O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a incorporar oficialmente o Teste Imunoquímico Fecal (FIT) como ferramenta de referência para o rastreamento do câncer colorretal, ampliando uma estratégia nacional voltada à identificação precoce da doença em pessoas que ainda não apresentam sintomas. A medida estabelece o uso do exame para homens e mulheres de 50 a 75 anos, dentro de uma estratégia organizada de prevenção e detecção precoce. O FIT procura pequenas quantidades de sangue nas fezes que podem estar relacionadas a lesões no intestino, inclusive pólipos que, se identificados e tratados antes de sua transformação, podem impedir o desenvolvimento do câncer. O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) vêm estruturando essa política desde 2023, e as novas diretrizes representam uma mudança importante na forma como o Brasil pretende enfrentar um dos cânceres mais frequentes no país.
A novidade anunciada nesta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, precisa ser compreendida dentro de um processo que começou antes da incorporação do exame. Em abril, o INCA abriu consulta pública para as primeiras Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do Câncer de Cólon e Reto, destacando que o câncer colorretal possui elevado potencial de controle por meio da prevenção e da detecção precoce.
A elaboração dessas diretrizes foi conduzida por equipes do INCA e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), com análise de evidências científicas nacionais e internacionais. O processo incluiu pesquisas em bases como MEDLINE/PubMed, Embase e Cochrane Library, além de avaliação da qualidade das evidências pelo sistema GRADE.
O resultado foi uma recomendação favorável ao uso do FIT como método para pesquisar sangue oculto nas fezes em adultos assintomáticos e de risco padrão. A documentação técnica da Conitec classifica essa recomendação como forte e baseada em evidência de alta certeza para a utilização do teste imunoquímico.
O que exatamente é o novo exame
O FIT é um exame realizado a partir de uma amostra de fezes. Seu objetivo não é visualizar diretamente um tumor, mas identificar pequenas quantidades de hemoglobina humana que podem estar presentes no material fecal.
Essa característica é importante porque determinados pólipos e tumores colorretais podem apresentar pequenos sangramentos que não são perceptíveis a olho nu. O teste consegue detectar esse sangue oculto e, quando o resultado é positivo, o paciente deve ser encaminhado para investigação diagnóstica, normalmente por meio de colonoscopia.
Portanto, existe uma diferença fundamental entre rastreamento e diagnóstico. Um FIT positivo não significa que a pessoa tenha câncer. Significa que foi encontrada uma alteração que precisa ser investigada.
Da mesma forma, um resultado negativo não significa que o indivíduo jamais desenvolverá câncer. O rastreamento funciona como uma estratégia periódica para aumentar as chances de identificar alterações em uma fase inicial.
Por que o Brasil decidiu ampliar o rastreamento
O câncer colorretal representa um problema crescente de saúde pública no país. Segundo o INCA, para 2025 eram estimados aproximadamente 21.970 novos casos entre homens e 23.660 entre mulheres, totalizando mais de 45 mil casos estimados.
O instituto também projeta um impacto extremamente elevado da doença nas próximas décadas. Uma estimativa publicada em março de 2026 aponta para 635.253 mortes por câncer colorretal entre 2001 e 2030, considerando o período observado e projetado, além de 12,6 milhões de anos potenciais de vida perdidos e cerca de US$ 22,6 bilhões em perdas de produtividade.
O problema não é exclusivamente brasileiro. O câncer colorretal está entre os cânceres mais comuns do mundo e figura entre as principais causas de morte por câncer. A Conitec destaca que, globalmente, ocorreram aproximadamente 904 mil mortes por câncer colorretal em 2022.
Antes: o rastreamento era menos organizado
Durante anos, o Brasil não contou com um programa nacional estruturado de rastreamento populacional do câncer colorretal comparável aos programas existentes para outros tipos de câncer.
O próprio INCA reconhecia a necessidade de desenvolver diretrizes nacionais para estabelecer quem deveria ser rastreado, com qual exame, em que idade e em qual intervalo.
Esse cenário começou a mudar com a criação, em 2023, de um Grupo de Trabalho destinado a fortalecer a prevenção, a detecção precoce e o tratamento do câncer de cólon e reto dentro do Ministério da Saúde.
A partir daí, o governo passou a estruturar uma política baseada em evidências científicas, buscando definir um modelo que pudesse ser aplicado em escala dentro da rede pública.
Agora: o SUS passa a ter uma referência nacional
O novo modelo estabelece o FIT como exame de referência para pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos. Essa faixa etária foi escolhida porque o risco de desenvolvimento do câncer colorretal aumenta significativamente com o envelhecimento.
O Ministério da Saúde explica que rastreamento significa realizar exames periódicos em pessoas que ainda não apresentam sintomas, mas pertencem a grupos nos quais o benefício da detecção antecipada é maior.
Essa característica muda completamente a lógica do atendimento.
Em vez de esperar que uma pessoa apresente sangue nas fezes, alteração persistente do funcionamento intestinal, perda inexplicada de peso, anemia ou outros sinais, o sistema procura alterações antes que elas provoquem sintomas perceptíveis.
Isso é particularmente importante porque o câncer colorretal pode permanecer silencioso durante uma fase considerável de sua evolução.
O grande benefício pode estar nos pólipos
Um dos aspectos mais importantes do rastreamento não é apenas descobrir um câncer em estágio inicial. É também identificar lesões precursoras.
Alguns pólipos encontrados durante a investigação podem apresentar alterações que aumentam o risco de transformação em câncer. Quando uma lesão pré-maligna é identificada durante uma colonoscopia e removida adequadamente, existe a possibilidade de interromper a sequência que levaria ao desenvolvimento do tumor.
Essa é uma das razões pelas quais os programas de rastreamento podem ter impacto sobre a mortalidade e também sobre a própria incidência da doença.
O objetivo deixa de ser apenas «encontrar câncer» e passa a ser impedir que alguns cânceres cheguem a existir.
Por que escolher o FIT
O teste imunoquímico apresenta algumas vantagens importantes em relação a métodos mais antigos de pesquisa de sangue oculto nas fezes.
O relatório da Conitec explica que os testes tradicionais baseados em guaiaco exigiam, por exemplo, coletas em três dias consecutivos e poderiam sofrer interferência de determinados alimentos. O FIT apresenta desempenho diagnóstico superior e é considerado mais adequado para programas modernos de rastreamento.
Além disso, o FIT pode ser utilizado de maneira relativamente simples na atenção à saúde, o que é fundamental para um país continental como o Brasil.
Um programa nacional não depende apenas de possuir uma tecnologia eficiente. É necessário que ela seja aceitável para a população, viável para os municípios e sustentável financeiramente.
O exame não substitui a colonoscopia
Um dos pontos que precisam ficar claros para evitar interpretações equivocadas é que o FIT não substitui a colonoscopia em todos os casos.
Quando o resultado do teste é positivo, o paciente precisa continuar a investigação. A colonoscopia permite observar diretamente o interior do intestino, identificar lesões e, em determinadas situações, retirar pólipos durante o próprio procedimento.
Isso significa que a implantação do FIT cria uma nova demanda sobre o sistema de saúde.
Quanto maior o número de pessoas rastreadas, maior também será a necessidade de garantir colonoscopias, profissionais especializados, equipamentos, laboratórios, transporte de amostras e acompanhamento dos pacientes com resultados alterados.
Essa é uma das maiores questões para a próxima etapa do programa.
O desafio não termina quando o teste chega ao SUS
A incorporação de um exame é apenas o primeiro passo.
Para que o rastreamento realmente reduza mortes, será necessário garantir que uma pessoa com FIT positivo consiga realizar rapidamente a colonoscopia e, caso seja identificada uma lesão suspeita, tenha acesso ao diagnóstico anatomopatológico e ao tratamento adequado.
Caso contrário, o sistema poderá identificar o risco, mas não conseguir completar a cadeia de cuidado.
As próprias diretrizes brasileiras tratam o rastreamento como parte de uma sequência que envolve detecção, confirmação diagnóstica, encaminhamento e tratamento.
É nesse ponto que a organização regional do SUS será decisiva.
O impacto econômico também pode ser enorme
O câncer colorretal não representa apenas um problema clínico. Ele também gera custos para famílias, empresas e para o sistema público.
Quando o diagnóstico ocorre em estágio avançado, o tratamento tende a ser mais complexo e pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, medicamentos de alto custo e longos períodos de acompanhamento.
Além dos gastos médicos, existe a perda de produtividade causada por afastamentos, incapacidades e mortes prematuras.
O estudo do INCA estimou que, entre 2001 e 2030, a doença estará associada a US$ 22,6 bilhões em perdas de produtividade no Brasil, mostrando que a prevenção pode ter impacto econômico além do setor de saúde.
O que muda para o cidadão
Para a população que está dentro da faixa definida pelo programa, a principal mudança é a possibilidade de participar de uma estratégia de rastreamento mesmo sem apresentar sintomas.
A orientação geral do Ministério da Saúde é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber informações sobre os critérios e a disponibilidade do rastreamento na rede local.
É importante, entretanto, não esperar pelo rastreamento quando existem sintomas suspeitos. Pessoas com sinais como sangue nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, dor abdominal recorrente, anemia sem causa definida ou perda de peso inexplicada precisam procurar avaliação médica, independentemente da idade ou do programa de rastreamento.
Rastreamento é destinado principalmente a pessoas aparentemente saudáveis. Investigação de sintomas é outra situação clínica.
Depois: o Brasil terá de transformar o exame em programa efetivo
O próximo capítulo será provavelmente mais difícil do que a incorporação tecnológica.
O Brasil terá de ampliar a capacidade dos municípios para realizar o exame, organizar o fluxo das amostras, localizar pessoas que precisam ser rastreadas, acompanhar resultados positivos e aumentar a oferta de colonoscopias.
Também será necessário enfrentar um problema histórico: a desigualdade regional no acesso à saúde.
Um teste simples pode chegar rapidamente a uma unidade básica de saúde, mas isso não garante que o paciente consiga realizar uma colonoscopia em tempo adequado. A efetividade do programa dependerá justamente da capacidade de conectar a atenção primária aos serviços especializados.
O desafio será ainda maior em regiões distantes dos grandes centros, onde a disponibilidade de especialistas e equipamentos é menor.
Uma mudança que pode alterar a história do câncer de intestino no Brasil
A incorporação do FIT representa, portanto, algo maior do que a inclusão de mais um procedimento na tabela do SUS.
Ela marca a tentativa de transformar o combate ao câncer colorretal de um modelo predominantemente baseado na procura de atendimento depois do aparecimento de sintomas para uma estratégia de prevenção e detecção antecipada em escala populacional.
O Brasil já possui experiência com programas organizados de rastreamento para outros tipos de câncer e, em 2026, também vem ampliando o uso de tecnologias mais avançadas na detecção precoce. O próprio Ministério da Saúde destaca, por exemplo, a utilização do DNA-HPV como teste primário no rastreamento do câncer do colo do útero.
No caso do câncer colorretal, o FIT pode cumprir uma função semelhante: colocar a detecção precoce mais perto da população e reduzir a dependência de diagnósticos realizados somente quando a doença já provocou sintomas.
O antes era marcado pela ausência de uma estratégia nacional organizada para o rastreamento do câncer de intestino. O agora é a incorporação do FIT para a população de 50 a 75 anos. O depois dependerá de algo mais complexo: garantir que cada resultado positivo seja transformado rapidamente em diagnóstico e tratamento.
Se essa cadeia funcionar, o SUS poderá não apenas descobrir mais tumores precocemente, mas também evitar que algumas lesões evoluam para câncer, reduzir tratamentos em estágios avançados, diminuir mortes e aliviar parte do impacto econômico provocado pela doença.
O verdadeiro resultado dessa política, portanto, não será medido pelo número de testes realizados, mas por quantas vidas poderão ser preservadas porque uma alteração foi encontrada antes de se transformar em uma doença potencialmente fatal.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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