Uma missão empresarial italiana com mais de 100 empresas chegou ao Brasil com um objetivo claro: transformar o novo cenário comercial entre a União Europeia e o Mercosul em negócios concretos, ampliando as exportações italianas e aprofundando parcerias com empresas brasileiras. Liderada pelo ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, a delegação iniciou em São Paulo uma agenda voltada principalmente para tecnologia, bioeconomia, indústria e inovação.
O encontro realizado em São Paulo recebeu o nome “Costruire Futuro. Crescimento comune UE-Mercosul” e reuniu representantes do setor empresarial e industrial. A escolha da maior economia do Mercosul como centro da missão não é casual: o governo italiano considera o Brasil estratégico para sua política de diversificação de mercados e para o aumento das exportações italianas.
Tajani anunciou também a criação de um grupo de trabalho permanente entre Itália e Brasil, com reuniões anuais destinadas a acompanhar oportunidades comerciais e transformar as decisões políticas em projetos empresariais. O chanceler italiano afirmou que a missão representa uma das maiores iniciativas empresariais realizadas desde a conclusão do acordo entre os dois blocos.
Itália quer aproveitar uma nova fase comercial
O acordo de parceria entre Mercosul e União Europeia foi assinado em 17 de janeiro de 2026 e criou uma estrutura comercial que conecta um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas, com PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. O governo brasileiro classifica o pacto como o maior acordo comercial já celebrado pelo Mercosul.
Para as empresas italianas, a perspectiva é particularmente importante porque o Mercosul representa um mercado ainda com grande espaço para expansão. Segundo Tajani, o comércio entre Itália e Brasil cresceu 55,7% nos últimos anos, enquanto os primeiros meses posteriores ao acordo registraram crescimento de aproximadamente 22% na corrente comercial entre os dois países.
O ministro italiano afirmou ainda que a expectativa é de continuidade desse crescimento, estimando uma expansão de aproximadamente 4% ao ano nos próximos anos. A ofensiva empresarial também está relacionada à meta italiana de elevar as exportações nacionais para €700 bilhões, ante um volume próximo de €650 bilhões.
Tecnologia e bioeconomia entram no centro da estratégia
A missão italiana não está concentrada apenas no comércio tradicional. Entre os setores considerados estratégicos estão bioeconomia, tecnologia, transição energética, indústria, farmacêutica e agroindústria, áreas nas quais empresas italianas procuram parceiros e novos mercados no Brasil e no restante do Mercosul.
Essa estratégia pode produzir efeitos que vão além da simples venda de produtos. Parcerias industriais, transferência de tecnologia, investimentos conjuntos e integração de cadeias produtivas podem aproximar empresas europeias e sul-americanas em setores considerados essenciais para a próxima década.
São Paulo ocupa posição privilegiada nesse processo por concentrar uma das maiores estruturas industriais, financeiras e tecnológicas da América Latina. A presença da missão na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) reforça justamente a intenção de aproximar empresários italianos dos grandes centros de decisão econômica brasileiros.
Oportunidade para todo o Mercosul
Embora São Paulo seja o principal ponto da agenda brasileira, os efeitos potenciais do acordo não ficam restritos ao Brasil. Empresas italianas interessadas em ampliar sua presença na América do Sul podem utilizar o mercado brasileiro como porta de entrada para desenvolver negócios também com Argentina, Paraguai e Uruguai, dentro da lógica de integração comercial do Mercosul.
Para os países menores do bloco, esse movimento pode representar uma oportunidade de atrair investimentos, fornecedores e novas cadeias de produção. Empresas italianas que estabeleçam operações ou parcerias dentro do Mercosul poderão encontrar condições mais favoráveis para atender diferentes mercados da região.
O movimento ocorre, porém, em um momento em que o relacionamento comercial entre Mercosul e União Europeia também enfrenta desafios. O Brasil, por exemplo, está negociando com a União Europeia uma solução para a suspensão de determinadas exportações de produtos de origem animal, enquanto Bruxelas mantém exigências sanitárias rigorosas.
Isso mostra que a abertura comercial não elimina automaticamente as barreiras técnicas, sanitárias e regulatórias. Para transformar o acordo em crescimento efetivo, empresas dos dois lados precisarão adaptar produtos, certificações, padrões de produção e mecanismos de rastreabilidade às novas exigências.
Uma nova disputa por mercados
A ofensiva italiana ocorre também em um contexto internacional de crescente competição por mercados. Com dificuldades e novas barreiras comerciais em algumas economias, países europeus procuram diversificar seus destinos de exportação, enquanto o Mercosul busca ampliar o número de compradores e investidores.
Nesse cenário, a missão liderada por Tajani tem um significado que ultrapassa a relação bilateral entre Roma e Brasília. A Itália está sinalizando que pretende ocupar espaço na nova fase de integração econômica entre Europa e América do Sul.
Para o Mercosul, o desafio será transformar esse interesse europeu em investimentos produtivos, empregos, inovação e maior participação das empresas sul-americanas nas cadeias internacionais.
A movimentação italiana em São Paulo mostra que o acordo Mercosul–União Europeia começa a ser tratado não apenas como um documento diplomático, mas como uma plataforma para novos negócios. A chegada de mais de uma centena de empresas italianas ao Brasil indica que a disputa pelos mercados que serão abertos ou ampliados pelo acordo já começou — e São Paulo aparece como um dos principais pontos de partida dessa nova etapa comercial.
Foto: Divulgação / Missão empresarial italiana
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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