
Em Palmeira dos Índios, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto já foi o homem a quem cabia fazer as perguntas. Promotor titular da comarca, passou também por Maravilha e Maceió antes de chegar à chefia do Ministério Público de Alagoas. Hoje, diante da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, cabe aos alagoanos devolver-lhe uma: se o senador investigado fosse seu adversário, e não o candidato de quem foi vice, Gaspar teria defendido sua partida com a mesma convicção?
Há um episódio da carreira de Gaspar que dá substância à pergunta. Em 2017, já procurador-geral de Justiça, ele pediu ao Tribunal de Justiça de Alagoas a prisão de um juiz que havia atuado em Marechal Deodoro. A decisão cabia ao tribunal. O que interessa aqui é a conduta do próprio Gaspar: diante dos elementos que o Ministério Público havia reunido, estava disposto a sustentar um pedido de prisão até contra um integrante do Judiciário. Era desse rigor que vinha parte de sua autoridade perante a opinião pública alagoana.
Seria impreciso dizer que o Gaspar de hoje assistiu impassível à partida de Flávio. Ele se pronunciou e tomou partido. Em vídeo divulgado em 29 de outubro, manifestou solidariedade ao companheiro de chapa, falou em perseguição e afirmou que o senador sofrera mais de duas mil ameaças de morte durante a campanha. Dias depois, disse ter lamentado a ida de Flávio aos Estados Unidos, embora apoiasse a decisão. É essa posição pública, mais do que qualquer silêncio, que merece exame.
Um ex-promotor conhece a gravidade de uma ameaça de morte. Conhece também a diferença entre dar proteção a uma pessoa ameaçada e dispensá-la de prestar esclarecimentos. As duas obrigações podem coexistir. Gaspar poderia defender a segurança de Flávio e, com a mesma firmeza, cobrar dele uma explicação pública sobre as circunstâncias em que deixou o país, hoje investigadas pela Polícia Federal. Quem ouviu o candidato a vice relatar o sofrimento do amigo tem o direito de querer ouvir também o raciocínio do antigo chefe do Ministério Público.
Em 14 de janeiro de 2015, quatro presos fugiram do Presídio Baldomero Cavalcanti, em Maceió. Alfredo Gaspar de Mendonça, recém-empossado secretário da Defesa Social de Alagoas, suspendeu uma entrevista coletiva e acionou as forças policiais. “Vamos fazer varredura em toda Maceió”, anunciou. Quem quiser lembrar o que significava ser um secretário linha-dura naqueles dias tem aí um exemplo.
É dessa memória alagoana que nasce uma pergunta para o deputado. O que o promotor de Palmeira dos Índios, acostumado a cobrar explicações, gostaria de ouvir do político Alfredo Gaspar quando os nomes em discussão são Flávio e Eduardo Bolsonaro? A cobrança mais elementar seria também a mais fácil de responder em público. Se um aliado for chamado pela Justiça brasileira, o deputado defenderá que ele compareça e preste os esclarecimentos devidos?
No Baldomero, havia quatro presos sob custódia do Estado e uma fuga registrada. A situação jurídica de cada um dos filhos de Bolsonaro exige apuração própria. A questão política para Gaspar é outra. Em Alagoas, ele soube dizer com todas as letras o que esperava de quem tinha contas a prestar à Justiça. O eleitor que se lembra daquele secretário tem o direito de ouvir, do deputado de hoje, com que palavras ele faria a mesma cobrança a um aliado.
O caso de Eduardo torna o contraste mais concreto. Contra ele, o ministro Alexandre de Moraes determinou a expedição de mandado de prisão. Já no caso de Flávio, a PF esclareceu que restrições a documentos de viagem, por si sós, não tornam o investigado foragido.
O rigor jurídico que se cobra de Gaspar exige preservar essa distinção. Exige também perguntar ao deputado qual deve ser, a seu ver, a resposta de um aliado político a uma ordem de prisão expedida pela Justiça brasileira.
Talvez o jovem promotor e o deputado de hoje concordassem que uma ordem judicial pode ser contestada e que até um adversário merece defesa. A conversa ficaria difícil um passo adiante. Para imaginar esse encontro, basta trazer o caso de volta a Palmeira dos Índios. Se um cidadão daquela comarca, investigado, deixasse o Brasil e alegasse perseguição, que explicações o promotor Gaspar julgaria necessárias antes de defender publicamente sua decisão?
É essa a pergunta que o jovem Gaspar poderia fazer ao Gaspar de hoje. E é em Alagoas, onde construiu sua reputação de promotor, que a resposta mais importa.
https://tribunadosertao.com.br/politica/2026/11/08/1016269-o-que-o-promotor-alfredo-gaspar-perguntaria-ao-vice-de-flavio-bolsonaro
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