
Em 22 de outubro, o ex-comandante da Polícia Militar de Rondônia (PM-RO), Régis Braguin, esteve com sua tropa de reacionários na Área Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho, para intimidar as famílias camponesas e tentar frustrar a missão de solidariedade e a assembleia com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) previstas para 23 de outubro. Segundo os camponeses, Braguin e seu bando chegaram armados, com quatro viaturas, à Vila Alípio de Freitas, onde perguntaram pelo barracão da associação. A denúncia foi apurada pela correspondência local de AND de Porto Velho, com base nos relatos dos moradores.
A assembleia deve discutir a possibilidade de regularização da área e outras reivindicações dos camponeses. Uma fonte de AND denuncia que a entrada da PM, as perguntas pelo barracão e a exibição de policiais armados nas “redes sociais” visam intimidar as massas e frustrar tanto a missão quanto a reunião com o Incra.
Derrotado na eleição para deputado federal, Braguin precisa agora apostar na carreira de influencer e intimidar camponeses para ver se arranca alguns minutos de “fama” – ou melhor, de infâmia – para retardar sua queda no ostracismo, segundo dizem os lutadores de Rondônia.
Já em seu perfil no Instagram, o ex-comandante influencer exibiu um bando de policiais armados sobre a inscrição “Estamos de volta Nova Mutum!!!”, região onde o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) sob seu comando assassinou Elias, o “Topógrafo”, e baleou sua esposa na Operação “Godos”, em 12 de novembro de 2025. O celerado Braguin incluiu a morte do camponês entre suas “neutralizações” e reivindicou o emprego de “contraguerrilha” contra famílias camponesas que lutam e produzem. Em Machadinho D’Oeste, suas hostes também assassinaram o camponês Raimundo Nonato, em 8 de agosto de 2025, na Área Valdiro Chagas, na véspera das comemorações dos 30 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina.

Um camponês denunciou ainda que, enquanto saiu para buscar uma peça para seu trator, viaturas passaram pelo local. Quando voltou, encontrou a máquina danificada e constatou o furto de suas ferramentas de manutenção. O trabalhador afirma que há testemunhas e relaciona os danos e o roubo à atuação de policiais junto ao bando que ataca as famílias. Outro relato recebido por AND também denuncia a sabotagem, afirma que a passagem dos policiais deixou vestígios e informa que há imagens e testemunhas.
O Comitê de Apoio à Luta pela Terra (CALT) convocou movimentos populares, estudantes, sindicatos e demais apoiadores para a missão de 23 de outubro, a fim de fortalecer as reivindicações das famílias, acompanhar a reunião com o Incra e dar visibilidade à luta pela permanência na terra. A organização arrecada contribuições para custear o transporte, a alimentação e as demais despesas da delegação, pela chave Pix [email protected].

A resposta da LCP ao ‘guaxebão’
Em declaração divulgada em 19 de outubro, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP) e a LCP de Rondônia e Amazônia Ocidental já haviam respondido ao fracasso eleitoral do “guaxebão”, como Braguin é conhecido entre os camponeses: “Não vai para Brasília não! Vai ter que nos aguentar!”. A organização recorda que ele iniciou a campanha eleitoral com uma peça publicitária em que disparava contra um alvo com a sigla da Liga, anunciando que iria combater o sistema que lhe assegurou “impunidade”. Braguin coloca a LCP e as famílias camponesas em luta no mesmo patamar que o CV e o PCC.
A nota adverte que a derrota do coronel não encerra a perseguição. Denuncia Bruno Scheid e Fernando Máximo, eleitos senadores por Rondônia, por impulsionarem os ataques à LCP e a ameaça de Flávio Bolsonaro, candidato de extrema direita à gerência de turno do velho Estado, de que a Liga “tem dia e hora pra acabar”. Para a organização, derrotar a extrema direita exige enfrentar o latifúndio, sua base econômica e política, e ampliar o apoio à Revolução Agrária.
Braguin, por sua vez, reafirmou em seu perfil o apoio a Flávio “Rachadinha” no segundo turno e parabenizou o governador latifundista eleito Marcos Rogério. Apresentou a patente de coronel e a passagem pelo comando-geral da PM-RO como credenciais de sua opção. “Minhas convicções permanecem firmes”, anunciou o candidato rejeitado, agora empenhado em prestigiar os celerados de extrema direita que sonham em esmagar a organização camponesa.

Pistolagem com escala e comissão
A folha de serviços do “guaxebão” já foi exposta em denúncia da LCP pelos 31 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina. A organização afirma possuir cópia de um relatório reservado da própria PM-RO e acusa Braguin de organizar escalas e folgas para empregar policiais na pistolagem de latifundiários, sobretudo em Ariquemes e Buritis. Segundo a denúncia, cobrava R$ 500 por dia para cada policial e repassava apenas R$ 200 ao agente. O coronel que atira contra a sigla da LCP para posar de combatente do crime é apontado pela Liga como organizador desse esquema criminoso. Ele não se pronunciou sobre essas acusações.
As relações entre latifundiários e policiais pagos para defender seus interesses também foram admitidas por João Martins, sobrinho de Antônio Martins dos Santos, o “Galo Velho”. Em entrevista publicada em 4 de novembro de 2025, João confirmou a contratação de policiais para proteger o patrimônio da família e despachou a responsabilidade: “Se tiver alguma coisa ilegal, é problema dos policiais com a Corregedoria deles”.
Missões documentaram crimes contra as famílias
As missões de solidariedade que a incursão procura intimidar já documentaram o terror empregado para expulsar quem trabalha na terra. Nos relatórios reunidos pela Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (ABRAPO), a entidade recupera a missão realizada de 25 a 27 de outubro de 2021 nas áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira. Participaram organizações populares, advogados, estudantes e professores, além de representantes da Comissão Pastoral da Terra e das ouvidorias das defensorias de Rondônia e do Acre.
A missão de 2021 recolheu denúncias de casas destruídas, documentos queimados, perda de alimentos e famílias abandonadas em alojamentos precários. O cerco policial prosseguiu mesmo depois da decisão que suspendeu a reintegração de posse. As famílias mantiveram sua organização e retornaram à área, frustrando a expulsão definitiva pretendida pelo latifúndio.
Em 23 de novembro de 2025, em Machadinho D’Oeste, a PM cercou uma reunião da Ouvidoria Agrária Nacional com famílias atingidas pelos despejos dos acampamentos Ipê, 1º de Maio e Harpa. Segundo nota do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, reproduzida pelo Ministério Público Federal, os participantes ficaram confinados por horas, diante do próprio ouvidor agrário nacional. A comitiva apurava denúncias de violência policial e da morte de dois camponeses.
Em nova missão, realizada em 6 de dezembro de 2025, camponeses denunciaram arrombamentos, saques e ameaças durante a Operação “Godos”, deflagrada no mês anterior. O filho de Elias relatou que os policiais atiraram antes de anunciar sua presença. Seu pai foi morto, sua mãe foi baleada e os filhos sofreram agressões e ameaças, segundo os depoimentos colhidos.
A mesma reportagem reuniu denúncias de destruição da ponte construída coletivamente pelos camponeses e, depois, da balsa usada pelas famílias. Os moradores apontaram a participação de João Martins e de policiais nos ataques. A destruição dificultou o transporte da produção e o acesso das crianças à escola. Mesmo sob as ameaças, os camponeses mantiveram o trabalho e a organização coletiva para alimentar as famílias.
A fartura das terras conquistadas pela LCP também aparece na Área Paulo Bento, em Mirante da Serra. Ali, mais de 70 famílias cultivam café, cacau, laranja e outras lavouras, além de criar aves, porcos e gado leiteiro. Os próprios camponeses construíram casas, estradas e pontes desde a conquista da área, em maio de 2017; hoje, o ônibus escolar percorre os ramais para buscar as crianças.
É essa persistência na luta, amparada por ampla solidariedade nacional e internacional, que Braguin e outros de sua estirpe fantasiam sufocar, segundo a LCP. Na nota de 19 de outubro, a LCP reafirmou que “só a Revolução Agrária derrota o latifúndio e a extrema direita” e que os assassinatos, as prisões e a campanha de criminalização e demonização do movimento camponês não deterão sua luta: “nós seguimos em frente e vamos triunfar”.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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