maneira uniforme.
Entre 1985 e 1994, houve forte expansão das áreas antrópicas, especialmente das pastagens. Foram incorporados aproximadamente 36,5 milhões de hectares de áreas transformadas.
Na década seguinte, entre 1995 e 2004, ocorreu uma das fases mais intensas de conversão de vegetação natural para atividades agropecuárias. A transformação de áreas florestais e a expansão das pastagens tiveram enorme peso nesse período, especialmente na Amazônia.
Entre 2005 e 2014, o ritmo geral de expansão das áreas antrópicas diminuiu. O incremento registrado nesse período foi de aproximadamente 17,6 milhões de hectares, abaixo do observado nas duas décadas anteriores.
Já entre 2015 e 2024, o padrão mudou novamente. A pressão passou a ser particularmente importante em áreas de expansão agrícola no Cerrado, enquanto a Amazônia continuou concentrando enorme parte da perda absoluta de vegetação natural.
Essa mudança é fundamental para compreender o Brasil atual. O problema ambiental deixou de estar concentrado exclusivamente na Amazônia. Hoje, Cerrado, Pampa, Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica apresentam desafios próprios, relacionados a diferentes formas de ocupação e diferentes níveis de proteção.
Amazônia continua sendo estratégica
A Amazônia permanece como o maior componente da vegetação natural brasileira e apresenta uma das maiores proporções de cobertura nativa entre os biomas nacionais.
Segundo a série anterior do MapBiomas, a Amazônia perdeu aproximadamente 52,1 milhões de hectares de áreas naturais entre 1985 e 2024, uma transformação de escala continental. Ao mesmo tempo, estados amazônicos como Amapá, Amazonas e Roraima continuam apresentando as maiores proporções de vegetação nativa do país.
O paradoxo é evidente: a Amazônia continua sendo majoritariamente natural, mas sua dimensão territorial faz com que pequenas variações percentuais representem milhões de hectares.
Além disso, a floresta amazônica exerce funções que ultrapassam as fronteiras brasileiras. Sua relação com o regime de chuvas, rios voadores, armazenamento de carbono e estabilidade climática transforma a conservação da região em uma questão econômica e geopolítica.
A perda de vegetação não significa apenas redução de biodiversidade. Também pode alterar a disponibilidade de água, aumentar temperaturas locais, modificar ciclos de chuva e elevar a vulnerabilidade de atividades agrícolas.
Cerrado: a nova fronteira da pressão agrícola
Se a Amazônia concentra a maior perda absoluta, o Cerrado apresenta uma das situações mais preocupantes em termos de transformação proporcional.
Entre 1985 e 2024, o bioma perdeu aproximadamente 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, equivalentes a cerca de 28% de sua cobertura original. Atualmente, aproximadamente 51,2% do Cerrado permanecem cobertos por vegetação nativa, enquanto 47,9% correspondem a usos antrópicos.
A região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, tornou-se um dos principais centros dessa transformação.
Nos últimos dez anos da série anterior, o Matopiba respondeu por aproximadamente 73% da perda de vegetação nativa do Cerrado, com 4,7 milhões de hectares convertidos entre 2015 e 2024.
A expansão agrícola transformou profundamente a paisagem. A agricultura na região do Matopiba cresceu de maneira extraordinária nas últimas décadas, impulsionada principalmente pela produção de grãos.
O resultado é uma das grandes questões ambientais do Brasil atual: como manter a expansão da produção agrícola sem comprometer as nascentes, os aquíferos, a biodiversidade e a capacidade do Cerrado de regular o ciclo hídrico?
Pampa apresenta uma situação diferente
No Pampa, o problema possui características próprias.
O bioma apresentou a maior perda proporcional de áreas naturais na série analisada, com aproximadamente 3,8 milhões de hectares, cerca de 30% do território natural perdido no período considerado pelo levantamento de 1985 a 2024.
Grande parte dessa transformação ocorreu pela substituição de campos naturais por agricultura e pecuária.
Isso é importante porque uma concepção equivocada associa automaticamente conservação à existência de florestas. O Pampa demonstra que campos naturais também são ecossistemas extremamente importantes, com biodiversidade própria, capacidade de armazenamento de carbono e papel fundamental na dinâmica hídrica.
A substituição desses campos pode ser ambientalmente significativa mesmo quando não envolve derrubada de árvores.
Pantanal: vegetação, água e clima estão conectados
O Pantanal apresenta outro tipo de vulnerabilidade.
O bioma depende de uma dinâmica hídrica extremamente complexa. Alterações no regime de chuvas, períodos prolongados de seca, incêndios e mudanças na cobertura do solo podem modificar profundamente o funcionamento da planície alagável.
Dados anteriores do MapBiomas mostram uma redução expressiva da superfície de água do Pantanal ao longo das últimas décadas. Em 1985, aproximadamente 24% do bioma eram classificados como superfície de água; em determinados períodos recentes, essa proporção caiu drasticamente.
A questão, portanto, não pode ser analisada apenas pelo número de hectares de floresta perdidos. No Pantanal, água, vegetação, fogo e clima funcionam como partes do mesmo sistema.
É por isso que a conservação do bioma exige políticas que ultrapassem a simples fiscalização do desmatamento.
Mata Atlântica: um bioma que conta outra história
A Mata Atlântica possui uma situação histórica diferente porque sofreu uma transformação muito mais antiga e intensa.
Grande parte da ocupação econômica brasileira ocorreu originalmente no litoral e no Sudeste, justamente sobre áreas que pertenciam ao domínio da Mata Atlântica.
O levantamento do MapBiomas mostra que, apesar da forte antropização histórica, existem sinais de recuperação de vegetação em diferentes municípios e regiões. Na série 2008–2023, a Mata Atlântica apresentou o maior percentual de municípios com aumento de vegetação nativa entre os biomas brasileiros.
Isso demonstra que a história ambiental brasileira não é apenas uma sequência de perdas.
Existem também processos de regeneração natural, restauração florestal e recuperação de áreas degradadas.
Esse ponto será cada vez mais importante para a política ambiental brasileira, especialmente porque recuperar uma área degradada pode oferecer benefícios climáticos, hídricos e econômicos sem necessariamente exigir a interrupção da produção agrícola.
O que mudou no campo
A expansão agropecuária é o principal vetor histórico da transformação do território brasileiro.
Entre 1985 e 2024, as áreas de pastagem e agricultura cresceram de forma expressiva. O Brasil passou a combinar uma das maiores áreas agrícolas do mundo com uma das maiores extensões de vegetação nativa remanescente.
Essa característica cria uma situação diferente daquela encontrada em muitos outros países.
O Brasil não precisa escolher necessariamente entre agricultura e conservação como se fossem atividades incompatíveis. A questão central passou a ser onde produzir, como produzir e quanto território precisa permanecer protegido para garantir o equilíbrio ambiental.
É nesse ponto que entram instrumentos como o Código Florestal, Reserva Legal, Áreas de Preservação Permanente, Unidades de Conservação, Terras Indígenas, restauração de áreas degradadas e mecanismos de pagamento por serviços ambientais.
Um estudo da Embrapa apresentado em 2025, utilizando diferentes bases de dados, estimou que aproximadamente 65,6% do território brasileiro permaneciam preservados, enquanto imóveis rurais respondiam por uma parcela significativa dessa vegetação conservada. Embora utilize metodologia diferente da série do MapBiomas, o levantamento reforça a importância das áreas preservadas dentro de propriedades privadas.
O detalhe que muda a interpretação: vegetação nativa não significa necessariamente floresta intacta
Outro aspecto que merece atenção é a chamada vegetação secundária.
Ela corresponde a áreas que foram anteriormente alteradas e posteriormente voltaram a apresentar cobertura vegetal.
Segundo os dados da Coleção 10, a vegetação secundária representava aproximadamente 6,1% da vegetação nativa brasileira, equivalente a cerca de 34,5 milhões de hectares na média da última década.
Essa informação é essencial porque uma área em regeneração não possui necessariamente as mesmas características ecológicas de uma floresta primária.
Uma floresta madura pode abrigar espécies, estruturas e estoques de carbono que levam décadas ou séculos para se formar. Por isso, a recuperação da cobertura vegetal é positiva, mas não significa que a perda de uma floresta antiga possa ser imediatamente compensada pela regeneração de outra área.
Essa distinção deverá ganhar ainda mais importância nas políticas de restauração e nos mercados de carbono.
O problema invisível: fragmentação
Existe ainda uma dimensão da transformação territorial que os números totais podem esconder: a fragmentação da vegetação.
Uma área pode permanecer classificada como vegetação nativa e, mesmo assim, estar isolada em pequenos fragmentos separados por estradas, plantações, cidades ou pastagens.
Em maio de 2026, uma análise baseada em dados do MapBiomas apontou que áreas de vegetação nativa fragmentadas passaram de aproximadamente 2,7 milhões para 7,1 milhões de hectares entre 1987 e 2023, um aumento de 163%.
Isso significa que preservar a quantidade de vegetação não é suficiente.
É necessário preservar também a conectividade entre os fragmentos, permitindo que animais se movimentem, que sementes sejam dispersas e que os ecossistemas mantenham processos naturais.
Corredores ecológicos e restauração de áreas estratégicas podem desempenhar um papel decisivo nesse processo.
O Brasil chega à COP30 com uma contradição ambiental
A atualização dos mapas ocorre em um momento particularmente importante para a imagem internacional do Brasil.
O país pretende se apresentar como uma potência ambiental, mas também é uma das maiores potências agropecuárias do planeta.
Essas duas características não precisam ser contraditórias. O Brasil pode produzir alimentos e, ao mesmo tempo, conservar grandes extensões de vegetação. Mas os dados do MapBiomas mostram que o modelo de expansão territorial das últimas décadas teve um custo ambiental extremamente elevado.
O desafio agora é passar de uma lógica de expansão horizontal para uma lógica de aumento da produtividade, recuperação de áreas degradadas, proteção dos remanescentes e valorização econômica da conservação.
A discussão ganha importância adicional porque os mercados internacionais estão aumentando as exigências ambientais sobre produtos agrícolas.
A capacidade de demonstrar a origem de uma commodity, comprovar ausência de desmatamento ilegal e apresentar rastreabilidade poderá se tornar tão importante quanto preço e produtividade.
Antes, agora e depois
Antes, o Brasil avançava sobre seu território natural principalmente por meio da abertura de novas fronteiras agrícolas. Durante décadas, a expansão significava derrubar, ocupar e produzir.
Agora, o país entra em uma fase diferente. Ainda existem novas fronteiras agrícolas, principalmente no Cerrado, mas aumentou a pressão para produzir sem converter novas áreas, recuperar terras degradadas e demonstrar sustentabilidade.
Os dados do MapBiomas mostram que o país chegou a aproximadamente 65% de vegetação nativa e 32% de agropecuária em 2024, depois de quatro décadas de transformação profunda.
Depois, o desafio será descobrir se o Brasil conseguirá estabilizar essa relação.
A Coleção 11 não é apenas uma fotografia do território. Ela funciona como uma espécie de contabilidade ambiental do país. A cada nova atualização será possível verificar se a vegetação nativa continua diminuindo, se a agricultura cresce sobre áreas já abertas, se a restauração está aumentando, se os fragmentos estão sendo conectados e quais municípios estão conseguindo reverter perdas históricas.
Esse acompanhamento será especialmente importante porque o clima está adicionando uma variável nova ao problema. Secas mais intensas, ondas de calor e incêndios podem degradar ecossistemas mesmo quando não ocorre uma conversão direta do uso da terra.
A grande pergunta para os próximos anos
O Brasil possui uma vantagem que poucos países conseguem apresentar: uma enorme extensão de vegetação nativa coexistindo com uma das maiores agriculturas do mundo.
Mas essa vantagem não é permanente.
Os 111,7 milhões de hectares de áreas naturais perdidos entre 1985 e 2024 mostram que a transformação foi extremamente rápida.
A questão central para a próxima década será se o país conseguirá transformar essa vantagem ambiental em uma política permanente de desenvolvimento.
Isso significa proteger a Amazônia, conter a conversão do Cerrado e do Pampa, recuperar a Mata Atlântica, proteger os ciclos de água do Pantanal, combater a degradação da Caatinga e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade das áreas agrícolas já abertas.
O lançamento da Coleção 11 do MapBiomas fornece justamente a ferramenta para medir esse processo.
A partir de agora, cada nova edição permitirá responder uma pergunta que será cada vez mais importante para o Brasil e para seus parceiros comerciais: o país está conseguindo produzir mais utilizando melhor as áreas que já ocupou ou continua avançando sobre aquilo que ainda resta de sua vegetação nativa?
A resposta terá consequências que vão muito além do meio ambiente. Ela poderá influenciar agricultura, exportações, segurança hídrica, energia, crédito rural, mercado de carbono, investimentos internacionais e a própria posição geopolítica do Brasil diante das mudanças climáticas.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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