
Às 4h57 da manhã, o motorista já aguardava na porta do hostel em Yerevan. Pontualidade soviética. Sem falar uma única palavra de inglês, comunicamo-nos por acenos e sorrisos prestativos. Apaguei no banco do passageiro e acordei perto das 6h30 quando o carro estacionou às margens do Lago Kari (Kari Lich), a cerca de 3.200 metros de altitude. É ali, ao lado de um antigo centro de pesquisa de raios cósmicos, que a estrada termina e a caminhada para o maciço do Monte Aragats começa.
O sol ainda não despontara no horizonte, mas o vento polar e o frio cortante não deram trégua: bastou abrir a porta do carro para sentir o impacto. Vesti todas as camadas — bota semirrígida nos pés, calça de trekking sob uma calça impermeável pesada corta-vento, segunda pele térmica, fleece, casaco de pluma e um anorak grosso selando o corpo. Gorro na cabeça, lanterna frontal acesa e cabeça baixa contra as rajadas que quase impediam de olhar para a frente.
O Aragats é um estratovulcão extinto cuja caldeira colapsada formou quatro cumes principais distribuídos ao redor de uma imensa cratera central: o Cume Sul (3.879 m), o Cume Leste (3.916 m), o Cume Oeste (4.001 m) e o imponente Cume Norte (4.090 m), ponto culminante da Armênia.
Todos os relatos, mapas e vídeos que estudei mostravam uma montanha árida, de cascalho vulcânico escuro e trilha seca e evidente. Encontrei um cenário completamente transformado: um manto de neve espesso, fofo e sem trilha aparente, cobrindo todo o terreno.
Encontrei pegadas recentes na neve e passei a segui-las, mas logo percebi que a rota desviava do traçado original do GPS. Quando me dei conta, estava subindo o colo ao lado do Cume Sul. Com a neve funda e o vento canalizado açoitador, tirar as luvas para checar o celular ou operar a navegação significava congelar os dedos em segundos.
Cheguei à borda da cratera e deparei-me com uma descida abrupta: um declive íngreme que mergulhava no centro da caldeira para depois cruzar em direção ao Cume Norte. Desci abrindo passos na neve virgem que, em muitos trechos, batia no meio das coxas.
Quando cheguei ao fundo da caldeira, o relevo finalmente serviu de escudo contra a ventania. Ali, abrigado e sob sol aberto, calcei os crampons com tranquilidade e sem congelar as mãos. No entanto, o relógio disparou o primeiro alarme: eram quase 11h da manhã. O plano inicial previa alcançar o cume nesse horário. Eu precisava estar de volta ao carro às 15h para conseguir pegar o trem noturno internacional para a Geórgia.
A angústia tomou conta. Se eu voltasse dali, perderia a montanha. Se continuasse, arriscaria deixar o motorista esperando horas no frio ou perder o trem das 21h em Yerevan. Para complicar, a água do cantil acabou. Quando a desistência parecia a única escolha racional, cruzei um pequeno degelo. Abasteci o cantil — a água tinha um gosto metálico horrível de minerais vulcânicos, mas era hidratação vital.
Logo adiante, avistei vultos distantes na encosta. Eram seis montanhistas da República Tcheca. Alcançar as pegadas compactadas abertas por eles no trecho final poupou uma energia crucial, já que quebrar neve sozinho o tempo todo vinha drenando minhas pernas.
No colo que antecede a crista final, o celular captou um lampejo de sinal de rede. Mandei imediatamente uma mensagem ao motorista pedindo para adiar o resgate das 15h para as 16h30. Ele respondeu com um providencial «OK».
Apertei o passo e alcancei o cume falso norte às 13h. O cume verdadeiro do Aragats erguia-se a cerca de dez metros a mais de desnível, acessível apenas por uma crista técnica de blocos de rocha e trepa-pedra coberta de neve inconsistente. Com o cronômetro rodando e a janela de resgate esticada no limite, tomei a decisão da experiência: dei a ascensão por cumprida ali mesmo e iniciei a descida imediata.
Corrida desesperada contra o relógio
Descer rápido no terreno vulcânico coberto de neve traiçoeira é um exercício de foco absoluto. Embaixo da camada branca escondiam-se lajes e blocos de basalto soltos. Se você tira os crampons, escorrega no gelo; se mantém os crampons, as pontas de aço raspam e torcem nas rochas ocultas. Troquei de equipamento duas vezes até acertar o ritmo de marcha em diagonal cortando a vertente de volta ao lago.
Às 16h30, o cansaço cobrava a fatura. Cheguei às proximidades do estacionamento e avistei um carro branco isolado. Apertei o passo: não era o meu motorista. Olhei ao redor e o estacionamento principal parecia vazio. O sinal de celular havia sumido de novo. Bateu o desespero: se o motorista tivesse cansado de esperar e descido a montanha, eu ficaria isolado a mais de 3.000 metros de altitude, sem transporte, sem sinal e com o trem internacional para a Geórgia partindo em poucas horas.
Contornei a curva final perto das instalações científicas do Lago Kari e, para meu imenso alívio, lá estava ele, pacientemente estacionado me aguardando.
Entrei no carro e desmaiei de exaustão. Só acordei preso no congestionamento caótico de domingo à tarde no centro de Yerevan. Eram 18h15 quando entrei esbaforido na recepção do hostel.
O que se seguiu foi uma operação logística de precisão:
Resgatar a cargueira no depósito e tomar um banho fervente de 15 minutos para tirar o estresse e o gelo do corpo. Fechar a mochila completa às 19h em ponto. Alugar um patinete elétrico na calçada do hostel, pilotar com a mochila pesada até uma lanchonete rápida perto da estação de metrô e devorar um lanche em minutos. Entrar no metrô subterrâneo e desembarcar na Estação Ferroviária Central de Yerevan pontualmente às 20h. Com uma hora de folga antes da partida, caminhei com calma pela plataforma fria até encontrar meu vagão. O trem noturno para Tbilisi — uma composição de ferro clássica da era soviética, pesada, austera e surpreendentemente confortável — já estava com os motores ligados.
Cumpri a missão na Armênia: explorei a densa história de Yerevan, encarei o Aragats em condições duras de inverno antecipado e cheguei a tempo na estação. O apito soou, os vagões sacudiram sobre os trilhos e a viagem rumo à Geórgia começou. É lá que o grande desafio desta expedição me espera: o gigante vulcânico do Monte Kazbek.
ESPECIAL PAÍSES DO CÁUCASO:
::Conexões caóticas, bota de montanha em Roma e a chegada à Armênia ::Da foice e martelo ao primeiro reino cristão do mundo ::A escalada do Monte Aragats ::Fronteiras tensas, o trem da Geórgia e os pés do Kazbek ::Vento branco, fendas e o cume do Kazbek ::Das vinícolas milenares ao museu intocado de Stalin ::Da desistência do Ararat ao museu soviético vivo da Transnístria
https://turismo.ig.com.br/colunas/pedro-hauck/2026-11-02/a-escalada-do-monte-aragats.html
ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
Prensa Mercosur es un diario online de iniciativa privada que fue fundado en 2001, donde nuestro principal objetivos es trabajar y apoyar a órganos públicos y privados.
- ★El fútbol tiene estas cosas
- ★La compra y venta de artículos usados en redes mueve millones de dólares
- ★Veda pesquera empieza con restricciones de pesca hasta enero de 2027
- ★Villalba cuestiona a Prieto y propone un proyecto país antes de definir candidatos
- ★Experto cuestiona tarifas para datacenters y advierte sobre su bajo impacto laboral



















