
Durante anos, Jair Bolsonaro pediu aos brasileiros que vestissem verde e amarelo em nome da soberania nacional. Depois da derrota de seu filho na eleição presidencial, coube ao próprio Flávio expor a contradição desse discurso. Em entrevista ao Washington Post, o senador atribuiu seu acolhimento nos Estados Unidos à convicção de Donald Trump de que o Brasil já não seria uma democracia plena. Quem pediu aos brasileiros o voto para governar o país agora invoca a opinião de um presidente estrangeiro para pôr em dúvida a democracia que lhe permitiu disputar o cargo.
O saldo familiar é conhecido, mas cada caso tem um peso próprio. Jair Bolsonaro cumpre em prisão domiciliar a pena pela tentativa de golpe de Estado. Contra Eduardo, que permanece nos Estados Unidos, o Supremo determinou a expedição de mandado de prisão. Flávio deixou o Brasil depois de perder a eleição para Lula, e a Polícia Federal investiga as circunstâncias de sua saída. Ao explicar o caso, a própria PF esclareceu que a restrição a documentos de viagem, por si só, não torna um investigado foragido. Há dois filhos nos Estados Unidos, mas é contra Eduardo que há ordem de prisão confirmada.
A distinção jurídica deixa mais nítida a questão política. Flávio disputou a Presidência, perdeu e conserva a voz pública de um senador da República. Poderia usá-la para explicar aos eleitores por que saiu do país e quais erros atribui à própria campanha. Preferiu levar ao público americano o juízo que atribui a Trump sobre o Brasil. O eleitor que lhe confiou o voto continua merecendo uma explicação que só o candidato pode dar.
Há uma ironia no calendário. Poucos dias depois da eleição brasileira, os americanos foram às urnas e entregaram aos democratas a maioria na Câmara e no Senado. Trump continua na Casa Branca, mas terá de conviver com um Congresso controlado pela oposição. A derrota de seu partido ilustra uma regra elementar que vale em Washington tanto quanto em Brasília: a mesma urna que dá poder a um líder também dá ao cidadão o direito de limitar esse poder.
O jurista Miguel Reale Júnior usou a expressão “vírus do bolsonarismo” ao defender que Lula amplie a participação da sociedade no governo. A metáfora é mais precisa quando descreve um hábito político: aceitar as instituições enquanto elas favorecem o próprio lado e passar a tratá-las como ilegítimas quando impõem uma derrota. Aplicá-la indistintamente a milhões de eleitores seria um erro, inclusive para quem venceu. Gente que votou em Flávio tem o mesmo direito de cobrar do próximo governo segurança, escola de qualidade e respeito à lei.
Talvez esteja aí a parte mais incômoda desse balanço. A prisão do pai e a derrota do filho delimitam o destino de uma família. O futuro do bolsonarismo depende também do que acontecerá com quem ficou aqui. Enquanto Flávio fala de democracia a partir dos Estados Unidos, é no Brasil que seus eleitores continuarão vivendo, trabalhando e votando. A democracia brasileira ganha mais quando oferece a essas pessoas razões concretas para confiar nela do que quando se limita a lembrar quem perdeu a eleição.
https://tribunadosertao.com.br/politica/2026/11/08/1016262-o-bolsonarismo-prometeu-soberania-e-terminou-procurando-amparo-em-washington
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