
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), articula um indulto ou anistia a Jair Bolsonaro, “O Fraco”, para atrair votos à sua reeleição ao comando da Casa. Segundo dois aliados ouvidos pela Folha de S.Paulo, a barganha procura trocar a liberdade do patriarca do clã pelo recuo da extrema direita na pressão pelo afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), configurando um flagrante acordo de impunidade para preservar posições estratégicas na cúpula do velho Estado brasileiro.
A recente bancada eleita pela extrema direita fundamentou todo o seu discurso reacionário em ataques sistemáticos aos magistrados e na defesa intransigente do imediato afastamento de Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou o patriarca do clã Bolsonaro. Ao contrário dessas drásticas cassações, Alcolumbre procura desesperadamente caminhos sinuosos para contornar a profunda crise institucional e manter seu cargo pelos próximos dois anos, oferecendo inescrupulosamente o perdão aos “galinhas-verdes” golpistas do 8 de janeiro de 2023.
O plano tenciona envolver todas as esferas da burocracia estatal em uma suposta e falsa “pacificação do País” após a farsa eleitoral. Para concretizar essa barganha, o senador afirmou aos seus aliados próximos que buscará dialogar com Luiz Inácio (PT) para defender a concessão de um “indulto humanitário” a Jair Bolsonaro, lúmpen contrarrevolucionário de extrema direita condenado pelo comprovado orquestramento dos preparativos golpistas de 2022. Os articuladores aguardam que o cenário decante para formalizar o pedido de clemência, revelando o profundo nível de degradação das instituições que negociam a impunidade dos criminosos para salvar seus cargos.
Caso o perdão presidencial humanitário seja rejeitado, o líder do Senado já garantiu aos opositores que trabalhará incansavelmente para aprovar um projeto de anistia completo no Congresso de corruptos. A oposição cobra urgência na votação, mas a estratégia adotada pelo parlamentar visa convencer o Judiciário a reconhecer a constitucionalidade da redução das penas aprovada anteriormente, criando um ambiente favorável para soltar os golpistas.
A aplicação da lei que reduz as penas dos condenados pelas agitações golpistas de 8 de janeiro de 2023 está suspensa por decisão de Alexandre de Moraes, enquanto se aguarda o julgamento de sua constitucionalidade pelo plenário do STF. O presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), admitiu ao Metrópoles, em 28 de outubro, que Alcolumbre lhe falara sobre uma nova redução de penas. Afirmou, porém, que não havia projeto apresentado à comissão. No dia 29, disse à CNN que a conversa tratara de “pacificação” e negou ter discutido indulto ou anistia. A distinção preserva diferentes caminhos para abrandar as punições, enquanto o perdão continua sendo articulado pelo presidente do Senado.
No STF, a defesa do “capitão-do-mato” mantém outra frente para reverter a condenação. Em despacho assinado em 26 de outubro e divulgado no dia 28, Kassio Nunes Marques deu dez dias à Procuradoria–Geral da República (PGR) para apresentar parecer sobre o novo pedido de revisão criminal. A defesa procura anular a condenação de 27 anos e três meses; Bolsonaro cumpre a pena em prisão domiciliar. A ação tem Nunes Marques como relator e André Mendonça como revisor.

O custo da ‘governabilidade’ e da submissão
Diante da aprovação de uma anistia nas Casas legislativas, articuladores apontam que será necessário firmar acordo com o governo para evitar que Luiz Inácio mobilize a base contra o texto ou aplique vetos. No evidente fortalecimento da extrema direita, o temor de nova desestabilização e as ameaças de cassação acabam favorecendo gigantescas concessões ao bolsonarismo. Esse apaziguamento indica que a atual gestão oportunista pode executar o essencial do programa de submissão aos reacionários, abandonando os anseios das massas para preservar posições nas cúpulas institucionais.
Uma das maiores preocupações dos arquitetos desse sinistro pacto é modular minuciosamente o texto da anistia, garantindo que o perdão não libere o “capitão-do-mato” para concorrer novamente em disputas eleitorais. Atualmente, devido à condenação pelos distúrbios golpistas, o patriarca do clã Bolsonaro permanece inelegível até pelo menos 2060. A intenção primária dos senadores é redigir um documento que atinja exclusivamente a esfera penal, a fim de retirar Jair Bolsonaro da prisão sem lhe devolver plenos direitos políticos.
Uma eventual soltura de Bolsonaro fortaleceria ainda mais a extrema direita. Mesmo inelegível, o chefe bolsonarista conserva sua capacidade de aglutinação, de determinar candidaturas e de mobilizar sua base em apoio aos aliados ou contra aqueles que desafiam sua liderança. Retirá-lo da prisão ampliaria sua liberdade de ação justamente quando o bolsonarismo reforçou suas posições no aparelho do velho Estado. Na situação atual, negociar a liberdade de Bolsonaro significa reforçar a autoridade de quem mantém os variados setores da direita aglutinados, oferecendo-lhes melhores condições para prosseguir sua ofensiva contra o povo.

A disputa pela presidência do Senado dá forma imediata à barganha: Alcolumbre procura conservar seu cargo oferecendo concessões ao bolsonarismo, dado que disputará a permanência no cargo em 2027 contra os bolsonaristas Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS), que têm amplas possibilidades de vencer. Em 27 de outubro, Antônio Rueda e Ciro Nogueira, presidentes do União Brasil e do PP, anunciaram apoio à recondução de Alcolumbre. O posicionamento contraria a articulação de Tereza Cristina, e mostra que a disputa atravessa os partidos que apoiaram Flávio “Rachadinha”.
Apesar de contar com a frágil adesão de setores do “centrão” fisiológico e da própria falsa esquerda governista, esses votos não são minimamente suficientes para selar a vitória do atual presidente do Senado. O parlamentar necessita atrair desesperadamente os membros abrigados no núcleo estrutural do latifúndio agroexportador e das legendas ultraconservadoras, valendo-se da valiosa liberdade do chefete da extrema direita como moeda de troca. Como a votação interna ocorre de maneira secreta, as traições partidárias são facilitadas.
A percepção cristalizada entre os velhos caciques políticos é que as cassações tornaram-se completamente improváveis após o recente pleito, impulsionando a direita a aceitar a vantajosa negociação espúria. Pelo menos 49 dos 81 senadores da próxima legislatura defendem o afastamento de ministros do STF, embora parte deles imponha ressalvas. A destituição exige 54 votos. A diferença mantém em disputa a formação dessa maioria e amplia o peso das negociações pelo comando da Casa.
A prisão de Bolsonaro, ocorrida após violações das medidas cautelares no final de 2025, representou apenas a conclusão de uma fase da ofensiva contrarrevolucionária preventiva, minuciosamente dirigida pelo establishment das classes dominantes locais e desde a medula do putrefato aparelho de Estado burguês-latifundiário, o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), com o objetivo estratégico de levar a cabo as três tarefas reacionárias: reimpulsionar o capitalismo burocrático para tirar o País da profunda crise, reestruturar o velho Estado centralizando ao máximo o Poder no Executivo e, mais importante, conjurar o perigo da revolução. A reação precisou neutralizar a escalada golpista que ameaçava a estabilidade da própria ordem e preservar da desmoralização o ACFA. A punição de Bolsonaro alterou a forma da ofensiva da extrema direita, que concentrou suas forças na disputa eleitoral, enquanto a ameaça de ruptura permaneceu latente.
Já em fins de novembro de 2025, ao denunciar a prisão de Bolsonaro em “gaiola de ouro” como manobra, AND advertia que a extrema direita conservava a iniciativa eleitoral e que a prisão “não deverá passar de dois anos em ‘gaiola de ouro’”. A punição servia para resguardar as instituições permanentes da reação, sobretudo as Forças Armadas, e recompor sua legitimidade. A articulação atual para livrar Bolsonaro da prisão recoloca concretamente essa perspectiva de impunidade.

A ofensiva imperialista e a covardia da extrema direita
O desenrolar dessas concessões internas ocorre enquanto o País padece sob crescente intervenção do imperialismo ianque, diretriz delineada na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025. O país Estados Unidos (EUA) do canídeo Donald Trump objetiva aprofundar ao máximo a submissão semicolonial do País, afastando contendentes interimperialistas, como China e Rússia, e garantindo o controle absoluto das reservas e fontes energéticas brasileiras. Para tal, Washington estimula a desestabilização regional e oferece ampla guarida aos covardes agentes vassalos do clã Bolsonaro. A comprovação tática dessa ofensiva reside na vergonhosa fuga do derrotado Flávio “Rachadinha”, que abandonou seus asseclas e buscou um autoexílio seguro em solo ianque, logo após descumprir as determinações que cancelaram seus passaportes brasileiros.
A ultrajante operação internacional de resgate tático articulou diversos aliados reacionários e aponta explicitamente ao secretário de Estado ianque Marco Rubio como o seu principal e direto articulador. Para o diretor-geral de AND, Victor Bellizia, o fujão tenta escapar furtivamente, visando apenas fomentar contínuos ataques diretos contra a Nação: “O Flávio Bolsonaro viajar para o estrangeiro só é inevitável se ele e Donald Trump apostarem na desestabilização do País”.

A covarde atitude do pequeno chefete extremista, que tanto insuflou a sua base fanatizada para depois fugir desesperadamente para salvar a própria pele, caminha lado a lado com a preparação de investidas muito mais covardes. Ao examinar o pavor desses reacionários em responder legalmente por seus crimes, o representante de AND, no programa A Propósito #379, ironizou a falsa valentia inerente dos reacionários ao declarar: “É uma causa tão nobre, tão profundamente arraigada no espírito da extrema direita, uma causa que mobiliza tanto o que há de mais profundo, que eles não conseguem nem mesmo pensar na possibilidade de serem presos por essa causa”.
O melancólico precedente estabelecido antes por Eduardo “Bananinha” Bolsonaro, outro traidor da Pátria que articulou sanções com Donald Trump, ajuda a compreender a completa vassalagem do clã aos ianques. A fuga de “Rachadinha” não permite milímetros de descanso das forças populares: “Seria um erro, um erro grave, um erro bastante ingênuo da nossa parte se nós tomássemos a saída de Flávio Bolsonaro do País como uma espécie de armistício, de paz, de declaração de trégua ou rendição”, alertou o representante de AND. O bolsonarismo expandiu sua presença nociva no aparelho estatal nas eleições, reafirmando o indiscutível comando hegemônico político. “As eleições confirmaram o peso do clã Bolsonaro na liderança hegemônica da direita. Ele não ficou mais fraco, ficou mais forte”, ressaltou o diretor do jornal. Respaldado pelos quase 60 milhões de votos obtidos em segundo turno, o agrupamento reacionário provou sua vitalidade venenosa para conseguir chantagear o governo de Luiz Inácio.
A conciliação com o bolsonarismo já opera como uma anistia de fato, ao preservar a capacidade de seus bandos de agir contra o povo – especialmente no campo, onde levam a cabo a guerra do latifúndio contra os camponeses, indígenas e quilombolas. O indulto ou a anistia acrescentariam a essa impunidade o perdão negociado para seus chefes. Ao acomodar as pressões da extrema direita e do imperialismo ianque, o governo oportunista pode executar o essencial do programa de submissão defendido pelos próprios bolsonaristas. O preço da “pacificação” recai sobre os direitos do povo e a soberania da Nação, sacrificados para preservar as cúpulas do velho Estado.

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