O Festival Internacional de Cinema Florianópolis Audiovisual Mercosul, FAM 2026, concluiu a seleção oficial de sua 30ª edição e prepara uma programação que reunirá 46 produções de nove países entre 3 e 9 de setembro, no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis. O aniversário de três décadas será marcado pelo retorno do festival ao centro da capital catarinense e ao espaço que abrigou o primeiro cinema de rua da cidade, em uma edição que pretende combinar memória, formação de público, diversidade cultural e integração audiovisual latino-americana. Ao todo, serão 37 filmes em sete mostras competitivas e outros nove títulos convidados, incluindo o filme de abertura “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar. A programação competitiva reúne obras do Brasil, Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Uruguai e outros territórios em coproduções internacionais, consolidando o FAM como uma das principais plataformas de circulação cinematográfica do Sul do Brasil e de aproximação entre realizadores da América Latina.
Três décadas construindo uma ponte audiovisual
O FAM chega aos 30 anos depois de uma trajetória iniciada em 1997, quando o festival começou a se consolidar como um espaço dedicado à aproximação entre o público catarinense e a produção cinematográfica latino-americana. A importância do evento ultrapassou progressivamente a exibição de filmes: o festival passou a reunir debates, encontros profissionais, formação, iniciativas de coprodução e ações voltadas ao desenvolvimento do setor audiovisual.
A própria Agência Nacional do Cinema (Ancine) reconhece o FAM entre os festivais relevantes para as políticas públicas de desenvolvimento do audiovisual brasileiro. Documentos da agência registram a participação institucional no evento e destacam sua relação com iniciativas de desenvolvimento do setor e com o Encontro de Coprodução do Mercosul, demonstrando que o festival funciona também como espaço de articulação profissional e não apenas como uma mostra cinematográfica.
Ao longo desse percurso, o FAM passou a funcionar como uma espécie de janela para diferentes cinematografias que nem sempre encontram espaço no circuito comercial tradicional. Produções independentes, documentários, ficções, animações, videoclipes e obras experimentais encontram no festival uma possibilidade de chegar ao público e, simultaneamente, estabelecer contatos com outros profissionais do setor.
O retorno ao centro de Florianópolis tem significado histórico
A escolha do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) para a edição de 2026 não é apenas uma decisão logística.
O espaço integra a memória cultural de Florianópolis e foi o local que recebeu o primeiro cinema de rua da capital catarinense. Por isso, levar a 30ª edição para o TAC cria uma conexão simbólica entre a história da exibição cinematográfica na cidade e o futuro do audiovisual.
O diretor-presidente da Associação Cultural Panvision, Tiago Santos, explicou que o retorno ao teatro representa uma forma de homenagear a trajetória do festival e, ao mesmo tempo, iniciar um novo ciclo destinado a fortalecer o audiovisual latino-americano e formar novas gerações de espectadores.
Essa escolha também aproxima o festival do centro urbano, tornando o evento mais acessível para moradores, estudantes, turistas e profissionais que estarão em Florianópolis durante os sete dias de programação.
E existe outro detalhe relevante: as sessões serão gratuitas. Isso transforma o FAM não apenas em um evento para profissionais do cinema, mas em uma política de acesso cultural capaz de aproximar a produção audiovisual contemporânea de um público mais amplo.
Mais de mil inscrições e uma seleção marcada pela diversidade
A seleção de 2026 foi realizada a partir de mais de mil inscrições recebidas de diferentes países. A organização selecionou inicialmente 31 filmes para cinco mostras competitivas e posteriormente completou a programação com os longas e as demais categorias.
A edição final apresenta 37 filmes competitivos, distribuídos em sete categorias, além de nove obras convidadas.
Entre as mostras estão Curtas, Curtas Catarinenses, Longas, Infantojuvenil, Videoclipe, On-line e Rally Panvision. O Rally possui uma característica particularmente interessante: as obras serão produzidas durante o próprio festival, transformando o evento em um espaço de criação cinematográfica e não apenas de exibição.
A diversidade também aparece na origem dos realizadores. A seleção competitiva reúne produções e coproduções de diferentes países latino-americanos, além de participações internacionais, enquanto a produção brasileira está representada por obras provenientes de 12 estados e do Distrito Federal.
Mulheres são maioria entre os diretores selecionados
Um dos dados mais expressivos da edição comemorativa está relacionado à participação feminina.
Das 37 obras competitivas, 19 são dirigidas por mulheres, o equivalente a aproximadamente 51% da seleção. O número coloca as realizadoras femininas como maioria entre os filmes escolhidos.
A seleção também inclui 12 produções dirigidas por pessoas pretas ou pardas, 10 por pessoas autodeclaradas LGBTQIAPN+, três por realizadores indígenas e duas por pessoas com deficiência. Além disso, dez filmes foram dirigidos por estreantes.
Outro dado relevante é a presença de 28 produções contempladas pelo Selo Marias do Cinema, iniciativa destinada à valorização da participação feminina no audiovisual.
Esses números mostram que o festival está utilizando sua seleção como instrumento de representatividade. Não se trata apenas de aumentar o número de filmes exibidos, mas de ampliar quem tem a oportunidade de contar histórias e ocupar espaços de visibilidade dentro da indústria cinematográfica.
A competição de longas traz histórias de diferentes territórios
Com a seleção completa, a Mostra Longas passou a reunir seis produções, três brasileiras e três internacionais.
Entre os brasileiros está “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, documentário de 110 minutos que acompanha, em primeira pessoa, a trajetória da cantora Baby do Brasil.
De Brasília vem “Mapas”, de Rafael Lobo, uma ficção que acompanha Júlia e Sérgio na busca por Rebeca, uma cicloativista desaparecida.
Já “O Pai e o Pajé”, de Iawarete Kaiabi, Felipe Tomazelli e Luís Villaça, mergulha na trajetória de Iawarete Kaiabi e aborda as ameaças e formas de exploração enfrentadas por seu povo. A obra estabelece uma conexão direta entre cinema, memória, identidade indígena e território.
A representação internacional traz “Quemadura China”, coprodução entre Uruguai e Brasil dirigida por Verónica Perrotta. O filme acompanha as irmãs siamesas Annie e Dani diante do processo de separação física, transformando uma questão médica em uma narrativa também existencial.
Do Equador chega “Mama”, de Ana Cristina Benítez, sobre Ana, uma mulher que recebe o diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado.
A seleção é encerrada por “Un Futuro Brillante”, coprodução entre Uruguai, Argentina e Alemanha dirigida por Lucía Garibaldi. A história acompanha Elisa, uma das últimas jovens escolhidas para partir rumo ao Norte, apresentado como uma espécie de terra prometida onde uma nova sociedade está sendo construída.
Os curtas mostram um mapa ainda maior da América Latina
A Mostra Curtas apresenta dez obras e amplia consideravelmente a diversidade geográfica do festival.
Entre os títulos estão “A Boneka de Derìì”, de Ariska Derìì e William Dauricio, produzido em Manaus; “Casi 30”, de Mila Aquilia e Bianca Oliveti, da Argentina; “Jemené”, de Ernira Bailarín, da Colômbia; “A Pele do Ouro”, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, de Boa Vista; e “Raízes”, de Larissa Nepomuceno, de Curitiba.
Também foram selecionados “Refugiar el Gesto”, de Adrián Villa-Dávila e Andrés Prado; “Volver a Verte”, de Román Ruberti Godoy; “Luz Diabla”, animação assinada por Paula Boffo, Gervasio Canda e Patricio Plaza; “Vidros Fechados”, de Duran Sodré; e “Zebra”, de Victor Nascimento.
Essa diversidade é importante porque o curta-metragem frequentemente funciona como porta de entrada para novos realizadores. É um formato que permite experimentar linguagens, testar narrativas e produzir com estruturas menores, possibilitando que novos nomes cheguem aos circuitos de festivais.
Santa Catarina também ganha uma vitrine própria
O FAM mantém uma atenção especial à produção do próprio estado por meio da Mostra Curtas Catarinense.
Cinco filmes foram selecionados: “A Fábrica”, de Beatriz Silva, de Florianópolis; “Gaita”, de Michele Diniz, produção ligada a Rancho Queimado e Portugal; “Imaginário Bar”, de Bhig Villas Boas, de Itajaí; “O Inquilino”, de Jordana Beck, de Florianópolis; e “Mosaico”, de Vinicius Figueiredo, produzido em Imbituba.
“Mosaico”, particularmente, ganhou destaque na imprensa catarinense por representar o Sul do estado na competição. A produção trabalha com memórias familiares e transformações de Imbituba ao longo das gerações, mostrando como o festival também funciona como espaço para preservar e reinterpretar a memória regional.
A presença de filmes catarinenses dentro de uma programação internacional cria uma relação importante: o cinema produzido localmente não fica isolado em circuitos regionais, mas passa a dialogar diretamente com produções de outros países.
O cinema para crianças também ocupa espaço
A Mostra Infantojuvenil reúne seis produções e amplia o alcance do festival para o público mais jovem.
Estão selecionados “Chica”, de João Victor Silva e Matheus Malburg; “Creaturas”, de Lourdes Valeria Suarez Apesteguia; “Esperança”, de Amora Moreira e Marcelo Pereira; “O Jardim Mágico”, de Naira Carneiro e Carlon Hardt; “Nosso Tempero”, produzido por alunos e alunas da Escola Municipal João Victor com a equipe Animazul; e “Peixe Seco e Defumado”, de Denis Souza.
A presença dessa categoria tem importância estratégica porque a formação de público começa justamente na infância. Um festival que oferece cinema gratuito para crianças não está apenas preenchendo uma programação: está criando condições para que novas gerações desenvolvam repertório cinematográfico e tenham contato com obras que dificilmente encontrariam no circuito comercial.
Música, internet e novas linguagens entram na programação
O FAM 2026 também amplia o conceito de audiovisual por meio da Mostra Videoclipe, que reúne cinco trabalhos.
Entre eles estão “A Corrida Blues – P3drinn”, de Sérgio Furlanetto; “Miudinho – Skarimbó”, de Babi Baracho; “Monalisa – Frimes”, de Lucas Sá; “A Posse é Um Fato – Murilo Munìi”, de Mar Fagundes e Murilo Munìí; e “Sansara – Kfé”, de Neri.
Já a Mostra On-line reúne produções de Brasil, Bolívia e Colômbia, entre elas “Capim”, “Entre la Sal Y el Cielo”, “Las Piedras del Río”, “Ponto Cego” e “Primer Amor”.
A utilização de uma mostra on-line demonstra como os festivais tradicionais estão adaptando suas estruturas para ampliar o alcance territorial. O cinema deixa de depender exclusivamente da presença física do espectador e passa a combinar a experiência presencial com novas formas de circulação digital.
Nove filmes convidados completam a programação
Além da competição, o FAM terá nove títulos convidados.
O filme de abertura será “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar, produção catarinense de ficção com Bruna Linzmeyer no elenco.
Na Mostra Conversas FAM estarão “Caminhos do Desejo”, primeiro longa de Andrey Santiago; “O Sangue Que Aterra Guarda”, de Patricia Miranda e Leonel Costa; e “Querido Mundo”, de Miguel Falabella e Hsu Chien.
“Caminhos do Desejo” possui uma dimensão especial para a memória cinematográfica catarinense porque recupera a história de “O Preço da Ilusão”, filme catarinense considerado perdido. A sessão será realizada em parceria com a Cinemateca Catarinense, justamente quando a instituição completa 40 anos.
A Mostra ICPlay, realizada on-line, acrescentará ainda cinco títulos, entre eles “Aldeia Multiétnica – Território da Diversidade”, “Deyse Ex Machina”, “Mãe Santíssima”, “Tente Sua Sorte” e “Vou-me Embora”.
O FAM é maior que uma semana de cinema
O aspecto mais importante da edição de 2026 talvez esteja justamente fora da tela.
Ao longo de três décadas, o FAM consolidou uma estrutura que conecta exibição, formação, produção, circulação e coprodução. O histórico do evento inclui o Encontro de Coprodução do Mercosul e iniciativas voltadas ao desenvolvimento profissional do setor audiovisual.
Essa característica diferencia um festival cinematográfico de uma simples mostra de filmes. Ao reunir produtores, diretores, roteiristas, artistas, estudantes, distribuidores e público, o evento cria oportunidades que podem continuar existindo muito depois do encerramento das sessões.
O audiovisual latino-americano enfrenta um desafio estrutural: produzir filmes é apenas uma parte do processo. É necessário também encontrar financiamento, parceiros internacionais, distribuidores, festivais e público.
É justamente nessa etapa que eventos como o FAM assumem importância estratégica.
Antes, agora e depois: o significado dos 30 anos
Antes, o FAM nasceu em 1997, em um cenário no qual a circulação internacional do cinema latino-americano era muito mais limitada e as ferramentas digitais ainda não tinham transformado a maneira como filmes eram produzidos e distribuídos.
Agora, três décadas depois, o festival chega à sua 30ª edição com uma estrutura internacional, dezenas de obras, participação de diferentes países, acesso gratuito e uma combinação entre cinema presencial e digital.
Depois do FAM 2026, o desafio será transformar essa visibilidade em oportunidades permanentes para os realizadores. Um festival pode colocar um filme diante de centenas ou milhares de espectadores, mas a verdadeira força de uma plataforma cultural aparece quando ela consegue gerar novas parcerias, circulação internacional, coproduções e formação de profissionais.
Nesse sentido, a escolha do Teatro Álvaro de Carvalho funciona quase como uma metáfora. O festival retorna ao lugar associado ao início da experiência cinematográfica pública de Florianópolis para celebrar três décadas de transformação do próprio audiovisual.
O FAM 2026, portanto, não representa apenas uma comemoração. Ele apresenta uma fotografia de como o cinema latino-americano está mudando: mais diverso, mais internacional, mais conectado digitalmente e com maior participação de mulheres, realizadores indígenas, pessoas negras, pessoas LGBTQIAPN+, estreantes e profissionais de diferentes regiões.
Entre 3 e 9 de setembro, Florianópolis será novamente um ponto de encontro para essas diferentes cinematografias. E, ao optar por um festival gratuito e retornar ao centro histórico da cidade, o FAM procura fazer algo que talvez seja ainda mais importante que premiar filmes: reaproximar o cinema do público e transformar a cultura audiovisual em uma experiência compartilhada de toda a cidade.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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