
Bandos bolsonaristas deixaram mortos e feridos em ataques contra apoiadores de Luiz Inácio (PT), na reta final e após o segundo turno de 25 de outubro. O balanço apresentado pelo velho Estado brasileiro em 28 de outubro reúne 45 episódios de violência política, com 47 vítimas e dez mortos, três deles indígenas. Os assassinatos, atropelamentos e espancamentos mostram que a derrota de Flávio “Rachadinha” Bolsonaro (PL-RJ) não encerrou a ofensiva da extrema direita, que seguirá gerando distúrbios para desestabilizar o País.
As investidas sucedem uma campanha de intimidação contra estudantes, trabalhadores e ativistas de esquerda, com participação de parlamentares e integrantes de seus gabinetes. Depois das urnas, prosseguiram nas ruas, nos locais de trabalho e nas aldeias. Enquanto seus bandos atacam, Flávio fugiu para o país Estados Unidos (EUA) e anunciou, já em Miami, que prepara uma estratégia para mobilizar a oposição a partir do exterior.

Mortes, tiros e espancamentos contra eleitores
Em Mangueirinha (PR), Eliseu Pedrozo dos Santos, de 38 anos, morreu em 26 de outubro, após ser atropelado durante as comemorações da noite anterior. O motorista, embriagado, furou um bloqueio policial e atingiu quatro pessoas. Eliseu sofreu traumatismo craniano, foi socorrido, mas não resistiu. O caso é investigado como homicídio.
Em Santos (SP), o engenheiro ambiental e mestrando da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, morreu no dia 26, após ser cercado e espancado por um grupo quando saía de uma atividade cultural de esquerda. Os agressores transmitiram o ataque ao vivo no TikTok. Um adulto foi preso em 27 de outubro e dois adolescentes foram apreendidos no dia seguinte; a polícia identificou sete suspeitos. O registro de latrocínio não dispensa a apuração da motivação política cobrada pelas entidades estudantis, diante do contexto do ataque e da escolha de um participante de uma atividade da esquerda como alvo.
Em Campo Grande (MS), bolsonaristas concentrados nos Altos da avenida Afonso Pena atacaram um carro que passava com bandeiras do PT. O vídeo mostra um homem golpeando o para-brisa com um pedaço de madeira. Quando o motorista e uma passageira desceram, foram agredidos pelo grupo. Um homem contornou o veículo e golpeou o condutor pelas costas, derrubando-o no asfalto; a passageira também foi chutada. Uma viatura aparece logo atrás da agressão.
Em Florianópolis (SC), Marcelo Ribeiro Delgado Júnior teve o braço fraturado e ferimentos no rosto após ser atingido por garrafadas na noite de 25 de outubro. O boletim de ocorrência aponta Gustavo Schiphorst, assessor de Jair Renan Bolsonaro (PL) em Balneário Camboriú, seus pais e um amigo como participantes do espancamento. Segundo a esposa da vítima, garrafas foram lançadas contra a casa da família, quase atingindo um dos filhos. Ela também foi agredida ao tentar intervir. A Justiça concedeu medidas protetivas, e a Polícia Civil abriu inquérito. Jair Renan procurou reduzir o episódio a um “conflito familiar”.
Em Guaraçaí (SP), o comerciário João Guilherme da Silva Ribeiro, de 20 anos, foi hostilizado com ofensas homofóbicas e atacado pelas costas por um grupo com camisas da Seleção, na praça central, enquanto comemorava o resultado. Recebeu socos, chutes e golpes de objeto cortante na cabeça, precisou levar quatro pontos e ficou internado. A vítima relata que os agressores combinaram o ataque por um aplicativo de mensagens.
Em Nova Lima (MG), apoiadores de Flávio ameaçaram um homem que comemorava com a família no bairro Vila da Serra. A gravação registra os xingamentos no elevador do condomínio. Segundo o boletim de ocorrência, os vizinhos também forçaram a porta de seu apartamento com socos e chutes e disseram que o agrediriam. Uma das mulheres, com camisa da Seleção e adesivos de Flávio, perguntou o que ele fazia numa “cidade capitalista”.

Os ataques atingiram também famílias em veículos e pessoas identificadas pela roupa ou por um gesto. Em Porto Velho (RO), o carro de Douglas Fogaça, ocupado por sua esposa e dois filhos pequenos, foi atingido por sete disparos. Em Rio Branco (AC), o veículo de Jocicleia Alves foi cercado por um bando que lançou fogos contra as ocupantes. Em Goiânia (GO), um pastor foi derrubado e chutado no rosto por usar uma camiseta vermelha.
Em Maceió (AL), um jovem de 27 anos sofreu um golpe de facão nas costas ao questionar ameaças contra moradores que comemoravam a reeleição. Em Jaru (RO), bombas caseiras lançadas contra um imóvel feriram duas crianças. Em General Carneiro (MT), o vereador e bombeiro militar da reserva Marcos Aurélio Bento Pena (MDB) atirou da janela de sua casa contra frequentadores de uma lanchonete, deixando um ferido antes de ser preso.
Em Balneário Camboriú, apoiadores de Luiz Inácio foram espancados num restaurante e alvo de ofensas xenófobas. No Terminal Tietê, em São Paulo, uma mulher foi ferida na mão por uma faca ao defender a companheira de um homem que gritava o número do candidato do PL. No Guará II, em Brasília, o ator Rafael Salmona, de 36 anos, foi surpreendido pelas costas e atingido com um soco no rosto depois de fazer um “L” para uma amiga, após votar.

Nas aldeias, a ofensiva já vinha da campanha
Em Mato Grosso do Sul, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) denunciou assassinatos em Naviraí e atropelamentos em Coronel Sapucaia. Em Tacuru, dois servidores municipais participaram de uma conversa na qual um deles propôs envenenar a água da aldeia Sassoró. O prefeito Rogério Torquetti (PSDB), apoiador de Flávio, tentou desculpar os funcionários com um “mal-entendido”; depois da repercussão, anunciou o afastamento de um deles. Os áudios e as denúncias realizadas por indígenas expõem a participação de agentes repressivos do velho Estado na intimidação racista contra as comunidades.
Na aldeia urbana Tereré, em Sidrolândia (MS), mensagens trocadas em 25 de outubro atacavam os indígenas que comemoravam a votação de Luiz Inácio. Além de insultos racistas, os autores pregavam cortar a água e a luz, restringir a circulação dos Terena e negar-lhes o direito ao voto. A perseguição eleitoral assume, assim, a forma de ameaça de castigo coletivo.
No Pará, latifundiários anunciavam a invasão da Terra Indígena Apyterewa, dos Parakanã, caso Flávio vencesse, conforme áudios revelados em 12 de outubro. Em Roraima, garimpeiros procuraram jovens Yanomami depois do primeiro turno para preparar pistas clandestinas e anunciavam seu retorno ao território alegando que Flávio já havia vencido. Já na Terra Indígena São Jerônimo (PR), artefatos explosivos atingiram a unidade da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em 8 de outubro. Esse atentado permanece no recorte com autoria não individualizada.
Na Terra Indígena Votouro (RS), moradores denunciaram o apedrejamento de uma carreata petista na véspera do primeiro turno e a demissão de cinco trabalhadores indígenas em 5 de outubro. No dia 13, Álvaro Ferreira foi morto quando moradores questionavam as demissões. Uma testemunha ouvida pela Agência Pública apontou como autor dos disparos o cacique Darci Borges, apoiador de Flávio. Moradores também relataram ameaças de expulsão e incêndio de casas contra os adversários políticos do cacique. A operação do Batalhão de Choque enviada à área deixou outros dois indígenas mortos e pelo menos 15 feridos.

A repressão policial também ataca
As forças policiais do velho Estado participaram da violência contra as comemorações e reprimiram quem foi às ruas exigir justiça. No norte de Florianópolis, em 25 de outubro, uma viatura atravessou o canteiro central da SC-403 e acelerou contra a motocicleta de Pedro Henrique Ely. As imagens registram o atropelamento. Segundo testemunha ouvida pela correspondência de AND, depois da queda os policiais ainda agrediram Pedro e lançaram spray de pimenta contra seu rosto.
No protesto de 26 de outubro, acompanhado in loco por AND, a PM disparou balas de borracha e feriu manifestantes. Um ativista do Comitê de Apoio ao jornal na cidade, também integrante da Executiva Catarinense de Estudantes de Pedagogia (ExCEPe), foi atingido no rosto. Familiares, moradores e trabalhadores denunciaram a tentativa de responsabilizar Pedro pelo atropelamento e a perseguição policial contra os motociclistas.
Em Apucarana (PR), o servidor público Fernando Capivara foi atingido na perna por balas de borracha enquanto filmava a ação policial contra uma comemoração. Em Guarapuava, a pesquisadora Renata Kempf, da Universidade Estadual do Centro–Oeste (Unicentro), foi detida pela PM. Registros divulgados no Instagram mostram a abordagem violenta. Houve também repressão com balas de borracha e bombas de gás em São Sebastião, no Distrito Federal.
No Quilombo Mangabeira, em Mocajuba (PA), moradores denunciaram que policiais invadiram uma residência, agrediram um jovem que comemorava a vitória de Luiz Inácio e ameaçaram seus familiares na noite de 26 de outubro. Vídeos da abordagem foram divulgados por integrantes da comunidade. A PM alegou que atendia a uma ocorrência de ameaça com arma de fogo.
O balanço divulgado pelo governo oportunista inclui seis registros de abuso de autoridade e violência policial. Foram anunciados inquéritos, ofícios às corregedorias e medidas de proteção às comunidades indígenas. A própria relação de ocorrências, porém, mostra que os agressores também estão nos aparatos encarregados de receber as denúncias. As promessas de apuração não apagam os atropelamentos, os disparos contra manifestantes e a atuação dos agentes contra o povo.

Parlamentares estimulam perseguição no trabalho
A perseguição também procura atingir o sustento de trabalhadores, profissionais autônomos e pequenos comerciantes, usando o emprego, a clientela e o acesso a serviços como meios de punição política. O Ministério Público do Trabalho (MPT) contabilizou 3.396 denúncias de assédio eleitoral em 2026, das quais 1.459 após o segundo turno, até as 10h de 29 de outubro.
A concentração de denúncias depois da votação também foi destacada pelo procurador Igor Sousa Gonçalves, do MPT, em entrevista ao monopólio de imprensa UOL de 28 de outubro. Ele explicou que, em 2022, predominavam os registros entre os turnos, enquanto neste ano a instituição recebia um volume elevado após o resultado.
A deputada estadual Índia Armelau (PL-RJ) mandou empresários vasculhar as manifestações políticas dos empregados e verificar quem havia feito o “L”. Em 27 de outubro, uma liminar proibiu a parlamentar de incentivar demissões ou perseguições por convicção política e determinou a retirada das publicações, sob multa diária de R$ 5 mil. Na nota que publicou no Instagram, a deputada atribuiu a reação a um “equívoco interpretativo” e alegou que seus comentários teriam sido mal compreendidos.
No Paraná, Jessicão (PL) e Guilherme Kilter (Novo), lamentavelmente eleitos, respectivamente, para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados, também estimularam demissões de apoiadores de Luiz Inácio. Kilter defendeu cortar gastos “começando pelos petistas”. O MPT abriu investigações e exigiu a retirada das postagens e retratações.

Em Minas Gerais, perfis denominados “Quem Apoia Quem”, em Montes Claros e Betim, passaram a expor eleitores de Luiz Inácio e a estimular boicotes. Apresentam-se como “empresários unidos com a Direita para a prosperidade do Povo e da Nação”. A deputada estadual Leninha (PT) registrou queixa; em 28 de outubro, o MPT recomendou que o administrador do perfil de Montes Claros retirasse as publicações discriminatórias.
Em Tombos (MG), o prefeito bolsonarista Tiago Dalpério (PP) ameaçou, em 27 de outubro, cortar o transporte universitário oferecido pelo município. A ameaça veio após a mobilização de estudantes contra a extrema direita e foi seguida de novas provocações do prefeito.
As listas de perseguição também chegaram a Jardim (MS), onde cerca de 20 comércios e profissionais foram expostos numa relação distribuída pelo WhatsApp. No interior paulista, houve campanhas em Tanabi, São José do Rio Preto, Mirassol e Votuporanga. Em Tanabi, uma lista reuniu cerca de 40 nomes.
A participação de parlamentares, gabinetes e patrões nessas perseguições expõe o alcance da ofensiva. A ameaça de perder o emprego prolonga a intimidação eleitoral sobre a vida cotidiana dos trabalhadores, enquanto seus promotores procuram apresentar a retaliação patronal como simples escolha empresarial.

Ataques da campanha prosseguem nas universidades
A preparação dessas investidas já aparecia antes do segundo turno. Na noite de 24 de outubro, em Montes Claros (MG), homens com camisetas de Flávio lançaram tijolos, pedras e garrafas contra uma carreata petista. A vereadora Iara Pimentel foi atingida no rosto, sofreu fratura no nariz e precisou levar cinco pontos. O registro do ataque circulou no X, e a parlamentar publicou no Instagram sua imagem após o atendimento. A Polícia Federal recebeu os vídeos, mas os autores ainda não haviam sido identificados no levantamento de 29 de outubro.
Durante a campanha, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) e entidades estudantis denunciaram ameaças de incêndios e esfaqueamentos em universidades. Entre as instituições atingidas estavam a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). As denúncias foram encaminhadas ao Ministério Público Federal (MPF).
O ataque à sede do Grêmio de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na noite de 26 para 27 de outubro, dá continuidade a essa intimidação. As paredes foram pichadas com “22” e ofensas aos estudantes e a Luiz Inácio; materiais foram danificados. O grêmio já havia sofrido um ataque semelhante em junho. A universidade reconheceu a natureza ideológica da ação.
A incitação era pública. Em 22 de outubro, um bolsonarista cobrou “insurreição” e “pancadaria” num vídeo no Instagram, anunciando antecipadamente que a eleição seria roubada. Na véspera da votação, o próprio Flávio convocou sua base a ir aos colégios eleitorais às 17h, sob o pretexto de vigiar mesários. A suspeição difundida pelo candidato dava cobertura às provocações de seus seguidores.
A pesquisa das organizações Terra de Direitos e Justiça Global registrou 134 episódios de violência política nos 50 dias de campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro. Foram dois assassinatos e 11 atentados. O levantamento abrange a violência política em geral; os casos aqui reunidos mostram a continuidade dos ataques bolsonaristas antes e depois da apuração.

De Miami, Flávio promete mobilizar a oposição
O reconhecimento do resultado por dirigentes da direita e o recuo de parte das lideranças do PL não desarmaram essa base. Tarcísio de Freitas e Tereza Cristina defenderam aceitar o resultado das urnas, e Valdemar Costa Neto criticou a carta divulgada por Flávio em 28 de outubro: “Não gostei, não gostei”. O fugitivo, porém, anunciou que prepara uma estratégia para mobilizar a oposição a partir do exterior e pediu aos apoiadores que não desistissem.
Na primeira versão da carta, Flávio apresentou-se como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; depois substituiu a expressão por “líder do Brasil”. Repetiu a acusação de fraude, agradeceu a Javier Milei e a Donald Trump e prometeu novos pronunciamentos. A fuga preserva o chefete enquanto seus seguidores perseguem e agridem no Brasil.
O governo Trump garantiu a entrada de Flávio e de sua família no EUA, após o descumprimento da ordem de entrega dos passaportes. Ao mesmo tempo, o cabecilha ianque voltou a lançar suspeitas sobre o resultado brasileiro. O acolhimento ao fugitivo dá continuidade à operação conduzida pelo Departamento de Estado, sob Marco Rubio, em favor do clã Bolsonaro, revelada em investigação da agência imperialista Reuters.
A violência da extrema direita combina-se à chantagem econômica e diplomática ianque para pressionar o Brasil. Washington procura arrancar do governo oportunista as concessões que esperava obter com Flávio: maior controle sobre minerais e fontes de energia, afastamento da China social-imperialista e submissão da política de Defesa. A promessa de conciliação de Luiz Inácio oferece caminho para que esses objetivos avancem mesmo após a derrota do candidato de Trump.
Os mortos, feridos e trabalhadores perseguidos desmentem a ideia de que o resultado das urnas teria imposto uma trégua à extrema direita. Seus bandos, vínculos com gabinetes, patrões e latifundiários e posições nos aparatos de repressão continuam de pé. Enfrentá-los exige organização independente e mobilização dos trabalhadores, estudantes e camponeses, sem subordinar a defesa dos direitos populares às conciliações do governo oportunista.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
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