
247 – A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) defendeu a indicação do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para comandar o Ministério da Fazenda no quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A parlamentar considera que Alckmin reúne condições para conciliar responsabilidade fiscal e políticas sociais, além de defender uma revisão das emendas parlamentares por meio da pressão popular sobre o Congresso Nacional.
Em entrevista ao Estadão, Tabata também afirmou que pretende aproveitar a mobilização política responsável pela virada eleitoral de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) para impulsionar mudanças no Legislativo. Reeleita para seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados, ela criticou a influência das plataformas digitais nas eleições, alertou para o risco de um acordo político que impeça investigações sobre o Banco Master e admitiu a possibilidade de voltar a disputar a Prefeitura de São Paulo em 2028.
Alckmin na Fazenda e equilíbrio das contas públicas
Ao discutir a composição do próximo governo, Tabata apontou Alckmin como um dos principais nomes do PSB para assumir responsabilidades na administração federal. Segundo ela, a experiência do vice-presidente como governador de São Paulo e sua atuação nas negociações comerciais com os Estados Unidos demonstram sua capacidade política e administrativa.
Questionada diretamente sobre a possibilidade de Alckmin assumir o Ministério da Fazenda, a deputada respondeu:
“Eu defendo. Agora, importa minha defesa? É uma decisão do presidente Lula. Mas, de novo, não é porque a gente está interessado em lotear o governo. É porque a gente tem projeto de País. É porque eu sei que o Alckmin, nosso vice-presidente, tem uma visão que concilia o social e o fiscal. E é isso que eu gostaria de ver na Fazenda. Se outras pessoas tiverem também essa visão, ótimo, vou achar lindo também.”
A parlamentar ressaltou que o PSB não pretende transformar sua participação no governo em uma negociação por cargos e orçamentos ministeriais. Para ela, a escolha dos integrantes da Esplanada dos Ministérios deve permanecer sob responsabilidade do presidente Lula.
Na avaliação de Tabata, o debate econômico precisa superar tanto a defesa de um Estado mínimo quanto propostas que desconsiderem os limites das contas públicas. A deputada argumentou que a redução de despesas deve priorizar privilégios e benefícios concentrados nos setores mais ricos, preservando investimentos em serviços essenciais.
“Qual é a narrativa que é coerente pra mim? É de você defender um Estado efetivo, que atende os mais pobres. Vai cortar da saúde? Vai cortar da educação? Não é daqui que a gente vai cortar. Agora, não vamos esquecer o quanto que esse Estado é inchado para as elites. Vamos começar reduzindo as emendas parlamentares? Vamos ter coragem de cortar a isenção fiscal, desconto para empresário que tem amiga em Brasília? Vamos enfrentar os supersalários?”
Pressão popular para reduzir emendas parlamentares
Uma das principais propostas defendidas pela deputada é utilizar a mobilização das ruas e das redes sociais para pressionar deputados e senadores a rever o sistema de emendas parlamentares.
Tabata considera que a resistência do Congresso a mudanças nas regras de distribuição dos recursos pode ser enfrentada com campanhas que expliquem à população como o dinheiro público poderia ser destinado a políticas sociais.
Como exemplo, mencionou a proposta do governo de direcionar parte das emendas ao financiamento do transporte público. A parlamentar declarou apoio à gratuidade do transporte coletivo, inicialmente aos finais de semana, mas afirmou que a mesma estratégia poderia beneficiar áreas como saúde e educação.
“Eu defendo o transporte público gratuito, e acho que começar aos finais de semana é uma forma bem bacana de a gente fazer isso, mas eu não queria nem debater o mérito disso. Que seja tirar das emendas parlamentares para financiar a saúde. Tirar das emendas para financiar a educação. Eu acho que esse é um caminho.”
Para Tabata, o principal desafio é tornar compreensível para a população uma discussão que costuma ficar restrita às negociações entre parlamentares e integrantes do Executivo.
Ela citou a mobilização pelo fim da escala de trabalho 6 por 1, a criação do programa Pé-de-Meia e a campanha pela distribuição gratuita de absorventes como exemplos de iniciativas que ganharam força com a participação popular.
“Então, seja para dizer que vai ser carimbado para o transporte, para a saúde ou para a educação, se a gente não trouxer a população para enfrentar o escárnio que são essas emendas parlamentares, você bota para voto e vai perder. Agora, mobiliza a população.”
A deputada argumentou que a experiência eleitoral recente demonstrou a capacidade de organização dos movimentos sociais e das campanhas digitais. Em sua avaliação, o campo democrático precisa manter essa articulação após as eleições para viabilizar projetos que enfrentam resistência no Congresso.
Tabata quer regulação das redes sociais ainda nesta legislatura
Outra prioridade apresentada pela parlamentar é a criação de regras específicas para a atuação das plataformas digitais durante as eleições.
Tabata afirmou ter conversado com o presidente da Câmara, Hugo Motta, sobre a possibilidade de votar um código eleitoral voltado às redes sociais ainda nesta legislatura. A proposta seria discutida paralelamente a outras mudanças no sistema político, incluindo o debate sobre a adoção do voto distrital misto.
Segundo a deputada, houve receptividade de representantes de diferentes partidos à criação de um grupo de trabalho, do qual ela deverá participar como representante do PSB.
Entre as medidas defendidas estão a identificação dos responsáveis pelo financiamento de conteúdos impulsionados, a distinção entre usuários reais e perfis automatizados e maior transparência sobre o funcionamento dos algoritmos.
Tabata também levantou suspeitas sobre a influência das plataformas digitais no desempenho de candidatos de extrema direita nas eleições de 2026. Ela afirmou acreditar que mecanismos de distribuição de conteúdo podem ter favorecido o bolsonarismo, embora não tenha apresentado, nos trechos divulgados da entrevista, provas conclusivas de interferência deliberada nos resultados.
“E esses códigos, de diferentes formas, deram demonstrações claras de que eles estavam priorizando um lado – o do Flávio Bolsonaro, do bolsonarismo – em detrimento do outro. Acho que, sim, a população brasileira está mais à direita, mas eu também acho que houve muita interferência por meio das plataformas que distorceram o resultado da eleição.”
Para a deputada, a regulação não deve se limitar à remoção de conteúdos ilegais, mas também estabelecer mecanismos de fiscalização sobre a distribuição de informações políticas.
“E eu sempre digo: o debate não é se a gente vai regular ou não. O debate é quem regula. Porque já é regulado. No Vale do Silício. Tem alguns poucos bilionários que determinam como a principal arena de debate vai funcionar. Só não é o povo brasileiro. Só que é a nossa eleição, a nossa soberania que está em jogo nisso.”
Deputada alerta para possível acordo político sobre escândalo do Banco Master
Tabata também demonstrou preocupação com o desdobramento das investigações relacionadas ao Banco Master e às denúncias envolvendo autoridades dos Três Poderes.
Na avaliação da parlamentar, existe o risco de uma articulação política destinada a impedir que todos os envolvidos sejam responsabilizados. Ela defendeu o aprofundamento das investigações e advertiu que a falta de respostas institucionais pode ampliar a desconfiança da população em relação à democracia.
“Acho que o Brasil tem dois caminhos quando a gente fala desses muitos escândalos de corrupção. Um deles é fingir que nada aconteceu e se fazer um ‘acordão’ em Brasília para que ninguém seja punido. Infelizmente, acho que muita gente trabalha por isso hoje. Acho, não: sei que muita gente trabalha por isso.”
Questionada se considera provável a formação desse acordo, respondeu afirmativamente.
“Infelizmente. Hoje o mais provável é um acordão.”
A deputada reconheceu, porém, que não participa das eventuais conversas e não dispõe de informações diretas sobre seus termos. Sua avaliação, segundo explicou, decorre da quantidade de pessoas potencialmente atingidas pelas investigações.
Tabata também defendeu uma reforma do Judiciário, com discussão sobre os critérios de indicação dos ministros do Supremo Tribunal Federal, o tempo de permanência na Corte e a ampliação da presença feminina.
Outro ponto levantado foi a necessidade de rever situações que, embora não sejam necessariamente ilegais, podem representar conflitos éticos, como a atuação de familiares de ministros em processos julgados pelo próprio tribunal.
A parlamentar afirmou que o combate à corrupção deve permanecer entre as prioridades do governo Lula, mesmo após a vitória eleitoral.
Segurança pública deve ganhar prioridade no novo governo Lula
Ao avaliar os desafios do quarto mandato presidencial de Lula, Tabata apontou a segurança pública como uma das áreas que exigem maior atenção.
“Segurança pública é o maior problema do nosso Brasil. Foi um erro, e é um erro, a gente não se debruçar sobre isso.”
Ela também defendeu que o governo amplie o diálogo sobre empreendedorismo e transformações no mercado de trabalho, sem abandonar o enfrentamento da precarização das relações trabalhistas.
Na avaliação da deputada, a gestão federal precisa renovar sua comunicação e incorporar novas práticas políticas, aproveitando a capacidade de mobilização demonstrada durante a campanha presidencial.
Tabata observou que a campanha de Lula passou por uma transformação nas semanas finais da disputa e considera que essa experiência pode contribuir para uma renovação da administração federal.
Tabata admite nova candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2028
No cenário municipal, a deputada confirmou que voltar a disputar a Prefeitura de São Paulo é uma possibilidade desejada tanto por ela quanto pelo PSB.
Tabata participou das eleições municipais de 2024 e terminou a disputa em quarto lugar, com 9,91% dos votos. Agora, após conquistar seu terceiro mandato na Câmara, afirma que pretende priorizar a atuação parlamentar antes de tomar uma decisão sobre 2028.
“Esse é o meu desejo e é o desejo do meu partido. Mas é uma construção, como sempre é. Conversando com outras pessoas, conversando com quem está aqui na cidade e trabalhando.”
A parlamentar também fez duras críticas ao prefeito Ricardo Nunes (MDB), especialmente por sua atuação durante o segundo turno presidencial.
Tabata acusou a administração municipal de reduzir a frota de ônibus no domingo da votação, prejudicando principalmente regiões periféricas, onde Lula teria maior apoio eleitoral. Ela também criticou a suposta mobilização de servidores públicos em favor de Flávio Bolsonaro.
“Essa questão da redução do número de ônibus – que afetou principalmente a periferia e onde o Lula era mais votado – é criminosa. Isso tem que ser investigado, alguém tem que ser responsabilizado.”
As acusações foram feitas pela deputada e não constituem, por si só, comprovação de irregularidades. Procurada pelo Estadão, a Prefeitura de São Paulo não havia se manifestado até a publicação da entrevista.
Tabata também afirmou que o crescimento da votação de Lula na capital paulista demonstra a existência de espaço político para uma candidatura de centro em 2028.
“São Paulo não é bolsonarista. Isso está claro para todo mundo.”
Segundo a parlamentar, Lula conquistou aproximadamente 800 mil votos adicionais na capital entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial.
Ela avalia que a disputa municipal deverá favorecer um projeto político de centro, mas com propostas de renovação administrativa e capacidade de enfrentar os problemas da cidade.
PSB considera construir projeto próprio para 2030
Ao abordar a sucessão presidencial de 2030, Tabata afirmou que ainda é cedo para definir uma eventual candidatura do PSB, mas reconheceu que o partido pretende fortalecer sua identidade política e ampliar sua autonomia.
A deputada destacou que a legenda mantém uma posição de centro em questões econômicas e possui propostas próprias para a segurança pública e outras áreas da administração federal.
Apesar disso, ressaltou que o partido preserva sua aliança com Lula e que a discussão sobre a próxima eleição presidencial não deve antecipar decisões políticas.
“É natural que, com o tempo, a gente queira caminhar com as próprias pernas. Temos quadros para isso, temos projeto.”
https://www.brasil247.com/brasil/tabata-defende-alckmin-na-fazenda-e-propoe-mobilizacao-popular-contra-emendas/
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