
O Brasil abriu as inscrições para a 19ª edição do Prêmio MERCOSUL de Ciência, Tecnologia e Inovação, uma das principais iniciativas científicas voltadas à integração dos países do bloco, com prazo até 31 de agosto de 2026. A edição deste ano tem como tema “Descarbonização e Transição Energética para um Mundo mais Sustentável” e procura reconhecer pesquisas capazes de responder a alguns dos maiores desafios tecnológicos, ambientais e econômicos da próxima década. A premiação contempla estudantes do ensino médio e técnico, universitários, jovens pesquisadores, pesquisadores seniores e equipes internacionais, com valores que chegam a R$ 60 mil na categoria Integração. Mais do que uma competição acadêmica, o prêmio procura transformar a ciência em instrumento de cooperação regional, aproximando universidades, centros de pesquisa e pesquisadores dos países membros e associados do MERCOSUL.
A iniciativa é promovida pela Reunião Especializada de Ciência e Tecnologia do MERCOSUL (RECyT), em conjunto com os organismos nacionais de ciência e tecnologia dos países do bloco e associados. No Brasil, a organização está sob responsabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O prêmio existe desde 1998, quando foi criado com a intenção de reconhecer pesquisas capazes de contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico regional e, simultaneamente, fortalecer a integração entre os países.
A escolha do tema de 2026 não é casual. A transição energética está modificando profundamente a economia mundial, desde a produção de eletricidade até o transporte, a indústria, a mineração e a agricultura. Para o MERCOSUL, a questão ganha dimensão estratégica porque a região possui importantes recursos naturais e uma participação relevante de fontes renováveis, além de cadeias produtivas que podem se beneficiar da expansão de tecnologias de baixo carbono.
O próprio edital brasileiro define a transição energética como uma transformação profunda na maneira de produzir, distribuir e consumir energia. Para o bloco, isso representa não apenas um desafio ambiental, mas também uma oportunidade para criar novos setores industriais, desenvolver tecnologias próprias, gerar empregos qualificados e reduzir a dependência de tecnologias importadas.
Cinco áreas estratégicas para a nova economia energética
Os trabalhos inscritos deverão abordar, direta ou indiretamente, pelo menos uma das cinco linhas de pesquisa estabelecidas pelo edital.
A primeira é energias renováveis e eficiência energética, área que inclui soluções para geração de eletricidade de baixa emissão de carbono, sistemas híbridos e tecnologias capazes de reduzir desperdícios e melhorar o aproveitamento energético. A proposta contempla diferentes fontes renováveis e procura estimular uma matriz energética mais diversificada e eficiente.
A segunda linha envolve combustíveis sustentáveis e descarbonização dos transportes. Nesse campo entram biocombustíveis como etanol, biodiesel e biometano, além do bioquerosene de aviação, conhecido como SAF, e combustíveis sustentáveis destinados ao transporte marítimo. O edital também considera o aproveitamento energético de resíduos agroindustriais, urbanos e industriais.
A terceira área é o hidrogênio de baixa emissão de carbono, considerado estratégico para setores industriais nos quais a eletrificação direta pode ser mais difícil. As pesquisas podem envolver produção, armazenamento, transporte e utilização do hidrogênio e de seus derivados.
A quarta linha está relacionada ao armazenamento de energia e à modernização dos sistemas energéticos. O desafio é fundamental porque a expansão das energias solar e eólica exige tecnologias capazes de armazenar eletricidade e equilibrar períodos de maior e menor produção.
A quinta envolve minerais e materiais críticos e estratégicos. O edital inclui tecnologias para transformação, aplicação, reciclagem e circularidade de materiais utilizados em cadeias associadas à transição energética, incluindo baterias, ímãs permanentes e tecnologias de baixo carbono. O objetivo é também fortalecer a autonomia produtiva e agregar valor dentro da região.
Quem pode participar
O prêmio foi estruturado para alcançar diferentes etapas da carreira científica.
Na categoria Iniciação Científica, podem participar estudantes do ensino médio e técnico, inclusive da Educação de Jovens e Adultos, matriculados em instituições públicas ou privadas e com menos de 25 anos até o encerramento das inscrições. As equipes podem ter até cinco integrantes de países membros ou associados do MERCOSUL.
A categoria Estudante Universitário é destinada a alunos de graduação, sem limite de idade. Já a categoria Jovem Pesquisador contempla graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores com até 35 anos.
Na categoria Pesquisador Sênior, podem concorrer profissionais com 36 anos ou mais, enquanto a categoria Integração é especialmente voltada para equipes internacionais e exige a participação de pelo menos dois integrantes de diferentes países membros ou associados do MERCOSUL, podendo chegar a dez participantes.
Essa última categoria possui uma importância particular para a integração regional. Não basta que a pesquisa seja cientificamente relevante: a composição internacional da equipe transforma a própria cooperação entre pesquisadores em parte do objeto de avaliação.
Quanto os vencedores receberão
A premiação também foi estruturada de maneira escalonada.
O vencedor de Iniciação Científica receberá R$ 20 mil. Na categoria Estudante Universitário, o valor sobe para R$ 30 mil. O vencedor de Jovem Pesquisador receberá R$ 40 mil, enquanto o Pesquisador Sênior será premiado com R$ 50 mil.
O maior prêmio individual é destinado à categoria Integração, com R$ 60 mil. Em trabalhos realizados por equipes, o valor é entregue ao autor principal. Além da premiação financeira, os trabalhos vencedores podem receber certificados e ser publicados em livro.
O sistema de avaliação também demonstra que o prêmio não pretende reconhecer somente pesquisas teoricamente sofisticadas. Entre os critérios estão mérito científico, impacto social e ambiental, pertinência para o MERCOSUL, originalidade, inovação e aplicação prática. Na categoria Integração, existe ainda um critério específico de cooperação entre os países no campo da ciência e tecnologia.
A ciência como ferramenta de integração regional
O aspecto mais importante do prêmio talvez esteja justamente fora da premiação financeira.
Desde sua criação, a iniciativa procura fazer com que a produção científica seja incorporada ao processo de integração regional. Em vez de universidades e centros de pesquisa trabalharem isoladamente dentro das fronteiras nacionais, o programa estimula projetos capazes de envolver pesquisadores de diferentes países e responder a problemas comuns.
Isso ganha relevância diante da transformação tecnológica provocada pela transição energética. Nenhum país sul-americano domina sozinho todas as tecnologias necessárias para a nova economia de baixo carbono. Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e os demais países associados possuem recursos, capacidades científicas e estruturas industriais diferentes, o que cria espaço para complementaridade.
Um país pode possuir matéria-prima estratégica, outro pode apresentar capacidade industrial, enquanto um terceiro dispõe de universidades especializadas ou infraestrutura de pesquisa. A cooperação pode transformar essas diferenças em uma cadeia regional de inovação.
É justamente esse modelo que a categoria Integração procura incentivar.
O MERCOSUL diante de uma mudança industrial mundial
A escolha de descarbonização e transição energética também ocorre em um momento em que a economia internacional está direcionando grandes investimentos para tecnologias verdes.
Baterias, veículos elétricos, hidrogênio, biocombustíveis, armazenamento de energia, energia solar, energia eólica e materiais críticos deixaram de ser apenas temas ambientais e passaram a fazer parte das estratégias industriais de grandes potências.
China, Estados Unidos e União Europeia estão disputando posições em cadeias tecnológicas que deverão ganhar importância nas próximas décadas. Para o MERCOSUL, participar dessa transformação significa evitar que a região permaneça apenas como fornecedora de matérias-primas enquanto tecnologias de maior valor agregado são desenvolvidas em outros mercados.
Nesse cenário, pesquisas sobre minerais críticos, biocombustíveis, hidrogênio e armazenamento energético podem ter impacto muito além do ambiente universitário. Elas podem determinar quais setores industriais terão condições de competir internacionalmente no futuro.
Brasil possui uma posição particularmente estratégica
O Brasil chega a essa discussão com uma vantagem importante: sua matriz energética possui participação significativa de fontes renováveis e o país possui experiência acumulada em hidrelétricas, biocombustíveis e etanol, além do crescimento acelerado das energias solar e eólica.
Essa experiência pode servir de plataforma para novas tecnologias. O desafio, entretanto, é transformar vantagens naturais em capacidade tecnológica e industrial.
Produzir energia renovável não é suficiente. O próximo estágio consiste em dominar equipamentos, sistemas de armazenamento, componentes, materiais, software, processos industriais e conhecimento científico associados a essa produção.
É nessa transição entre recurso natural e tecnologia de alto valor agregado que programas como o Prêmio MERCOSUL podem desempenhar um papel estratégico.
Antes, agora e depois
Antes, o prêmio estava principalmente associado à valorização da produção científica e tecnológica e à aproximação entre pesquisadores do MERCOSUL. Ao longo de suas edições, consolidou-se como uma iniciativa regional criada para reconhecer trabalhos com potencial de contribuir para o desenvolvimento científico e para a integração.
Agora, a edição de 2026 desloca o foco para uma questão que atravessará praticamente todos os setores econômicos nas próximas décadas: como produzir e utilizar energia com menor emissão de carbono sem comprometer crescimento econômico, segurança energética e desenvolvimento industrial.
Depois, os resultados das pesquisas premiadas poderão ajudar a formar uma nova geração de cientistas e tecnologias voltadas para problemas concretos da região. O impacto, portanto, não será medido apenas pelo número de trabalhos inscritos ou pelos valores distribuídos, mas pela capacidade de transformar conhecimento científico em soluções, empresas, tecnologias, políticas públicas e cooperação internacional.
Inscrições terminam em agosto
As inscrições para a 19ª edição do Prêmio MERCOSUL de Ciência, Tecnologia e Inovação permanecem abertas até 31 de agosto de 2026, às 23h59, no horário de Brasília. A inscrição deve ser feita exclusivamente pela plataforma indicada no edital.
Os candidatos precisam apresentar, entre outros documentos, Currículo Lattes atualizado em 2026, documento de identidade ou passaporte e, conforme a categoria, comprovação de vínculo institucional. O trabalho deve conter resumo, introdução, justificativa, objetivos, metodologia, resultados, conclusões e referências.
O edital prevê trabalhos de até 25 páginas para as categorias Iniciação Científica e Estudante Universitário e até 30 páginas para Jovem Pesquisador, Pesquisador Sênior e Integração. O resultado preliminar está previsto para outubro de 2026, enquanto o resultado final deverá ser divulgado em novembro.
Para o MERCOSUL, a iniciativa representa uma aposta que vai além de premiar pesquisadores. Em um período no qual energia, tecnologia, minerais estratégicos e descarbonização estão se tornando elementos centrais da competição econômica mundial, aproximar a ciência dos países do bloco pode ser uma das ferramentas mais importantes para transformar a integração regional em capacidade tecnológica própria.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
- ★BRASIL: Corea del Sur busca en Brasil alimentos, minerales críticos y tecnología para construir una nueva alianza estratégica con el Mercosur
- ★ESPAÑA: Pontevedra convierte la miel en protagonista de su verano y reivindica el futuro de la apicultura gallega
- ★URUGUAY: El novillo se acerca a los US$ 6 por kilo y Uruguay vuelve a liderar el mercado ganadero del Mercosur
- ★COLOMBIA: Peña y De la Espriella abren la puerta a un mayor acercamiento de Colombia al MERCOSUR y buscan fortalecer la integración regional
- ★URUGUAY: Uruguay XXI lanza un portal para que las empresas aprovechen las nuevas oportunidades del acuerdo Mercosur-Unión Europea

