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A proposta representa uma mudanรงa importante no discurso do governo sobre seguranรงa pรบblica. Em vez de concentrar a discussรฃo apenas no combate policial a crimes individuais, o novo programa coloca no centro a questรฃo do controle territorial. A avaliaรงรฃo apresentada por Gabrielli รฉ que as facรงรตes criminosas passaram a possuir estruturas suficientemente organizadas para exercer influรชncia permanente sobre determinados bairros, comunidades e regiรตes, exigindo uma resposta coordenada em nรญvel nacional.
Segundo o coordenador do programa, o futuro Ministรฉrio da Seguranรงa Pรบblica funcionaria como um instrumento para ampliar a capacidade de coordenaรงรฃo da Uniรฃo. O desenho dependeria, porรฉm, da aprovaรงรฃo de uma emenda constitucional pelo Congresso Nacional, uma vez que a Constituiรงรฃo distribui competรชncias entre Uniรฃo, estados, Distrito Federal e municรญpios. A proposta de alteraรงรฃo dessa arquitetura jรก tramita no Congresso por meio da PEC 18/2025, conhecida como PEC da Seguranรงa Pรบblica.
A PEC nรฃo surgiu agora. Ela foi apresentada pelo Poder Executivo e aprovada em segundo turno pela Cรขmara dos Deputados em marรงo de 2026, com 461 votos favorรกveis e 14 contrรกrios, seguindo posteriormente para o Senado. O texto busca ampliar a integraรงรฃo entre os รณrgรฃos de seguranรงa, reorganizar competรชncias federativas e fortalecer instrumentos nacionais de combate ร criminalidade.
Esse ponto รฉ fundamental para compreender a proposta de Lula. Criar um ministรฉrio, isoladamente, nรฃo significa transferir para Brasรญlia o comando das polรญcias estaduais. A mudanรงa pretendida รฉ mais ampla: aumentar a capacidade de planejamento e coordenaรงรฃo federal, integrar sistemas de informaรงรฃo e permitir uma atuaรงรฃo mais articulada diante de organizaรงรตes criminosas que operam simultaneamente em vรกrios estados e tambรฉm possuem conexรตes internacionais.
O prรณprio governo jรก vem construindo parte dessa estrutura antes mesmo de uma eventual criaรงรฃo do ministรฉrio. Em maio de 2026, foi lanรงado o programa Brasil Contra o Crime Organizado, com previsรฃo de mais de R$ 11 bilhรตes em investimentos e financiamentos, voltado para inteligรชncia, investigaรงรฃo, sistema prisional, combate ao trรกfico de armas e desarticulaรงรฃo financeira das organizaรงรตes criminosas. A estratรฉgia prevรช participaรงรฃo dos estados e busca criar uma resposta nacional mais integrada.
Outro marco importante foi a entrada em vigor, em marรงo, da Lei nยบ 15.358/2026, conhecida como Lei Raul Jungmann ou Marco Legal do Combate ao Crime Organizado. A legislaรงรฃo criou novos tipos penais relacionados ao domรญnio social estruturado e estabeleceu instrumentos especรญficos contra organizaรงรตes criminosas ultraviolentas, milรญcias e grupos que utilizem violรชncia ou ameaรงa para controlar territรณrios, serviรงos ou populaรงรตes.
Essa legislaรงรฃo ajuda a explicar por que o conceito de โretomar territรณriosโ ganhou importรขncia no debate. O problema enfrentado pelo Estado brasileiro nรฃo se limita ao trรกfico de drogas. Organizaรงรตes criminosas podem controlar atividades econรดmicas, impor regras informais, cobrar extorsรตes, dominar presรญdios, utilizar armas pesadas e exercer influรชncia sobre comunidades inteiras.
O desafio, portanto, รฉ recuperar nรฃo apenas uma รกrea geogrรกfica, mas a presenรงa efetiva do Estado. Uma operaรงรฃo policial pode expulsar temporariamente criminosos de determinado territรณrio, mas, se escolas, postos de saรบde, infraestrutura, transporte, serviรงos pรบblicos e oportunidades econรดmicas continuarem ausentes, existe o risco de que a organizaรงรฃo criminosa volte a ocupar o espaรงo deixado pelo Estado.
ร justamente nesse ponto que a proposta de Gabrielli apresenta uma diferenรงa em relaรงรฃo a uma estratรฉgia exclusivamente repressiva. Em entrevista ao R7, ele afirmou que nรฃo basta โatacar e tirar o criminosoโ e defendeu intervenรงรตes em habitaรงรฃo, educaรงรฃo e polรญticas sociais. O programa de governo tambรฉm prevรช combinar inteligรชncia, investigaรงรฃo e repressรฃo qualificada com prevenรงรฃo, reduรงรฃo das desigualdades e ampliaรงรฃo das oportunidades para jovens.
Essa abordagem reconhece uma dificuldade histรณrica das polรญticas de seguranรงa: o Estado precisa permanecer depois da operaรงรฃo policial. Recuperar o territรณrio significa garantir que a populaรงรฃo volte a reconhecer a autoridade pรบblica como referรชncia cotidiana, e nรฃo apenas como uma presenรงa militar ou policial durante uma operaรงรฃo.
O problema ganhou ainda mais dimensรฃo porque as facรงรตes brasileiras deixaram de atuar exclusivamente dentro das fronteiras de um estado. PCC, Comando Vermelho, milรญcias e outras organizaรงรตes estabeleceram redes relacionadas ao trรกfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro, controle de presรญdios e atividades econรดmicas. Isso torna insuficiente uma resposta fragmentada entre diferentes governos estaduais.
A nova Lei Raul Jungmann reconhece parte dessa realidade ao tratar de situaรงรตes em que organizaรงรตes criminosas utilizam violรชncia, intimidaรงรฃo ou controle econรดmico e territorial. A norma tambรฉm prevรช mecanismos de investigaรงรฃo, inteligรชncia, cooperaรงรฃo e confisco de patrimรดnio, mostrando que o enfrentamento pretende atingir nรฃo apenas os integrantes armados das organizaรงรตes, mas tambรฉm suas estruturas financeiras.
Hรก, portanto, trรชs frentes que comeรงam a aparecer no desenho da polรญtica de seguranรงa de Lula: repressรฃo qualificada, inteligรชncia e recuperaรงรฃo social dos territรณrios. A primeira busca retirar criminosos armados; a segunda procura identificar comandantes, financiadores, rotas e patrimรดnios; a terceira tenta impedir que o territรณrio volte a ser ocupado pelo crime.
O componente financeiro pode ser especialmente importante. Uma organizaรงรฃo criminosa que perde alguns integrantes, mas conserva suas fontes de financiamento, pode simplesmente substituรญ-los. Por isso, operaรงรตes modernas contra o crime organizado procuram atingir contas, empresas, imรณveis, veรญculos, redes de lavagem de dinheiro e outras estruturas utilizadas para transformar atividades ilegais em patrimรดnio aparentemente legรญtimo.
O governo federal tambรฉm pretende aumentar a integraรงรฃo de informaรงรตes. O programa apresentado em maio prevรช aรงรตes de inteligรชncia e sistemas nacionais, enquanto a agenda institucional de 2026 jรก estabeleceu como prioridade o fortalecimento da cooperaรงรฃo entre Uniรฃo, estados e Distrito Federal.
O que mudou em relaรงรฃo ao terceiro mandato
A criaรงรฃo de um Ministรฉrio da Seguranรงa Pรบblica nรฃo รฉ uma ideia nova no campo polรญtico brasileiro. Durante a campanha presidencial de 2022, Lula jรก havia discutido a possibilidade de separar Justiรงa e Seguranรงa Pรบblica. O prรณprio Geraldo Alckmin, entรฃo candidato a vice-presidente, tambรฉm havia defendido a criaรงรฃo de uma pasta especรญfica.
Quando Lula iniciou seu terceiro mandato, porรฉm, decidiu manter Justiรงa e Seguranรงa Pรบblica no mesmo ministรฉrio. A proposta agora retorna de forma explรญcita no programa para um eventual quarto mandato e aparece associada a uma mudanรงa constitucional e ร ampliaรงรฃo da responsabilidade federal.
A diferenรงa atual รฉ que o debate ocorre em um ambiente criminal muito mais complexo. O governo jรก possui a Lei Raul Jungmann, o programa Brasil Contra o Crime Organizado e uma PEC discutindo a distribuiรงรฃo de competรชncias. A criaรงรฃo do ministรฉrio seria, portanto, apresentada como parte de uma arquitetura maior, e nรฃo como uma medida isolada.
O ponto polรญtico da proposta
A seguranรงa pรบblica deverรก ocupar posiรงรฃo central nas eleiรงรตes brasileiras de 2026. A candidatura de Lula tenta apresentar uma resposta nacional ao avanรงo das facรงรตes, enquanto adversรกrios do governo tambรฉm colocam o combate ao crime organizado entre suas principais bandeiras.
O tema, porรฉm, envolve uma disputa institucional delicada. Estados possuem polรญcias militares e civis e exercem papel fundamental na seguranรงa cotidiana. Qualquer tentativa de ampliar significativamente a participaรงรฃo federal precisa preservar as competรชncias estaduais e, ao mesmo tempo, evitar que diferentes forรงas trabalhem de maneira descoordenada.
ร justamente essa questรฃo que a PEC da Seguranรงa Pรบblica procura enfrentar. A proposta aprovada pela Cรขmara busca reorganizar competรชncias e aumentar a integraรงรฃo do sistema. A criaรงรฃo de um ministรฉrio especรญfico poderia dar uma estrutura polรญtica permanente a essa coordenaรงรฃo, mas sua eficรกcia dependerรก de recursos, capacidade tรฉcnica e cooperaรงรฃo efetiva dos governos estaduais.
Antes, agora e depois
Antes, a seguranรงa pรบblica brasileira era predominantemente tratada como uma responsabilidade dos estados, com a Uniรฃo exercendo funรงรตes especรญficas por meio da Polรญcia Federal, Polรญcia Rodoviรกria Federal, sistema penitenciรกrio federal, financiamento e coordenaรงรฃo de determinadas polรญticas.
Agora, o governo Lula tenta avanรงar para um modelo de coordenaรงรฃo nacional mais forte, combinando legislaรงรฃo contra facรงรตes, inteligรชncia, financiamento federal e uma possรญvel nova estrutura ministerial. A aprovaรงรฃo da PEC no Senado serรก decisiva para determinar atรฉ onde essa transformaรงรฃo poderรก avanรงar.
Depois, caso Lula seja reeleito e consiga aprovar a mudanรงa constitucional, o novo Ministรฉrio da Seguranรงa Pรบblica terรก de provar que consegue transformar coordenaรงรฃo institucional em resultados concretos. Isso significa reduzir homicรญdios, enfraquecer organizaรงรตes criminosas, recuperar territรณrios, impedir o recrutamento de jovens, controlar fluxos financeiros e garantir que o Estado permaneรงa presente depois das operaรงรตes.
O principal teste serรก justamente a capacidade de transformar a expressรฃo โretomar territรณriosโ em uma polรญtica permanente. Retomar uma comunidade pode ser uma operaรงรฃo policial de algumas horas; manter o territรณrio sob controle do Estado durante anos exige escolas funcionando, serviรงos pรบblicos, justiรงa acessรญvel, oportunidades econรดmicas, policiamento eficiente e instituiรงรตes capazes de resistir ร corrupรงรฃo e ร pressรฃo das organizaรงรตes criminosas.
A proposta de um Ministรฉrio da Seguranรงa Pรบblica entra, portanto, em uma disputa muito maior do que a criaรงรฃo de uma nova pasta. Ela representa uma tentativa de redefinir quem coordena a guerra contra o crime organizado no Brasil, como Uniรฃo e estados dividirรฃo responsabilidades e qual serรก o papel do Estado na recuperaรงรฃo de รกreas onde as facรงรตes passaram a exercer influรชncia.
Se o projeto avanรงar, o quarto mandato de Lula poderรก comeรงar com uma das maiores mudanรงas institucionais na polรญtica brasileira de seguranรงa das รบltimas dรฉcadas. Se nรฃo avanรงar, o governo continuarรก dependendo da estrutura atual do Ministรฉrio da Justiรงa e Seguranรงa Pรบblica e de mecanismos de cooperaรงรฃo entre diferentes nรญveis de governo.
O resultado dependerรก agora do Congresso Nacional, dos governadores e da capacidade do governo federal de demonstrar que a mudanรงa institucional nรฃo serรก apenas uma reorganizaรงรฃo administrativa. O verdadeiro objetivo serรก saber se o Estado brasileiro conseguirรก recuperar territรณrios onde o crime organizado passou a exercer poder e, principalmente, se conseguirรก permanecer neles depois que as forรงas de seguranรงa forem embora.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileรฑo, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integraciรณn regional, geopolรญtica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el รกmbito de la comunicaciรณn internacional.
Posee un Mรกster en Desarrollo y Cooperaciรณn Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, acadรฉmicas y diplomรกticas en Amรฉrica Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrรณfono de Oro de la Asociaciรณn Nacional de Locutores de Mรฉxico (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional Mรฉxico Blanco (2020) y el tรญtulo de Amigo de la Niรฑez y la Adolescencia.
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