
O resultado eleitoral – com vitória do candidato do PT, Luiz Inácio por 51,79% contra 48,21% do candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro – guarda alguns significados importantes. Mas antes de abordá-los, é necessário destacar um fato que desmascara os mitos desta velha democracia. Em um sistema de voto obrigatório, praticamente um terço da população em idade eleitoral, desde os anos 1990, tem recorrido à abstenção, anulado ou votado em branco como manifestação política, de dezenas de milhões de cidadãos. Isso não é atitude de alienados políticos, como pretende apresentá-la o coro geral e do consenso construído desde as instituições do velho Estado corrupto dos alicerces ao teto, nas propagandas oficiais do TSE (que se jacta de ser “A Justiça da Democracia”), na lavra dos partidos legais e dos monopólios de imprensa, enfim, consenso construído pelos defensores deste sistema político agonizante que chamam de democracia plena. Afinal, seria uma estranha alienação política das massas que se abstêm, não? Agora, precisamente para derrotar o candidato da extrema direita no segundo turno, foram esses milhões de cidadãos que viraram a eleição, embalados e comovidos pelas manifestações massivas por todo o País e mesmo muitos, como participantes ativos dessas manifestações, em denúncia à extrema direita. Pois sim, esta tribuna não renuncia à posição do boicote à farsa eleitoral – é o que sustentaremos na seguinte análise dos resultados do pleito.
Agora, partimos por destacar dois de seus significados.
Primeiro: o País, majoritariamente, disse não ao projeto da extrema direita e do bolsonarismo de reinstalar o seu regime reacionário, antipovo e vende pátria, assim como, disse não às pretensões imperialistas do EUA de se assenhorar tão facilmente dos recursos naturais e instalar tropas em nosso território. Essa rejeição, que supera a rejeição ao próprio sistema político – o que é uma façanha! –, ocorreu mesmo num pleito eivado de interferências do governo Trump e de maquinações da extrema direita por impedir o livre trânsito de eleitores e manipular o resultado.
Afinal, vejamos: a rejeição a Bolsonaro, segundo a última pesquisa Quaest antes do pleito, atingia 49% do eleitorado, e 45% declararam temer a volta da extrema direita ao governo (a situação do candidato petista não era confortável nesses mesmos quesitos: 47% o rejeitavam e 42% temiam mais um mandato seu; uma parte do eleitorado de Flávio “Rachadinha”, nesse sentido, também votou por forte sentimento anti-PT, confundindo-o com algo de esquerda, logo, sentindo-se atraída pelo anticomunismo bolsonarista). Já a pesquisa Palver, de 22–24 de outubro, explicitou ainda mais aquele quadro: da totalidade de votos para o PT, 34% tinham como motivação “defesa da democracia e dos direitos” e 13% “rejeição à família Bolsonaro” (47% do total, quase metade, enquanto apenas 18% votariam por preferência “ao preparo e experiência de Lula”).
Assim, é inteiramente falso dar o mérito ao PT pelo resultado. Foi uma derrota eleitoral da extrema direita, mas, de modo algum, representa algum tipo de renovação de expectativas ao PT. Ao contrário, o PT e Luiz Inácio saem mais fracos do que entraram. Primeiro, porque as promessas, que foram feitas em disparate para vencer as eleições, serão o maior estelionato eleitoral da história do PT e alimentarão o descrédito da esquerda burguesa. Afinal, elas só são aplicáveis se seu governo rompesse vários de seus compromissos com a oligarquia financeira internacional e o latifúndio, o que a experiência de 18 anos de governo atesta o contrário. Mas, mesmo admitindo-se que ocorra certa autocrítica depois da situação desesperada que Luiz Inácio e a esquerda burguesa se encontraram a partir do 1o turno (e do clamor popular que massivamente rompeu sua política imobilista e de desmobilização das massas ao longo de duas décadas), ainda assim, não é a política que estão decididos a fazer, isso porque só consideram as massas como importantes espectadores, para aplaudi-los e dar-lhes votos. É óbvio que as palavras do presidente da república, em seu pronunciamento de vitória, de se voltar mais para o povo, não bastam. Afinal, um rompimento com aqueles compromissos seria declaração de guerra à reação externa e interna – coisa que a social-democracia, os oportunistas, fogem como o diabo da cruz. Além do mais, na tal “correlação de forças” o quarto mandato de Luiz Inácio está com um STF sem credibilidade, para não dizer desmoralizado, e dividido, um Senado de maioria da direita e extrema direita e que tem tudo para assumir o comando dessa instância e forte peso na Câmara dos Deputados.
O segundo significado das eleições é: elas não derrotam a extrema direita e o fascismo, como demonstra fartamente a experiência histórica mundial. A derrota da extrema direita nas eleições, em segundo turno, só adia o embate decisivo do povo brasileiro com a extrema direita e o fascismo, embate este que custará muitos anos (e mesmo décadas) de duríssimas e cruentas lutas na Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao Socialismo. Exatamente porque o revés eleitoral não muda a natureza ideológica dessa força e nem aplasta como se faz necessário as forças politicamente organizadas da extrema direita e do fascismo. Essas forças não se encontram apenas nos partidos políticos legais e seus representantes no Congresso Nacional, em governos estaduais e municipais e respectivos poderes legislativos. A extrema direita está presente, ideológica e politicamente, em todos os níveis das instituições do poder judiciário. Está solidamente estruturada, como anticomunismo visceral e latente, também nas Forças Armadas reacionárias, nas corporações policiais civis e militares, nas empresas de segurança privada, nas sociedades rurais e demais organizações de latifundiários; está entre os CAC e nas igrejas ultraconservadoras. E muitos membros destas instituições e organizações, de forma direta ou indireta, estão ligados a uma grande variedade de organizações semissecretas fascistas e paramilitares, como “Invasão Zero”, “milicianos”, “grupos de extermínios” etc.. Ela conta ainda, particularmente neste momento, com o apoio do imperialismo ianque e de Israel sionista, como cabeça pública de sua quinta-coluna no País, para avançar o domínio absoluto sobre o Brasil e América Latina, o que é uma necessidade indispensável para manter as respectivas condições de superpotência hegemônica única e de quartel avançado e ponta de lança dos ianques no Oriente Médio Ampliado.
Por mais isolado politicamente no País que o clã dos Bolsonaros tende a ficar com a derrota eleitoral (cuja fuga do “01” soa como admissão de culpa pelas acusações de “organização criminosa”, “lavagem de dinheiro”, “desvio de dinheiro público” etc. pelas quais está sendo investigado) não é suficiente para detê-los. A política antipetista e anti-Lula da direita segue com forte opinião pública e conta ainda com o respaldo de Trump, que declarou a eleição como suspeita de fraude. E não surpreende a ninguém a não aceitação do resultado das eleições, com as verbalizações de Flávio. Nota-se que as acusações de fraude só encontraram eco no plano internacional com Milei e Trump, e nem mesmo a maioria da extrema direita no governo dos outros países da América Latina deu ouvido a gritaria do derrotado e, de modo protocolar, cumprimentou Luiz Inácio pela vitória. De todo modo, as novas modalidades da “guerra híbrida” ianque, em curso na América Latina, não afrouxarão contra o Brasil, com vistas a potenciar a extrema direita e elevar a temperatura e pressão. Já vista a “Carta”, desde Miami, chancelada pelo gusano Marco Rubio, em que Flávio se proclamou “líder” e “Presidente” offshore do Brasil. Para tanto, os ianques vão se apoiar nas agitações de diferentes tipos, da extrema direita, mas não principalmente no imediato, já que houve grande comoção contra ela em grande parte da sociedade brasileira e na América Latina, gerada pelas manifestações massivas às vésperas do 2o turno, com a derrota de Flávio, e sobretudo, com o prosseguimento de manifestações de ruas pelas massas da juventude convocadas por forças combativas e mesmo por setores do oportunismo.
Ante a estes inevitáveis acontecimentos, a extrema direita se verá na obrigação de aproveitar da fragilidade política e de credibilidade do sistema político. A tendência é de que, principalmente, a partir da posse e início do novo governo e volta do recesso parlamentar, a extrema direita busque aprofundar o ambiente de instabilidade política e com todo tipo de manobras para aproximar a crise institucional de seu limite e provocar mais agitações nas ruas. Para tanto, se servirá da forte base no Senado e na Câmara dos Deputados, com todo tipo de manobras ali, como votar impeachment de ministros do STF etc., e com os ataques, mesmo que infundados, sobre manipulação do resultado eleitoral, seguindo com todas as denúncias já levantadas na campanha eleitoral. Assim, pensa também provocar as conhecidas oscilações no que os analistas burgueses cinicamente chamam por “humor do mercado”. Por sua vez, esse terreno acidentado será, por isso, utilizado por Trump para impor duríssimos termos e condições para “pacificar” a relação EUA-Brasil, e assim, levar controvérsias às forças da composição do novo governo de como se posicionar. Ante as pressões do mundo dos negócios e do “mercado”, o novo governo pesará com muita força o discurso do “diálogo” e da “responsabilidade”, isto é, apaziguamento e contemporização, revestidos ou não com tergiversações sobre a soberania. É óbvio que muitas forças que apoiaram decididamente Luiz Inácio nas eleições, e aqueles que encabeçaram as manifestações nas ruas, vão se opor às concessões exigidas pelos ianques, e não seguirão o coro do oportunismo de submeter-se à governabilidade, como ocorreu ao longo das últimas duas décadas de governos petistas, subordinando porções das forças populares à defesa do pacto de conciliação e colaboração de classes. Assim, uma divisão se aprofundará entre as forças de apoio do governo: o descontentamento das massas em luta contra a extrema direita, a intervenção imperialista ianque e toda a reação será polarizado, cada vez mais, pelo movimento revolucionário, presente e em luta dentro das massas mobilizadas, e que dará saltos.
Então, vejamos. Aos ianques, mais que nunca, interessa um governo o mais subalterno no alinhamento das questões estratégicas, e não é uma questão de preferência, e sim de necessidade imperativa, conforme consta na sua Estratégia de Segurança Nacional de 2025. Portanto, essas são as condições. Os termos serão que um próximo governo do PT seria aceitável pacificamente ao EUA desde que se alinhe na política externa, entregue as reservas de minerais críticos, reduza drasticamente as relações comerciais Brasil–China, subordine a Defesa nacional ainda mais ao Comando Sul do Exército do EUA ao ponto de normalizar operações de tropas ianques e bases militares no território pátrio, a pretexto de combater o “narcoterrorismo” – ou seja, aplicar o essencial do que seria um governo Bolsonaro II. Nota-se: Alcolumbre, aliado do PT e atual presidente do Senado, já defende uma “pacificação” ao preço de “reconhecer a agenda de Flávio Bolsonaro”, isto é, incorporá-la. Mas que ninguém pense que isso é um absurdo para importantes setores da cúpula do PT e de aliados no novo governo: vencidas as eleições, já sinalizaram que há disposição de conversar com Trump e renegociar temas sensíveis aos ianques.
***
Portanto, o mínimo que a grave situação nacional exige de todas as forças do movimento popular, no objetivo de combater a ofensiva da contrarrevolução e da intervenção imperialista no País, e de combater também a tendência à colaboração da cúpula social-democrata oportunista com a reação e à traição com suas próprias bases, é levantar alto o protesto popular. Ele é necessário para esses dois objetivos, que são indesligáveis: não é possível combater a ofensiva da contrarrevolução sem combater a tendência à vacilação dos “chefes” oportunistas e desmascará-los.
Mas, tal protesto popular não deve ser a mobilização de torcida eleitoral ou a mobilização estrita do ativismo de esquerda (importante, mas insuficiente para contrapesar a ofensiva reacionária): é necessário colocar em movimento uma grande parte do proletariado e do campesinato, principalmente. Isso só é possível através de levantar radicalmente as reivindicações econômicas das massas populares e mobilizá-las com todos os instrumentos básicos de lutas (sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais e demais associações camponesas etc.), em sua grande maioria ainda sob a camisa de força imobilista do oportunismo. Mais, mobilizá-las erguendo as consignas da luta política contra a extrema direita, as ameaças e intervenção imperialistas e toda a maré reacionária, para entrar duro na disputa ideológica dentro da sociedade, em defesa das liberdades democráticas e dos direitos do povo. Nessa frente tática, o proletariado revolucionário e as organizações de massas dirigidas por ele devem aplicar também a luta ideológico-política ativa contra a ideologia social-democrata, toda ideologia do oportunismo, dos compromissos e conciliações com as classes dominantes, contra toda tendência ao imobilismo e a temer as desordens, as inclinações para a capitulação e para a colaboração com o inimigo “em nome do diálogo e da paz social”. Combater a ofensiva da contrarrevolução! Morte ao imperialismo e ao fascismo! Abaixo as ilusões e colaboração oportunistas com a reação!

ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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