
O dólar e o Ibovespa voltam a negociar nesta terça-feira (3), após o feriado de Finados, com investidores atentos à repercussão da notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia se reunir com André Lara Resende. A possibilidade colocou no radar do mercado a proposta do economista de reduzir a Selic para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses.
A recomendação de Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, prevê uma maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária, além de mudanças na definição dos juros e da utilização das reservas internacionais para conter pressões sobre o câmbio. O debate ganhou respaldo de José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, que defendeu atenção especial à proposta de coordenação entre as duas políticas.
Para Alex André, head de corporate access da MZ Group, a reação dos investidores dependerá principalmente da percepção sobre a possibilidade das ideias de Lara Resende serem incorporadas à política econômica do governo.
“Se os investidores entenderem que a ideia pode virar política de governo, a gente pode ver o dólar e os juros em alta, e a bolsa pressionada ainda mais, depois da vitória do Lula”, afirma.
O especialista pondera, no entanto, que a sinalização contrária do Ministério da Fazenda pode limitar os efeitos sobre os ativos brasileiros.
“Se prevalecer a sinalização da Fazenda que a proposta não está em discussão, o impacto pode ser bem limitado, ficando na teoria e não na prática”, acrescenta.
Na avaliação de André, um dos principais riscos está na diferença entre os juros de curto e longo prazo. Embora o Banco Central tenha controle sobre a Selic, as taxas mais longas refletem a percepção dos investidores sobre a inflação e a situação das contas públicas.
“Ao longo do tempo, se o mercado desconfiar da inflação e das contas públicas, os juros longos podem até subir”, alerta.
O especialista também chama atenção para os riscos associados ao uso das reservas internacionais como instrumento para conter uma eventual desvalorização do real.
“E aí, usar as reservas de uma forma contínua para segurar o dólar também pode enfraquecer a nossa proteção externa, que são as reservas cambiais”, afirma.
Na avaliação de André, a proposta aumenta as incertezas sobre a estabilidade econômica, enquanto um ajuste das despesas às receitas representaria uma alternativa mais eficiente no médio e longo prazo.
Mercado pode abrir pressionado, diz Brazil Wealth
David Martins, diretor de investimentos da Brazil Wealth, também vê espaço para uma reação negativa dos ativos brasileiros na volta do feriado. Segundo ele, além das discussões sobre a política econômica do novo governo, a forte queda do petróleo no exterior pode pressionar as ações da Petrobras e, consequentemente, o Ibovespa.
“Pelo preço da Petrobras, ela deve ter um dia de queda. Isso deve trazer um ambiente mais negativo para a nossa bolsa”, afirmou.
Para Martins, porém, o ponto central para os investidores continua sendo a definição da política fiscal do quarto governo Lula.
“O mercado aguarda uma sinalização do governo tanto com relação ao nome de quem poderá assumir a Fazenda a partir de 2027 como também uma sinalização do governo com relação a qual vai ser a política fiscal do país”, disse.
O executivo afirmou que a discussão em torno das ideias de Lara Resende foi mal recebida por investidores, principalmente diante da possibilidade de mudanças na condução da política monetária.
“O estudo do Lara foi muito mal visto. Houve muitas críticas nesse final de semana com relação a você tirar a autonomia do Banco Central, a você baixar os juros na canetada”, afirmou.
Na avaliação de Martins, uma mudança dessa magnitude não encontra espaço no cenário atual. Ele citou experiências anteriores de pressão por juros mais baixos e afirmou que o mercado acompanha com cautela qualquer sinalização nessa direção.
Por outro lado, Martins avaliou positivamente as manifestações do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), em defesa do equilíbrio fiscal.
Segundo ele, Fonteles é visto com bons olhos por parte do mercado por sua formação e experiência na área financeira e fiscal.
“Mais do que um nome, eu acho que a gente não tem no mercado financeiro questões com relação ao nome de quem vai governar, e sim qual vai ser a dinâmica fiscal adotada pelo país”, disse.
Impacto pode ser limitado
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, tem uma avaliação mais cautelosa. Para ele, as manifestações de Lara Resende e Gabrielli ainda não representam uma mudança efetiva na condução da política econômica.
“Acho que isso não terá um efeito no mercado”, afirma.
Agostini ressalta que nenhum dos dois economistas integra diretamente o governo e que ainda não há indicação de que as ideias apresentadas serão implementadas. “São ideias que cada um se manifestou e que talvez nem vá para frente”, observa.
Segundo o economista, a atenção dos investidores deverá se concentrar principalmente nas próximas sinalizações oficiais sobre a equipe econômica e nas medidas de ajuste fiscal que poderão ser adotadas pelo governo. “Tudo vai depender, obviamente, do que vem pela frente ainda”, acrescenta.
A ausência de um plano fiscal considerado consistente permanece entre as principais preocupações da Austin Rating, especialmente diante da trajetória de crescimento da dívida pública e das dificuldades para aprovação de medidas no Congresso.
“Isso tem preocupado bastante a nós como agência de classificação de risco, porque o governo ainda não colocou nenhum plano crível e consistente do ajuste fiscal”, destaca.
Agostini também defende que a escolha do próximo ministro da Fazenda considere a necessidade de recuperar a confiança dos investidores, com uma orientação econômica pró-mercado, previsibilidade e compromisso fiscal.
Copom e eleições nos EUA também entram no radar
Além das discussões sobre a política econômica brasileira, os investidores terão outros eventos relevantes para acompanhar nesta semana.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicia sua reunião nesta terça-feira (3), com a decisão sobre a Selic prevista para quarta-feira (4). A taxa básica está atualmente em 13,75% ao ano.
Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato, também marcadas para terça-feira, poderão alterar a composição do Congresso e influenciar a capacidade do presidente Donald Trump de avançar com sua agenda nos próximos dois anos.
“O evento principal dessa semana são as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos”, afirma Agostini.
Na avaliação do economista, esses acontecimentos deverão ter maior relevância para os mercados.
https://timesbrasil.com.br/investimentos/dolar-e-bolsa-possivel-encontro-de-lula-e-lara-resende-pode-movimentar-mercado-nesta-terca-feira/
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