
Cerca de 150 mil estudantes e trabalhadores tomaram a Praça Slavija e avenidas próximas, em Belgrado, capital da Sérvia, em 22 de outubro, numa nova demonstração da revolta popular que atravessa o país desde 2024. A dimensão do ato, registrada pelo monopólio de imprensa Courrier des Balkans, expressa uma insatisfação que alcança o sistema político e as condições de vida aviltantes impostas ao povo.
Em declaração de 10 de outubro, o Comitê para a Reconstituição do Partido Comunista da Iugoslávia (KR-KPJ) – organização marxista-leninista-maoista, principalmente maoista – afirma que “a classe dominante da Sérvia subestimou a disposição das massas para a resistência”.
Seis marchas percorreram a capital até a praça. Para chegar a Belgrado, estudantes e apoiadores atravessaram regiões do país a pé. Uma coluna de cerca de 1,5 mil pessoas saiu de Novi Sad em 20 de outubro e caminhou mais de 40 quilômetros no primeiro dia. Moradores prepararam comida para receber os manifestantes, segundo reportagem do Courrier des Balkans.
A queda da marquise da estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, matou 16 pessoas e desencadeou protestos contra a negligência e a corrupção nas obras públicas. Desde então, a indignação se estendeu em sucessivas jornadas de bloqueios e marchas entre cidades, expondo o abismo entre as necessidades populares e as instituições do velho Estado.
Carestia e falta de perspectivas alimentam a revolta
O Relatório Alternativo de 2026 do Conselho Nacional da Juventude da Sérvia (KOMS), divulgado pelo NG Portal, ajuda a dimensionar essa insatisfação. Entre os 1.186 jovens de 15 a 30 anos ouvidos em pesquisa online de abril a junho, 82,6% apontaram o alto custo de vida como problema. Entre os empregados, 55% trabalhavam em ocupações sem relação com sua formação; mais de um quarto dos entrevistados acreditava que nunca conseguiria comprar a própria moradia.
Os jovens estimavam que uma vida digna exigiria mais de 130 mil dinares por mês. Já o órgão oficial de estatísticas do país informa que, em julho de 2026, metade dos empregados recebia um salário líquido de até 95 mil dinares mensais. O emprego, mesmo quando existe, convive com a dificuldade de custear uma vida independente.
Descrédito atinge o velho sistema político
A desconfiança ultrapassa o governante de turno. Em pesquisa do Centro de Pesquisa, Transparência e Responsabilização (CRTA) e da Universidade de Stanford, somente 34% declararam confiar no governo e 31% no Parlamento. Ao apontar os responsáveis pela corrupção, 38% responsabilizaram o sistema político inteiro, enquanto 16% indicaram especificamente o governo atual. O levantamento ouviu 2.324 adultos entre 10 e 24 de junho de 2026.
Entre os jovens ouvidos pela KOMS em 2026, 84,8% consideravam que o sistema político não lhes permitia influenciar os processos e as decisões. Já o relatório de 2025 registrava, entre os motivos apresentados pelos que não votam, a avaliação de que os políticos são todos iguais e não trabalham em favor da população, além da falta de candidaturas em que se reconhecessem. É o descrédito da velha democracia burguesa que aparece nessas respostas.
A sustentação do movimento passou pela construção de assembleias nas faculdades e por decisões discutidas entre universidades. Fora dos campi, a solidariedade aproximou estudantes e moradores do campo: além da entrega de alimentos, agricultores posicionaram tratores para proteger os jovens da repressão, conforme relato sobre a mobilização publicado em julho.
Partidos oficiais procuram canalizar a insatisfação para as urnas
É sobre essa mobilização que a oposição oficial procura se apoiar. O Partido Democrático e a Frente Verde e de Esquerda abriram mão de listas próprias para apoiar a Lista Estudantil – Os Estudantes Vencem na eleição parlamentar de 25 de outubro, segundo a revista Vreme. A concentração de 22 de outubro foi apresentada como encerramento da campanha dessa lista, cuja candidatura reúne o apoio de diferentes partidos tradicionais.
A aproximação procura reconduzir a insatisfação com o sistema político à disputa por sua administração. A amplitude da revolta, porém, ultrapassa a adesão a uma candidatura: o próprio levantamento da CRTA e de Stanford registra que o apoio aos protestos é mais amplo que o apoio político à Lista Estudantil. A força acumulada nas ruas não pode ser reduzida ao capital eleitoral de seus candidatos ou dos partidos que os apoiam.
O Estado responde com prisões e espancamentos
O regime do Partido Progressista Sérvio, encabeçado pelo ex-presidente Aleksandar Vučić, respondeu às mobilizações com prisões e espancamentos. Em 4 de julho de 2025, a Anistia Internacional e a organização Civil Rights Defenders denunciaram centenas de detenções, inclusive de secundaristas, e agressões que levaram estudantes ao hospital. Às vésperas do novo ato, em 21 de outubro de 2026, o Ministério Público anunciou cinco prisões em Novi Sad, sob a alegação de preparação de ações violentas para a eleição. Veículos ligados ao governo divulgaram imagens das detenções antes do comunicado oficial.
Como nas mobilizações da França e da Albânia, a carestia e a falta de perspectivas para a juventude se encontram com o descrédito das velhas instituições. Na Sérvia, a sucessão de marchas e bloqueios mostra a persistência dessa revolta, apesar da repressão e das tentativas de encerrá-la numa troca de governantes.
Comunistas denunciam farsa eleitoral e defendem boicote
O KR-KPJ caracteriza o Estado sérvio como uma ditadura da grande burguesia compradora-burocrática e dos latifundiários feudais, sob domínio semicolonial do imperialismo, principalmente ianque. Critica a submissão das direções pequeno-burguesas a uma fração das classes dominantes e define a oposição como “reserva do imperialismo”.
O Comitê defende o boicote, a reconstituição do Partido Comunista da Iugoslávia e a conquista de um “Poder democrático popular”. Reconhece sua influência ainda reduzida e propõe organizar as massas que rejeitam as eleições. A declaração conclui: “Eleição, não! Guerra Popular, sim!”.

No Programa e Estatuto de 2026, o KR-KPJ reafirma a necessidade de reconstituir o Partido Comunista da Iugoslávia como partido marxista-leninista-maoista, principalmente maoista, para que o proletariado conquiste a direção da revolução. O documento de princípios de 13 de outubro de 2024 reconhece os aportes do Presidente Gonzalo, chefatura do Partido Comunista do Peru (PCP) e da Revolução Peruana, a essa tarefa: atribui-lhe a construção concêntrica dos três instrumentos da revolução – Partido, Exército e Frente Única –, considerada “expressão das leis que regem a construção do Partido” e “um guia para a ação”.
No mesmo documento, o KR-KPJ ressalta o papel do PCP, sob a direção do Presidente Gonzalo, na luta pelo reconhecimento do maoismo: “A validez universal do maoismo é cada vez mais reconhecida e o maoismo conquistou para si a hegemonia no interior do Movimento Comunista Internacional”. Em sua declaração de fundação, de 5 de julho de 2024, o KR-KPJ reafirma a orientação da Liga Comunista Internacional (LCI), cuja fundação iniciou o processo de reunificação dos comunistas do mundo sob o mando e guia do maoismo.

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