
O etanol brasileiro pode ganhar espaço no mercado internacional diante da crise energética e da busca por alternativas aos combustíveis fósseis. Para transformar esse potencial em oportunidades comerciais, porém, o Brasil precisa avançar na promoção do biocombustível no exterior, enfrentar barreiras regulatórias e ampliar a articulação entre governo e setor privado.
A avaliação é de Paula Soares, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que participou do 6º Fórum Planeta Campo, realizado pelo Canal Rural nesta sexta-feira (6). Segundo ela, o cenário internacional abre espaço para o Brasil apresentar sua experiência com biocombustíveis como uma alternativa para outros países.
“Contra a crise energética, existe uma arma secreta: o etanol brasileiro”, afirmou Paula, ao citar uma manchete publicada pelo jornal britânico The Economist, em março de 2026.
Para a representante da ApexBrasil, o desafio agora é transformar o reconhecimento do potencial brasileiro em uma estratégia consistente de promoção internacional. Isso envolve mostrar os benefícios do etanol, ampliar o diálogo com mercados compradores e trabalhar para que outros países avancem na adoção de misturas de biocombustíveis aos combustíveis fósseis.
Quatro oportunidades para o etanol brasileiro
Durante o painel, Paula apontou quatro frentes que podem favorecer a expansão internacional do biocombustível: o transporte marítimo, a crise energética, a revisão das metas de descarbonização e os avanços nas discussões sobre a mistura de etanol à gasolina na União Europeia.
No transporte marítimo, a executiva destacou o reconhecimento, em maio, pela Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), de critérios relacionados à intensidade de carbono dos combustíveis. Na avaliação dela, esse movimento abre espaço para alternativas de menor emissão, embora a expansão do uso de biocombustíveis nesse segmento dependa de avanços regulatórios e comerciais.
A crise energética também pode favorecer o etanol brasileiro. Paula citou o peso das contas de energia para consumidores europeus como exemplo da necessidade de buscar alternativas e defendeu que o Brasil se apresente como parte da solução.
“É uma oportunidade das crises energéticas ou das crises em geral: a gente também nasce em oportunidades”, afirmou.
A terceira frente está relacionada à revisão das metas de descarbonização. Segundo Paula, há sinais de maior flexibilidade nas discussões europeias sobre os objetivos estabelecidos, o que pode abrir espaço para novas soluções energéticas.
Por fim, ela destacou as sinalizações em torno da adoção de uma mistura de 20% de etanol à gasolina (E20) na União Europeia. Embora cada país do bloco possa seguir caminhos diferentes, o avanço dessa discussão seria relevante para ampliar a presença do biocombustível e influenciar decisões em outros mercados.
Barreiras regulatórias e desinformação
Apesar das oportunidades, a ampliação das exportações depende de superar obstáculos que vão além da capacidade brasileira de produção. Entre eles estão as restrições regulatórias, a concorrência com outras fontes de energia e a circulação de informações equivocadas sobre a relação entre biocombustíveis, produção de alimentos e desmatamento.
Paula ressaltou que parte da resistência ao etanol está associada a interesses econômicos de setores já estabelecidos, como as indústrias automotiva e petrolífera. Por isso, segundo ela, não basta apresentar argumentos técnicos sobre as vantagens ambientais do produto.
“É nosso papel, como Apex, como governo, como setor privado, não só falar que realmente emite menos, mas, ao mesmo tempo, se colocar como uma contribuição”, disse.
A estratégia, na avaliação da executiva, deve combinar dados, comunicação e articulação internacional. Ela citou o reconhecimento de que determinadas rotas de produção de etanol apresentam emissões inferiores às dos combustíveis fósseis como um argumento que precisa ser comunicado de forma mais ampla.
A resposta à desinformação também exige uma atuação coordenada. Paula defendeu que o setor apresente informações consistentes sobre a produção brasileira, incluindo o uso de áreas agrícolas, a legislação ambiental e os sistemas de produção integrados.
Para ela, a comunicação precisa ser construída de forma conjunta, com a participação de empresas, entidades representativas e governo. A intenção é evitar que o Brasil dependa de iniciativas isoladas para responder a questionamentos feitos no exterior.
ApexBrasil aposta em articulação internacional
A atuação da ApexBrasil inclui a participação em fóruns internacionais e o desenvolvimento de iniciativas com entidades do setor para promover os biocombustíveis brasileiros. Paula citou a presença da agência nas discussões sobre transição energética e projetos desenvolvidos em parceria com representantes da indústria.
Entre as frentes de trabalho, ela destacou a articulação com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), além das iniciativas bilaterais para incentivar a adoção de misturas de biocombustíveis em outros países.
A Índia e o Sudeste Asiático estão entre os mercados que merecem atenção. Segundo Paula, a Índia já avançou na ampliação da mistura de etanol à gasolina, enquanto outros países da região também apresentam oportunidades de desenvolvimento do setor.
Ela mencionou, ainda, uma missão às Filipinas prevista para breve, com a modernização da produção local de etanol entre os temas de interesse.
A estratégia, portanto, não se limita à venda direta do produto brasileiro. Também envolve compartilhar a experiência regulatória e produtiva do país para incentivar políticas que ampliem o uso de biocombustíveis em outros mercados.
“Essa mudança começou aqui, mas a gente pode exportar o pensamento que fez a gente chegar até aqui para combater essa crise energética”, afirmou Paula.
Para a ApexBrasil, a combinação entre promoção comercial, cooperação internacional e defesa dos benefícios ambientais do etanol pode ajudar o país a ampliar sua participação no mercado global de energia renovável.
https://www.canalrural.com.br/sustentabilidade/apexbrasil-ve-etanol-brasileiro-como-solucao-para-crise-energetica-global/
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