O agronegócio brasileiro entrou em uma nova fase de exposição às tensões do comércio internacional. A concentração das exportações em grandes compradores, a dependência de insumos importados e o avanço de tarifas, cotas e restrições comerciais estão obrigando o Brasil a repensar sua estratégia para preservar a competitividade de um dos setores mais importantes de sua economia. Uma análise da RaboResearch, divulgada pela Revista Cultivar, aponta a diversificação de mercados e produtos como uma das principais respostas para reduzir essa vulnerabilidade.
O Brasil ocupa atualmente uma posição de destaque como principal exportador líquido mundial de commodities alimentares e agrícolas. Soja, proteínas animais, açúcar e café foram fundamentais para essa expansão, acompanhando principalmente o crescimento da demanda asiática nas últimas duas décadas. O problema é que o sucesso também produziu uma concentração maior em determinados destinos. A China já responde por aproximadamente 33% do valor das exportações brasileiras de alimentos e produtos agrícolas, enquanto a União Europeia representa 14% e os Estados Unidos aparecem na sequência. Juntos, esses três mercados absorvem 54% das vendas externas brasileiras do segmento.
Essa mudança é particularmente expressiva quando comparada ao início dos anos 2000. Entre 2003 e 2005, a China representava apenas 7% das exportações brasileiras do agronegócio, enquanto a União Europeia respondia por 32%. Entre 2023 e 2025, a participação chinesa chegou a 33%, ao mesmo tempo em que a fatia europeia caiu para 14%. A transformação mostra como o comércio agrícola brasileiro passou a depender cada vez mais da demanda chinesa.
A concentração também aparece quando são analisados produtos individualmente. A China está entre os três principais compradores de nove das dez commodities avaliadas pela RaboResearch. Em seis dessas cadeias, os três maiores mercados respondem por mais da metade das exportações brasileiras. Apesar disso, existe uma importante margem para diversificação: mais de 100 países participam da parcela das exportações brasileiras que fica fora dos três principais destinos, embora nenhum deles individualmente represente mais de 3% do valor exportado.
Carne bovina expõe o tamanho do risco
Um dos exemplos mais claros da vulnerabilidade está na carne bovina. Em 2025, a China importou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, volume equivalente a 48% das exportações nacionais do produto. Para 2026, porém, Pequim estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas métricas. A diferença representa um volume equivalente a aproximadamente 17% das exportações brasileiras de carne bovina registradas em 2025 que precisará encontrar outros compradores.
A situação demonstra por que a diversificação não pode ser tratada apenas como uma estratégia de longo prazo. Quando um grande comprador modifica suas regras de importação, o produtor, o frigorífico e o exportador precisam encontrar alternativas rapidamente. A própria RaboResearch avalia que a interdependência entre Brasil e China deverá continuar no curto prazo, justamente porque a escala da demanda chinesa é difícil de substituir imediatamente.
A relação entre os dois países, entretanto, não significa ausência de oportunidades. A China foi responsável por grande parte do crescimento mundial do consumo de commodities como soja e carne bovina na última década. Para o Brasil, o desafio consiste em preservar esse mercado enquanto amplia simultaneamente sua presença em outras regiões, evitando que mudanças regulatórias ou políticas de um único parceiro tenham impacto excessivo sobre toda a cadeia produtiva.
A vulnerabilidade também está dentro da porteira
O risco geopolítico brasileiro não está somente nas exportações. A produção nacional também depende fortemente do exterior para funcionar. Cerca de 80% dos fertilizantes e defensivos agrícolas utilizados no Brasil são importados, enquanto o país também depende de diesel estrangeiro, responsável por aproximadamente 25% a 30% do consumo nacional.
Essa dependência torna o produtor vulnerável a guerras, interrupções logísticas, sanções, tarifas, crises energéticas e alterações nas relações entre grandes potências. Um conflito distante pode, portanto, aumentar o custo de uma lavoura brasileira mesmo sem qualquer mudança na produção nacional.
A RaboResearch aponta como possíveis caminhos o aumento da produção doméstica de fertilizantes e a ampliação da capacidade brasileira de refino de petróleo. A lógica é reduzir pontos de fragilidade dentro das próprias cadeias produtivas e evitar que problemas internacionais se transformem imediatamente em aumento de custos para agricultores e pecuaristas.
Estados Unidos e China aumentam a pressão sobre o comércio
O cenário internacional acrescenta novas dificuldades. As tarifas adotadas pelos Estados Unidos, os choques provocados pelos conflitos no Oriente Médio e a estratégia chinesa de buscar maior segurança alimentar e autossuficiência estão modificando os fluxos tradicionais do comércio agrícola.
No caso brasileiro, as medidas comerciais norte-americanas já produziram efeitos concretos. Dados divulgados recentemente mostram que as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9,7% entre janeiro e agosto de 2026, para US$ 24,1 bilhões, o menor valor para o período desde 2023. No agronegócio, a queda acumulada chegou a 26,7%.
Ao mesmo tempo, Brasília pretende utilizar a próxima reunião de ministros de Comércio do G20, marcada para 30 de setembro e 1º de outubro nos Estados Unidos, para negociar as tarifas aplicadas pelos norte-americanos aos produtos brasileiros.
Mercosul ganha importância estratégica
Nesse cenário, o Mercosul pode assumir uma função ainda mais importante para o agronegócio brasileiro. A integração regional oferece não apenas um mercado consumidor próximo, mas também uma plataforma para ampliar a capacidade de negociação e desenvolver cadeias produtivas complementares.
A própria RaboResearch cita os acordos União Europeia–Mercosul, Mercosul–EFTA e Mercosul–Singapura como instrumentos capazes de ampliar o acesso comercial brasileiro. A diversificação, portanto, não significa abandonar China, Estados Unidos ou União Europeia, mas evitar que qualquer um deles tenha capacidade de determinar sozinho as condições de crescimento do setor.
A importância desse caminho também aparece em análises anteriores sobre o setor. Um estudo da EY classificou “geopolítica e comércio internacional” como o terceiro maior risco para empresas das cadeias agrícolas brasileiras e apontou que, apesar da percepção elevada do risco, as empresas ainda apresentam baixo nível de preparação para enfrentar suas consequências.
Novos produtos podem reduzir a dependência
A estratégia de diversificação não precisa ocorrer apenas pela conquista de novos compradores para produtos tradicionais. O Brasil também pode ampliar a pauta exportadora por meio de produtos derivados e de maior valor agregado.
Um exemplo citado pela RaboResearch são os grãos secos de destilaria, conhecidos pela sigla DDG, um coproduto da produção de etanol de milho utilizado na alimentação animal. Praticamente inexistentes na pauta exportadora brasileira há uma década, esses produtos conquistaram acesso a 21 mercados internacionais desde 2023.
Esse movimento mostra uma possibilidade importante para o agronegócio: transformar aquilo que anteriormente era tratado apenas como coproduto em uma nova fonte de receita internacional.
A oportunidade está na diversificação
O cenário atual apresenta riscos, mas também oportunidades. A própria escala do agronegócio brasileiro oferece poder de negociação em determinadas cadeias. O relatório cita o exemplo dos Estados Unidos, que dependem do Brasil para parte do abastecimento de produtos como café, suco de laranja, carne bovina e celulose, segmentos que receberam posteriormente isenções das tarifas norte-americanas mencionadas no estudo.
Além disso, as mudanças demográficas podem alterar profundamente o mapa mundial da demanda por alimentos. Projeções das Nações Unidas indicam crescimento populacional especialmente concentrado na África, no Oriente Médio e no Sudeste Asiático, enquanto China e União Europeia enfrentam perspectivas de redução populacional. Para um país com enorme capacidade de produção agrícola como o Brasil, essa transformação pode criar novos mercados nas próximas décadas.
O desafio do agronegócio brasileiro, portanto, já não é apenas produzir mais. É produzir com maior segurança estratégica, reduzir a dependência de insumos externos, conquistar novos compradores e transformar sua enorme capacidade agrícola em uma rede comercial suficientemente diversificada para resistir às crises internacionais.
A geopolítica passou a fazer parte diretamente da realidade do produtor rural. Uma tarifa anunciada em Washington, uma decisão comercial em Pequim, uma guerra que afeta fertilizantes ou uma interrupção no fornecimento de combustível pode repercutir diretamente no campo brasileiro. A resposta, segundo os especialistas, passa por diversificar parceiros, fortalecer a produção nacional de insumos e utilizar instrumentos de integração como o Mercosul para construir um agronegócio menos vulnerável aos choques externos.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Periodista prensa mercosur
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