
247 – A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desencadeou uma disputa por influência na extrema direita e dificultou os planos do PL para comandar o Senado.
Segundo reportagem do jornal O Globo, aliados de Tarcísio de Freitas enxergam uma oportunidade para fortalecer o governador paulista com vistas a 2030, enquanto Michelle Bolsonaro negocia reassumir o PL Mulher e Rogério Marinho e Tereza Cristina se movimentam pela presidência da Casa.
O movimento atingiu uma estratégia que a direção do PL pretendia colocar em prática imediatamente após a eleição: fazer de Flávio o principal responsável por coordenar a oposição no Congresso. Na segunda-feira, o senador havia anunciado que reuniria parlamentares eleitos para organizar a atuação contra o governo. Sua partida, menos de 24 horas depois, surpreendeu integrantes da campanha e deixou essa articulação sem o comando previsto.
A possibilidade de o candidato derrotado exercer a liderança política do exterior também expôs dificuldades nas negociações com outras legendas. Embora tenha eleito a maior bancada do Senado, o PL depende de acordos para conquistar a presidência da Casa e influenciar a escolha do próximo presidente da Câmara.
Marinho tenta preservar candidatura ao Senado
Coordenador da campanha presidencial de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN) reuniu-se na terça-feira com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, em meio às conversas sobre a sucessão no Senado. O comando das duas Casas está entre os temas discutidos pela legenda.
Em entrevista coletiva no mesmo dia, Marinho afirmou que não havia sido avisado sobre a decisão de Flávio de fugir do Brasil. Segundo ele, os dois tinham conversado na véspera sobre o papel que o candidato derrotado deveria assumir.
“Nós estamos surpresos, porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição, que é importante”, declarou.
A ausência de Flávio, porém, pode reduzir o apoio político à candidatura de Marinho. De acordo com a reportagem, aliados do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), avaliam que a saída do senador prejudica a capacidade de negociação do PL e pode ampliar seu isolamento diante dos partidos do Centrão.
Essa avaliação ganha peso porque o tamanho da bancada, por si só, não garante ao partido os votos necessários para vencer a eleição interna. A disputa exigirá adesões de outras forças políticas, justamente quando a legenda tenta reorganizar sua liderança após a derrota presidencial.
Tereza Cristina contesta apoio antecipado a Alcolumbre
Marinho também enfrenta a movimentação de Tereza Cristina (PP-MS), que pretende disputar a presidência do Senado e já manifestou a intenção de ser a primeira mulher a ocupar o cargo.
Na terça-feira, a parlamentar reagiu ao anúncio de apoio da federação União Brasil-PP à permanência de Alcolumbre no comando da Casa. Em vídeo, defendeu que os integrantes da próxima legislatura participem da decisão.
“Observamos que os 54 novos senadores eleitos e reeleitos sequer foram diplomados e têm todo o direito de expressar, no momento apropriado, sua vontade e, naturalmente, a dos eleitores que representam”, afirmou.
Tereza Cristina também procurou se aproximar das parlamentares que chegarão ao Senado em 2027, sinalizando disposição para construir apoio por meio do diálogo com a nova composição da Casa.
“Como líder veterana, estarei aqui para receber meus colegas, especialmente as 12 novas integrantes da bancada feminina. Quero ouvir todos, como sempre fiz, pois o diálogo no Parlamento é tudo.”
Marinho, por sua vez, questionou se o apoio anunciado pela federação corresponde à posição dos senadores das duas siglas. Ao ser indagado sobre o assunto, respondeu: “Eu acho que a posição dele não se reflete na bancada”.
Grupo de Tarcísio calcula espaço para 2030
Fora do Congresso, aliados de Tarcísio de Freitas avaliam que a ausência de Flávio permite ao governador de São Paulo ampliar sua presença no debate nacional e se consolidar como alternativa presidencial para 2030.
Segundo integrantes de seu grupo político ouvidos pelo Globo, essa expansão poderia ocorrer sem um confronto direto com o bolsonarismo. Tarcísio participou ativamente da campanha de Flávio, mas passou a defender publicamente a reorganização da oposição depois do resultado eleitoral.
Em vídeo divulgado na terça-feira, quando surgiram as primeiras notícias sobre a fuga, o governador reconheceu o resultado das urnas, agradeceu ao senador pela campanha e apresentou a redução de despesas públicas e de impostos como eixos de um projeto político.
“A direita brasileira recebeu das urnas uma responsabilidade, recebeu força no Congresso e nos estados. Agora é hora de unidade, de uma oposição vigilante, que cobre responsabilidade fiscal, que proponha aquilo que melhora a vida das pessoas e que fiscalize de perto quem governa pelos próximos quatro anos”, disse.
Tarcísio não comentou a saída de Flávio do país. Sua manifestação concentrou-se na defesa da unidade da direita e na atuação contra o governo Lula ao longo dos próximos quatro anos.
Michelle busca combinar mandato e estrutura partidária
Eleita senadora, Michelle Bolsonaro também negocia uma posição de maior influência no PL. A ex-primeira-dama reuniu-se com Valdemar Costa Neto na terça-feira e, conforme aliados citados na reportagem, deve voltar à presidência do PL Mulher.
Na campanha presidencial, Michelle manteve distância pública do enteado. Sua participação eleitoral esteve concentrada na própria candidatura ao Senado e na reeleição de Celina Leão (PP) ao governo do Distrito Federal.
Com o início do mandato em 2027, Michelle passará a contar com uma plataforma parlamentar para ampliar sua atuação junto a setores conservadores e evangélicos. A eventual retomada do PL Mulher acrescentaria a esse espaço uma estrutura partidária dedicada à mobilização de mulheres e à formação de candidaturas.
A combinação entre mandato e direção partidária pode fortalecer sua participação nas decisões do PL, em um momento no qual diferentes lideranças buscam definir os rumos da oposição.
Flávio anuncia comando da oposição no exterior
Já nos Estados Unidos, Flávio anunciou na quarta-feira que pretende dirigir a oposição ao governo Lula a partir do exterior. Em uma carta, declarou-se o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil e alegou fraude eleitoral sem apresentar provas.
O senador também afirmou que divulgará, nos próximos dias, uma estratégia de mobilização de seus apoiadores. O anúncio foi feito depois de sua partida contrariar a expectativa da direção do PL de que ele conduzisse pessoalmente a articulação parlamentar em Brasília.
Enquanto Flávio tenta manter sua influência à distância, as negociações pelo comando do Senado e pela reorganização partidária avançam com outros protagonistas. A eleição das mesas do Congresso será uma das primeiras disputas a exigir da direita acordos entre suas próprias lideranças e com partidos de fora do PL.
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