
A Marinha reacionária do Brasil desembolsou mais de R$ 191 milhões na tentativa de modernizar quatro aviões antigos adquiridos no país Estados Unidos (EUA), mas não recebeu uma única aeronave. O contrato, assinado em 20 de outubro de 2011, completou 15 anos nesta semana sem que o programa tivesse produzido resultados. No lugar dos aviões, sobraram dez motores sem utilização na frota brasileira, despesas adicionais para armazenamento em território norte-americano e uma tentativa frustrada de vendê-los. O episódio voltou à tona justamente quando a cúpula da Marinha pressiona por mais dinheiro público, recorrendo também ao argumento da necessidade de ampliar sua participação no chamado “combate ao crime”.
A história começou em 2010, quando a Marinha comprou oito estruturas de aeronaves C-1A Trader, retiradas de serviço pelo EUA, e lá ficaram armazenadas. Os aparelhos, cuja origem remontava à década de 1950, precisariam passar por uma extensa reconstrução antes de voltar a voar. Quatro deles seriam “modernizados” e incorporados à Aviação Naval brasileira, enquanto os outros quatro serviriam como fonte de peças. A compra custou cerca de 235 mil dólares, sem contar o transporte. Contudo, o preço relativamente baixo dos aviões “aposentados” estava longe de representar o custo total da operação que viria a seguir.
Em outubro de 2011, a Marinha assinou com a empresa ianque Marsh Aviation um contrato de 69,2 milhões de dólares para transformar quatro dessas aeronaves em KC-2 Turbo Trader. O projeto previa substituir motores, instalar equipamentos modernos de navegação e comunicação e adaptar os aviões para transportar militares, cargas e combustível. Segundo apuração do portal especializado AIRWAY, repercutida pela Revista Sociedade Militar, o valor do contrato chegou a aproximadamente 109,4 milhões de dólares em 2014. A principal finalidade do projeto era apoiar as operações do porta-aviões São Paulo, transportando suprimentos e pessoal até o navio em alto-mar, além de realizar o reabastecimento de outras aeronaves.
O programa logo enfrentou problemas envolvendo a Marsh Aviation no Judiciário ianque. Em 2014, o monopólio sionista Elbit Systems entrou no projeto, que continuou acumulando atrasos. Por fim, em fevereiro de 2017, a própria Marinha decidiu desmobilizar o porta-aviões São Paulo, comprometendo a principal finalidade para a qual os KC-2 haviam sido planejados.

Ainda assim, os pagamentos continuaram. Uma apuração publicada pelo AIRWAY em 2023 identificou mais de R$ 191 milhões pagos entre 2015 e 2021, dos quais aproximadamente R$ 158 milhões foram desembolsados depois da decisão de retirar o navio de serviço. Em outras palavras, cerca de 83% dos pagamentos identificados no período ocorreram quando a principal plataforma que justificava a aquisição já estava sendo abandonada. E mesmo que os aviões ainda pudessem desempenhar outras funções, nenhum deles chegou à Marinha. O “pastel de vento” veio from USA, a conta ficou para o povo brasileiro.

Sem aviões, Marinha tenta vender motores que ficaram no EUA
O contrato com a Marsh só foi encerrado em outubro de 2021, e sem a entrega das quatro aeronaves. Dois anos depois, a Marinha extinguiu o grupo militar responsável por acompanhar a modernização e o recebimento dos KC-2 no EUA. A Força também aplicou sanções à Marsh Aviation e adotou providências para recuperar pelo menos a garantia contratual, correspondente a 3% do valor contratado.
O encerramento deixou ainda dez motores Honeywell TPE331, sendo oito novos e dois revisados, além de quatro unidades auxiliares de energia. Os equipamentos permaneceram nas instalações da M7 Aerospace, no Texas, até que a empresa informou que encerraria suas atividades naquele endereço. A Marinha precisou então contratar outro serviço para transportar e armazenar o material no EUA, com despesa prevista de até 23.145 dólares. Em seguida, uma avaliação técnica da própria Força concluiu que os motores não eram compatíveis com as demais aeronaves de sua frota e não tinham previsão de utilização. Depois de pagar pela “modernização” de aviões que nunca chegaram, a instituição ainda precisava gastar outra pequena fortuna para guardar a sucata que sobrou.
Em abril de 2024, a Comissão Naval Brasileira em Washington tentou vender o material por um valor mínimo conjunto de 6,31 milhões de dólares. Os dez motores principais foram divididos em cinco lotes, avaliados em 5,75 milhões de dólares, enquanto as quatro unidades auxiliares de energia formaram um lote de 560 mil dólares. O resultado foi pouco animador: apenas uma empresa norte-americana, a Sturgill Turbine Service, apresentou proposta, oferecendo 575 mil dólares pelas unidades auxiliares. A oferta foi aceita, mas nenhum interessado apareceu para comprar os dez motores principais. Justamente os equipamentos de maior valor permaneceram sem propostas.
Os registros da licitação confirmam a assinatura do contrato de venda das unidades auxiliares de energia, em maio de 2024, mas não apresentam comprovação do recebimento definitivo dos 575 mil dólares. Também não esclarecem se os dez motores principais foram vendidos posteriormente, qual foi o destino das aeronaves não entregues ou quanto a Marinha conseguiu recuperar do rombo. Segundo informações prestadas pela própria Força ao AIRWAY, os dados do programa haviam sido classificados como reservados em agosto de 2021, pelo prazo de cinco anos. O período terminou em agosto de 2026, mas, segundo levantamento publicado pela Revista Sociedade Militar em 22 de outubro, os registros públicos ainda não ofereciam um balanço consolidado dos pagamentos, das despesas adicionais e dos valores eventualmente recuperados.

Comandante cobra mais verbas e admite ‘estreito alinhamento militar’ com EUA
Enquanto permanecem sem esclarecimento os custos finais do KC-2, o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, intensificou as cobranças ao governo por mais recursos para o reaparelhamento da Força. Em entrevista concedida ao monopólio de imprensa CNN Brasil, em julho, Olsen classificou a execução orçamentária da Defesa como “caótica” e atribuiu parte das dificuldades à “baixa percepção de ameaça” da sociedade, que, segundo ele, produz uma “mentalidade bastante acanhada de defesa” nas instâncias decisórias. O almirante também considerou “insuficientes” os R$ 30 bilhões destinados ao reaparelhamento das três Forças até 2031. Defendeu uma “previsibilidade que transcenda governos” e afirmou: “Tem que ser uma política de Estado”. A cobrança parte da mesma instituição que, no caso do KC-2, nem sequer apresentou um balanço público consolidado dos pagamentos e dos valores recuperados no programa encerrado sem entrega das aeronaves contratadas.
A pressão por mais orçamento ganhou também o argumento do “combate ao crime”. Após o bloqueio de aproximadamente R$ 4,3 bilhões no Ministério da Defesa, dos quais R$ 1,43 bilhão atingiu a Marinha, a Força advertiu a Câmara dos Deputados de que a falta de recursos poderia comprometer operações contra o tráfico de drogas e armas, o contrabando e outros crimes nas águas brasileiras. Embora tenha reconhecido que o bloqueio ainda não havia interrompido essas atividades, a cúpula naval associou a continuidade das restrições à possível redução da fiscalização marítima e fluvial. A pauta da segurança pública passou, assim, a ocupar espaço nas reivindicações da instituição, cuja função central é a defesa militar.
Quando questionado sobre o combate ao crime organizado, Olsen reconheceu que se trata, “em princípio”, de uma atribuição da pasta da Justiça. “A Marinha entra em cooperação com esses órgãos”, afirmou. Explicou que as apreensões contam com agentes da Polícia Federal embarcados em meios navais, citou o intercâmbio com “órgãos e organismos internacionais” e descreveu essa atuação como “um trabalho continuado”.
Na mesma entrevista à CNN, Olsen expôs a submissão das Forças Armadas brasileiras às suas contrapartes ianques. Ao comentar exercícios conjuntos, intercâmbios e operações de inteligência, afirmou existir um “alinhamento doutrinário de emprego da força bastante estreito” entre as Marinhas dos dois países. E foi além, declarando não enxergar “nenhuma dissonância” entre a Marinha, o Exército e a Aeronáutica brasileiros e suas respectivas contrapartes no EUA. Questionado sobre a possibilidade de uma intervenção militar ianque no Brasil sob o pretexto de enfrentar organizações classificadas por Washington como “terroristas”, disse não acreditar nessa hipótese, justamente em razão da “relação estreita e permanente” entre os países.
Olsen tratou as tensões entre governos como “circunstanciais”. “O relacionamento entre militares e, particularmente, entre Forças Navais é mais robusto, é mais de confiança”, afirmou. Questionado novamente sobre uma ação militar ianque, admitiu: “Se considerarmos a possibilidade, naturalmente que existe”, mas reiterou não acreditar nessa hipótese.
A “cooperação” mencionada por Olsen já se manifesta em operações concretas. Em 7 de julho, a Polícia Federal (PF) e a Marinha interceptaram uma embarcação com drogas em águas internacionais, nas proximidades da costa do Suriname, utilizando informações fornecidas pela agência “antidrogas” ianque (DEA) e pela Joint Interagency Task Force South, vinculada ao Comando Sul do EUA. No dia seguinte, o ministro da Defesa, José Múcio, reuniu-se em Cusco, no Peru, com o subsecretário de Defesa ianque Elbridge Colby, que propôs ampliar a cooperação regional contra o narcotráfico. Múcio demonstrou interesse na proposta e mencionou a atuação das Forças Armadas reacionárias nas regiões de fronteira. As iniciativas se inserem num cenário em que o governo do canídeo Donald Trump procura ampliar a participação militar ianque no combate ao chamado “narcoterrorismo” na América Latina.
O contraste entre essas movimentações e o fracasso retumbante do KC-2 expõe uma questão que vai além de “um contrato mal-sucedido”. Enquanto setores do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) exigem mais recursos e maior participação das Forças Armadas no “enfrentamento ao crime organizado”, aprofundando a submissão a Washington, permanecem sem dar respostas públicas a gastos multimilionários que foram pelo ralo.

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