
247 – O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) afirma ter identificado mensagens que apontam uma relação de proximidade entre o influenciador fitness Renato Cariani e um policial civil que teria atuado para dificultar o avanço de uma investigação sobre irregularidades na comercialização de produtos químicos. As conversas, extraídas do celular do empresário, indicariam que ele recebia informações privilegiadas sobre diligências policiais e acompanhava as movimentações para encerrar um inquérito que investigava transações envolvendo a farmacêutica AstraZeneca.
As informações foram divulgadas pelo G1, nesta sexta-feira (30), com base nas alegações finais apresentadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). No documento, os promotores sustentam que Cariani teria recorrido ao policial civil André Dziuba, ligado à fiscalização de produtos químicos, para interferir no andamento das apurações. O Ministério Público também pediu a condenação do influenciador por associação para o tráfico, tráfico de insumos destinados à fabricação de drogas e lavagem de dinheiro.
Segundo a Promotoria, os diálogos demonstram que Cariani não apenas acompanhava o inquérito, mas buscava impedir que as investigações comprometessem as atividades de sua empresa, a Anidrol Produtos para Laboratórios, sediada em Diadema, na Grande São Paulo.
“Os elementos extraídos de seus dispositivos evidenciam a preocupação concreta de Renato em impedir o avanço das investigações e preservar a continuidade do esquema criminoso, mediante a mobilização de servidores públicos e até mesmo de agente político”, afirmaram os promotores.
A investigação mencionada nas mensagens foi conduzida pela Polícia Civil, tramitou na 2ª Vara Criminal de Diadema e acabou arquivada em 2023. Para o Gaeco, entretanto, o encerramento ocorreu em circunstâncias que precisam ser analisadas à luz das conversas posteriormente recuperadas.
Policial teria admitido elaboração de relatório para interromper apuração
Um dos diálogos considerados mais relevantes pelo Ministério Público ocorreu em 1º de setembro de 2022. Na ocasião, Cariani perguntou ao policial se o inquérito seria encerrado. Dziuba respondeu que o delegado havia determinado a identificação dos veículos utilizados para retirar mercadorias, mas que as diligências não haviam produzido resultados.
Em seguida, segundo o documento, o policial afirmou:
“Vai sim, o delegado emitiu uma ordem de serviço para identificar os carros que retiraram a mercadoria, mas como não conseguimos identificar as placas e as pesquisas que fizemos deu uns carros velhos. Assim fizemos um relatório induzindo o delegado a não fazer mais nada”.
A declaração é apontada pelo Gaeco como um indício de que houve uma tentativa deliberada de desestimular a continuidade da investigação.
“Fica evidente aqui a razão pela qual o inquérito policial na Polícia Civil foi arquivado, sendo um dos argumentos suscitados pela defesa de Renato”, escreveram os promotores.
Dois meses antes, em 6 de julho de 2022, outra conversa já indicava a preocupação de Cariani com o andamento do procedimento. Ao ser questionado sobre a investigação, o policial teria minimizado a possibilidade de novas descobertas.
“Então, creio que está tudo tranquilo, só vamos tentar localizar os veículos que fizeram a retirada e intimar os proprietários deles, mas acho que não vamos chegar a lugar algum. Só não acabou ainda por causa desses detalhes […] Mas relaxa que estamos de olho e orientado o escrivão”.
Para a acusação, a troca de mensagens revela que o empresário tinha acesso a informações sobre os próximos passos da investigação e recebia garantias informais de que as diligências dificilmente avançariam.
Mensagens mostram proximidade entre Cariani e policial desde 2021
A relação entre o influenciador e André Dziuba também aparece em conversas anteriores. Em novembro de 2021, o policial teria informado a Cariani que ele precisava prestar depoimento no inquérito relacionado à AstraZeneca, mas ressaltou que não havia urgência.
“Me fala uma coisa, me fala quando você vai estar com os meus suplementos aí na empresa e outra coisa, o escrivão precisa te ouvir naquele inquérito da AstraZeneca, mas isso nos vamos fazer ao seu tempo, não tem pressa”, escreveu o policial, segundo o Ministério Público.
Em dezembro daquele ano, Dziuba voltou a tratar da oitiva e teria demonstrado disposição para adaptar o procedimento à disponibilidade do empresário.
“Se não der para você, deixa para outro dia, f… o escrivão”, afirmou.
Na avaliação dos promotores, os episódios indicam uma relação incompatível com a distância esperada entre um investigado e um servidor ligado à fiscalização.
O Gaeco também sustenta que a proximidade permitia a Cariani interferir em outras atividades fiscalizatórias. Segundo o documento, o empresário opinava sobre situações investigadas e chegava a sugerir empresas que poderiam ser alvo de verificações.
Para o Ministério Público, esse comportamento demonstra que o influenciador “atuava não somente para proteger a associação para o tráfico, como também para prejudicar eventuais concorrentes que vendiam produtos químicos”.
Conversas indicam comemoração após arquivamento do inquérito
Outro conjunto de mensagens citado pela Promotoria envolve o encerramento da investigação em janeiro de 2023.
De acordo com o documento, em 27 de janeiro daquele ano, um interlocutor pediu a Cariani informações sobre o procedimento policial e afirmou que precisava do número do inquérito para providenciar seu arquivamento.
“Eu preciso do número do IP, tá? Daquele que precisa ser arquivado, eu tô com a pessoa aqui agora, tá? Eu preciso do número do IP pra gente já arquivar aquilo”, diz a mensagem reproduzida nas alegações finais.
Cariani teria então procurado André Dziuba, que forneceu os dados solicitados e informou que o procedimento estava encerrado. Após repassar as informações, o influenciador recebeu do outro interlocutor a resposta: “Tudo em andamento”.
Em outra troca de mensagens sobre o encerramento do caso, o policial afirmou: “Acabou, meu. É só tomar uma”.
Cariani respondeu: “Obrigado, Dezao! Bora tomar uma então?”.
O policial também informou que o procedimento havia sido relatado em 19 de janeiro de 2023 e arquivado.
O Ministério Público argumenta que o arquivamento foi posteriormente utilizado pela defesa de Cariani como elemento favorável à sua inocência. Os promotores, porém, ressaltam que o responsável pela análise do caso na época não tinha conhecimento das mensagens extraídas do aparelho celular do influenciador.
Cariani demonstrava conhecimento sobre uso de substâncias na produção de cocaína
Além das conversas relacionadas ao inquérito, o Gaeco destacou mensagens que, segundo os investigadores, demonstram o conhecimento técnico de Cariani sobre a utilização de produtos químicos na fabricação de drogas.
Em 11 de abril de 2019, André Dziuba teria consultado o empresário sobre o controle de determinada substância pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Cariani respondeu: “É sim Andrezão… Controlado pela ANVISA e utilizado para aumentar o rendimento da cocaína”.
Para os promotores, o diálogo reforça a acusação de que o empresário conhecia as possíveis aplicações ilícitas dos insumos comercializados por sua empresa.
A Promotoria também afirma que as mensagens indicam conhecimento sobre falhas nos mecanismos internos de controle da retirada de mercadorias da Anidrol.
Ministério Público pede condenação por 119 crimes
As novas informações foram apresentadas na fase de alegações finais do processo criminal decorrente da Operação Hinsberg, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023.
O Ministério Público pediu a condenação de Renato Cariani, Fábio Spínola Mota e Rodrigo Gomes Pereira por associação para o tráfico, 59 episódios de tráfico de insumos destinados à fabricação de drogas e 59 crimes de lavagem de dinheiro.
Segundo o advogado criminalista Anderson Almeida, ouvido pelo g1, caso a Justiça acolha integralmente a acusação, cada réu poderá receber pena entre 16 anos e quatro meses e 51 anos e oito meses de prisão, além de multas.
O cálculo considera a possibilidade de reconhecimento da continuidade delitiva, com aplicação de aumento de dois terços sobre as penas, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Mesmo que a soma das condenações ultrapasse esse patamar, o limite legal de cumprimento de penas privativas de liberdade é de 40 anos.
Cariani responde ao processo em liberdade. Ele foi indiciado pela Polícia Federal em dezembro de 2023 e tornou-se réu em fevereiro de 2024.
A acusação atribui a Fábio Spínola Mota a função de intermediar o fornecimento de substâncias químicas, estabelecendo a ligação entre a empresa e compradores envolvidos na produção de crack e cocaína.
Rodrigo Gomes Pereira, por sua vez, é apontado como responsável por movimentações financeiras destinadas a ocultar a origem ilícita dos recursos, incluindo depósitos em dinheiro e operações que, segundo o Ministério Público, buscavam conferir aparência de legalidade aos valores.
Apesar de pedir a condenação dos três, o Gaeco solicitou a absolvição de Roseli Dorth, sócia de Cariani na Anidrol, e Andréia Domingues Ferreira, por considerar insuficientes as provas para sustentar uma condenação.
Investigação começou após denúncia da AstraZeneca
As suspeitas sobre as operações da Anidrol começaram a ser investigadas em 2019, depois que a farmacêutica AstraZeneca comunicou ao Ministério Público a existência de notas fiscais emitidas em seu nome que não correspondiam a compras reconhecidas pela companhia.
Os documentos estavam relacionados a supostas movimentações de produtos químicos realizadas em 2017.
De acordo com os investigadores, a empresa de Cariani teria simulado 59 operações comerciais utilizando dados de companhias que não haviam solicitado os produtos. As transações fictícias serviriam para justificar a saída de substâncias posteriormente destinadas à produção de entorpecentes.
Um dos episódios destacados pela acusação ocorreu em 26 de fevereiro de 2018, quando Cariani teria autorizado a separação e retirada de 100 litros de éter etílico e 50 quilos de cloridrato de lidocaína, faturados em nome da AstraZeneca.
Segundo o Gaeco, o empresário também apresentou à Polícia Federal comprovantes de retirada contendo placas de veículos e documentos falsos.
Os promotores sustentam que a atuação do influenciador não se limitava às operações comerciais, incluindo iniciativas para dificultar a fiscalização e interferir em investigações anteriores.
A Operação Hinsberg, realizada em dezembro de 2023, teve como alvo um suposto esquema de desvio de substâncias químicas utilizadas na fabricação de drogas, especialmente cocaína e crack.
Cariani, que reúne mais de 11 milhões de seguidores no Instagram e cerca de 8 milhões no YouTube, tornou-se conhecido pela produção de conteúdo sobre musculação, alimentação e condicionamento físico. Nas redes sociais, apresenta-se como professor de química e educação física, atleta e empresário.
Defesa de Cariani nega acusações e prevê absolvição
Em nota encaminhada ao g1, o advogado Aldo Romani Netto, responsável pela defesa do influenciador, afirmou que o pedido de condenação apresentado pelo Ministério Público era esperado e que as acusações serão contestadas na fase de alegações finais defensivas.
“Como parte acusadora, o órgão sustentou a tese que vinha defendendo desde o início da ação penal, e o pedido não representa nenhuma surpresa. O processo se encontra agora em fase de alegações finais defensivas. Nela, a defesa irá responder a cada uma das teses apresentadas pelo Ministério Público e demonstrar, com base na prova produzida ao longo da instrução, que elas são improcedentes”, declarou o advogado.
Romani Netto também manifestou confiança de que a análise judicial das provas resultará na absolvição do empresário.
“Confiamos que o Poder Judiciário fará, ao final, um julgamento justo, pautado pela análise isenta da prova. Temos convicção de que esse julgamento conduzirá à absolvição de Renato Cariani”, afirmou.
https://www.brasil247.com/brasil/mensagens-revelam-atuacao-de-policial-para-barrar-investigacao-contra-renato-cariani-diz-mp/
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