
O chefe de gabinete do presidente argentino Javier Milei, Diego Santilli, defendeu nesta quinta-feira (29) a atuação das autoridades de seu país na fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos. Segundo o ministro, o senador, derrotado por Lula (PT) nas eleições presidenciais, não tinha restrições migratórias ou alertas da Interpol que impedissem sua passagem pela Argentina.
A declaração foi dada durante uma agenda oficial em Rosário, na província de Santa Fé. Santilli sustentou que Flávio entrou e deixou o território argentino com documentos regulares, apesar da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia determinado a apreensão de seus passaportes e proibido sua saída do Brasil.
“Conforme informou a Direção Nacional de Migrações, ele entrou com a documentação correspondente, em dia, e saiu em um avião, também nas mesmas condições”, afirmou Santilli.
“Entrou pela imigração, não tinha nenhum impedimento, não havia impedimento da Interpol”, acrescentou o ministro, em entrevista ao canal argentino El Tres.
O chefe de gabinete também alegou que a autorização migratória seguiu os procedimentos habituais. Santilli, entretanto, evitou responder aos questionamentos sobre a presença de Santiago Caputo, um dos principais assessores de Milei, no aeroporto de Puerto Iguazú, de onde partiu a aeronave utilizada por Flávio e sua família.
Assessor de Milei acompanhou a fuga de Flávio
A manifestação de Santilli ocorre após a imprensa argentina divulgar informações sobre a participação de Santiago Caputo na operação organizada para retirar Flávio Bolsonaro do Brasil.
Segundo o jornal argentino Clarín, Caputo viajou para Puerto Iguazú e acompanhou os preparativos para o embarque. Fontes da Casa Rosada ouvidas pelo periódico afirmaram que o assessor monitorou a operação desde o início.
O avião utilizado foi um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly, que permaneceu no aeroporto argentino aguardando o senador, sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal.
Caputo também teria mantido contato com representantes da companhia aérea. Pessoas próximas ao assessor, entretanto, negaram sua participação direta na organização da viagem.
Conforme mostrou a Fórum, o envolvimento de integrantes do governo Milei na fuga aprofundou a crise diplomática entre Brasil e Argentina.
A regularidade migratória alegada por Santilli não esclarece se houve participação de agentes públicos na logística da viagem ou utilização de estruturas do Estado argentino para facilitar o deslocamento.
Polícia Federal havia cancelado passaportes de Flávio
A justificativa apresentada pelo governo argentino também contrasta com as medidas adotadas pela Justiça brasileira antes da fuga.
Em comunicado oficial divulgado na quarta-feira (28), a Polícia Federal informou que solicitou ao STF, no domingo (25), a apreensão dos passaportes de Flávio, a proibição de saída do país e restrições de contato com outros investigados.
Após a decisão judicial, os passaportes comum e diplomático brasileiros foram cancelados. A PF também inseriu um alerta migratório no sistema Sonar e intimou o senador, na segunda-feira (26), a entregar eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades no prazo de 24 horas.
Flávio não cumpriu a determinação. A corporação informou ainda que não existe registro oficial de sua saída pelos postos de controle migratório brasileiros e que investiga as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais.
Segundo informações divulgadas sobre a viagem, Flávio utilizou um passaporte italiano para entrar na Argentina e um passaporte diplomático brasileiro para ingressar nos Estados Unidos.
A ausência de alerta da Interpol, argumento utilizado por Santilli, não elimina a existência das restrições determinadas pelo STF. A Polícia Federal ressalvou, entretanto, que essas restrições, isoladamente, não autorizavam a prisão do senador.
Oposição argentina cobra investigação
As suspeitas de participação do governo Milei na fuga provocaram uma série de iniciativas da oposição argentina.
Os deputados Agustín Rossi, Rodolfo Tailhade e Ramiro Gutiérrez, da coalizão União pela Pátria, solicitaram à comissão responsável pela fiscalização dos organismos de inteligência esclarecimentos sobre a eventual atuação da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) na operação.
Parlamentares também apresentaram pedidos de convocação de integrantes do governo e denúncias envolvendo autoridades argentinas, entre elas Santiago Caputo.
A deputada Marcela Pagano encaminhou ainda uma notícia-crime à Procuradoria–Geral da República brasileira contra Flávio Bolsonaro e possíveis participantes da organização e do financiamento da viagem.
Após desembarcar nos Estados Unidos, Flávio agradeceu publicamente a Javier Milei pela “coragem, justiça e senso de legalidade”. O governo argentino, por sua vez, mantém a versão de que a entrada e a saída do senador obedeceram às regras migratórias.
As declarações de Santilli, porém, não esclarecem qual foi a participação de Santiago Caputo e de outros integrantes do governo na operação que levou o senador brasileiro aos Estados Unidos.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
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