
Hoje, 2 de novembro, o México vive uma das manifestações culturais mais conhecidas e simbólicas do país. O Día de Muertos (O Dia dos Mortos) transforma ruas, praças, casas e cemitérios com flores, velas, altares, música, gastronomia e imagens de caveiras que se tornaram reconhecidas em praticamente todo o mundo. Para quem observa de fora, principalmente pela primeira vez, pode parecer contraditório encontrar tantas cores e celebrações em uma data relacionada à morte. É justamente nessa aparente contradição, porém, que está uma das características mais fascinantes da tradição mexicana: a morte não deixa de representar perda e saudade, mas aqueles que partiram são lembrados pela vida que tiveram, pelas histórias que deixaram e pela memória que continua presente dentro de suas famílias. Em 2026, mais uma vez, essa tradição também se transformou em um grande acontecimento turístico, com uma extensa programação cultural em diferentes regiões do país e milhares de visitantes viajando ao México justamente para acompanhar as celebrações.
Uma tradição secular que ganhou as ruas Embora o mundo normalmente associe o Día de Muertos aos dias 1º e 2 de novembro, a celebração é muito mais ampla e apresenta características diferentes de acordo com cada região e comunidade. Suas origens estão relacionadas às tradições de povos indígenas que habitavam o atual território mexicano antes da colonização espanhola e que já mantinham rituais dedicados aos mortos e aos antepassados. Com a chegada dos espanhóis e a expansão do catolicismo, essas práticas foram se misturando às celebrações cristãs do Dia de Todos os Santos e do Dia dos Fiéis Defuntos. Ao longo dos séculos, dessa combinação nasceu uma manifestação cultural tão particular que as festas indígenas dedicadas aos mortos foram reconhecidas pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Tradicionalmente, o dia 1º de novembro está especialmente associado à memória das crianças falecidas, enquanto o dia 2 é dedicado principalmente aos adultos, embora os costumes e até mesmo as datas possam variar de acordo com a comunidade.
Um dos elementos centrais são as chamadas «ofrendas», altares preparados pelas famílias para receber simbolicamente aqueles que morreram. Neles são colocadas fotografias dos familiares, velas, água, objetos pessoais, bebidas e alimentos de que aquela pessoa gostava, além do tradicional pan de muerto. A flor de cempasúchil, de tonalidade amarela ou alaranjada intensa, também ocupa um lugar fundamental na celebração e toma conta de casas, praças e cemitérios. Segundo a tradição, a cor e principalmente o aroma da flor ajudam a orientar o caminho das almas de volta ao encontro de suas famílias. Por isso, aquilo que muitas vezes aparece aos olhos do turista apenas como uma decoração extremamente bonita possui, na realidade, uma simbologia muito mais profunda, ligada à ancestralidade, à memória e à permanência daqueles que já morreram na história das famílias.
A Catrina gigante que entrou para o Guinness As celebrações de 2026 também chamaram atenção por sua grandiosidade. Entre os destaques deste ano esteve uma Catrina monumental que alcançou 33,4 metros de altura, dimensão equivalente aproximadamente à de um edifício de 11 andares. A estrutura conquistou o reconhecimento do Guinness World Records como a Catrina de cartonería mais alta do mundo, superando uma marca anterior estabelecida em Puerto Vallarta, onde uma Catrina de 28,15 metros havia sido construída em 2023. Mais do que uma curiosidade ou uma tentativa de quebrar um recorde, a dimensão da obra mostra o espaço que essa personagem conquistou dentro da identidade visual mexicana e também na divulgação internacional do Día de Muertos.
A Catrina que hoje aparece em fantasias, pinturas, esculturas e maquiagens possui uma história que vai muito além das comemorações de novembro. Sua origem está ligada à «Calavera Garbancera«, criada pelo ilustrador mexicano José Guadalupe Posada no início do século XX como uma crítica social. A imagem da caveira elegantemente vestida ganhou posteriormente ainda mais projeção com Diego Rivera, que a representou em seu famoso mural «Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central«. Ao longo das décadas, a personagem foi incorporada ao imaginário popular e acabou se tornando um dos grandes símbolos do México, principalmente durante as celebrações do Día de Muertos. Hoje, é praticamente impossível acompanhar as grandes festividades sem encontrar dezenas, centenas ou milhares de pessoas caracterizadas como Catrinas.
O Día de Muertos também se tornou um grande acontecimento turístico A dimensão alcançada pela celebração também transformou o período em uma importante temporada para o turismo mexicano. Na Cidade do México, o calendário relacionado ao Día de Muertos se estende por vários dias e inclui desfiles, exposições, altares monumentais, intervenções artísticas, apresentações musicais e uma série de atividades espalhadas pela capital. O Gran Desfile de Día de Muertos se tornou um dos momentos mais aguardados, levando enormes estruturas, carros alegóricos, Catrinas, bailarinos e artistas para algumas das avenidas mais conhecidas da cidade. O espetáculo atrai moradores e turistas e ajuda a explicar por que cada vez mais estrangeiros escolhem viajar ao México justamente entre o fim de outubro e o início de novembro.
Essa transformação em atração internacional, entretanto, exige uma distinção importante. O Día de Muertos apresentado nos grandes desfiles da Cidade do México é apenas uma das muitas formas de vivenciar a tradição. Em diferentes estados e pequenas comunidades, as celebrações continuam profundamente ligadas às famílias, aos cemitérios e aos costumes transmitidos entre gerações. Há lugares em que parentes permanecem durante horas junto aos túmulos, cercados por flores e velas, levando alimentos e recordando histórias de quem morreu. Para o turista, participar desse período pode proporcionar uma das experiências culturais mais interessantes de uma viagem ao México, mas é fundamental compreender que, antes de ser um espetáculo para fotografias ou vídeos, trata-se de uma tradição íntima e familiar. Respeitar os espaços, as cerimônias e as pessoas é tão importante quanto conhecer a história por trás delas.
Não, o Día de Muertos não é o «Halloween mexicano» Outro equívoco frequente é apresentar o Día de Muertos como uma espécie de versão mexicana do Halloween. Apesar da proximidade das datas e da presença de elementos que podem parecer semelhantes para quem observa de fora, são tradições de origens e significados distintos. No México, as caveiras, as flores, os altares e os alimentos estão diretamente relacionados à memória dos antepassados e à ideia simbólica de reencontro entre vivos e mortos. A própria aparência festiva da celebração não deve ser interpretada como uma banalização da morte. Existe dor, existe saudade e existe luto, mas existe também uma compreensão cultural de que recordar a vida de alguém pode ser uma maneira de mantê-lo presente. É justamente por isso que o Día de Muertos consegue ser, ao mesmo tempo, profundamente emotivo e visualmente exuberante.
Viajar também é descobrir que o mundo não pensa como nós E talvez seja exatamente nesse ponto que o Día de Muertos ultrapasse a condição de atração turística e represente algo ainda mais interessante para quem viaja. Conhecer outro país não deveria significar apenas visitar monumentos famosos, experimentar comidas diferentes, fazer fotografias ou acrescentar mais um destino à lista. Uma das maiores riquezas do turismo está justamente em entrar em contato com sociedades que enxergam de maneira completamente diferente situações que muitas vezes consideramos universais. A relação com a morte é uma delas. Para grande parte de nós, especialmente no Brasil, o dia dedicado àqueles que morreram costuma estar relacionado ao silêncio, ao recolhimento, às flores deixadas nos cemitérios e à tristeza provocada pela ausência. No México, o viajante pode encontrar diante do mesmo sentimento de saudade uma manifestação marcada também pela música, pelas cores, pela comida e pela celebração da memória.
Isso não significa afirmar que os mexicanos enxerguem a morte como algo simplesmente feliz, porque seria reduzir uma tradição extremamente complexa. O que impressiona é perceber que uma cultura pode encontrar outras formas de lidar com a perda e, principalmente, de preservar a presença simbólica daqueles que partiram. É justamente esse choque de perspectivas que considero uma das experiências mais valiosas proporcionadas pelo turismo. Viajar é chegar a outro país e perceber que aquilo que aprendemos durante toda a vida como sendo a maneira «normal» de enxergar alguma coisa é, muitas vezes, apenas a maneira como a nossa própria cultura nos ensinou a enxergá-la.
Talvez por isso o Día de Muertos seja muito mais do que uma época bonita para conhecer o México. Entre uma Catrina de mais de 30 metros, milhares de flores de cempasúchil, altares preparados cuidadosamente pelas famílias e multidões que ocupam as ruas, existe uma reflexão que dificilmente cabe em uma fotografia. Viajar também é se permitir olhar para a cultura do outro e voltar para casa enxergando a própria vida de uma maneira diferente. No México, durante o Día de Muertos, o turista encontra uma sociedade que transforma a saudade em memória, a ausência em presença simbólica e a lembrança daqueles que morreram em uma celebração daqueles que viveram. E talvez seja justamente essa a maior riqueza de uma viagem: descobrir que existem inúmeras maneiras de enxergar o mundo, inclusive quando estamos falando sobre algo tão inevitável quanto a morte.
https://turismo.ig.com.br/colunas/vitor-vianna/2026-11-02/dia-dos-mortos-leva-multidao-as-ruas-e-mexico.html
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