
O governo reacionário de Emmanuel Macron ampliou e renovou, em 20 de outubro, os toques de recolher em cidades francesas e anunciou apoio de operação de patrulhamento “antiterrorista” do Exército à polícia para a jornada de protestos do dia 24. A Juventude Comunista da França (JC) e a Federação Sindical Estudantil (FSE) denunciaram as prisões de militantes e reafirmaram a convocação às ruas. A ofensiva sucede a maior mobilização da atual rebelião popular, que levou 800 mil pessoas às ruas em 17 de outubro.
A FSE respondeu à ameaça de proibição de manifestações denunciando “uma nova agressão às nossas liberdades democráticas”. “O governo treme e é por isso que nos reprime, mas continuaremos!”, declarou. E reafirmou: “Continuamos bloqueando tudo!”.
Na França, um dos berços da democracia burguesa, o governo invoca a defesa da República para restringir o direito de manifestação e pisotear as bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade. A reacionarização e a tendência ao fascismo, que expõem a ditadura da burguesia, são expressões políticas da crise geral de decomposição sem precedentes do imperialismo. A tendência política e histórica principal deste novo período histórico, no entanto, segue sendo a revolução.
Na pesquisa Elabe para a BFMTV, divulgada em 16 de outubro, 69% dos franceses aprovavam a mobilização contra a carestia: 75% entre os operários, 77% entre os jovens de 18 a 24 anos e 79% entre quem precisava restringir gastos para fechar as contas. O apoio à mobilização secundarista e universitária era de 55%, chegando a 71% entre os jovens. Foram ouvidos 1.506 adultos da França metropolitana entre 14 e 16 de outubro.
No Barômetro da Confiança Política do Centro de Pesquisas Políticas de Sciences Po (CEVIPOF), realizado pela OpinionWay em janeiro de 2026, 76% avaliavam que a democracia funcionava mal na França, embora 82% considerassem bom um sistema político democrático. A aspiração democrática se choca com um regime que reserva o poder às classes dominantes.

JC e FSE: ‘Não deixaremos a repressão nos fazer recuar’
Em Rennes, um militante da JC e dois da FSE foram detidos na manhã do dia 20, antes do início da manifestação secundarista e universitária. Segundo comunicado conjunto, eles levavam bandeiras, faixas, um megafone e materiais de proteção; uma das sindicalistas permanecia sob custódia quando o texto foi divulgado. “Não deixaremos a repressão nos fazer recuar”, afirmaram as organizações, que exigiram a libertação dos companheiros.
Em 20 de outubro, a FSE denunciou um total de 10,5 mil detenções desde o início do movimento, algumas já seguidas de encarceramento. A organização relatou mutilações e dezenas de pessoas com fraturas e cobrou esclarecimentos sobre as duas mortes em Paris. No mesmo balanço, reafirmou a convocação para o dia 24.
Ao divulgar imagens de sua atuação em Clermont–Ferrand no dia 17, a JC denunciou dezenas de feridos por cassetetes, disparos de armas de projéteis de borracha, granadas atordoantes e gás lacrimogêneo. A resposta foi reafirmar a mobilização: “Burgueses, tremei, porque voltaremos ainda mais determinados: encontro no dia 24 de outubro!”.
O novo chamado dos coletes amarelos, apresentado como um segundo ato, já tinha 124 mobilizações previstas no mapa dos organizadores às 17h de 19 de outubro. A participação da JC e da FSE soma-se à preparação dessa jornada contra a carestia, os cortes e a repressão. Em nova publicação de 20 de outubro, a JC de Île-de-France declarou: “O dia 17 foi só o começo: somos a juventude da crise, seremos a juventude da revolução. Rebelar-se é justo!”.
Toques de recolher e Exército para conter as ruas
Os toques de recolher começaram na noite de 19 de outubro. Em Paris, a restrição à circulação abrange setores da Praça da República e de Les Halles, das 23h às 6h; a proibição de manifestações nessas áreas começa às 20h. Em Lyon, a medida atinge parte da região central, das 21h às 6h. Lille, Nice e outras cidades adotaram restrições dirigidas a menores. Em Bordeaux e Marselha, medidas para menores desacompanhados entram em vigor na noite de 20. Lecornu manteve aberta a possibilidade de recorrer ao estado de emergência.
Em 20 de outubro, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou a mobilização de militares da Operação Sentinelle, criada em 2015 para o patrulhamento “antiterrorismo”, na preparação da jornada do dia 24. Eles assumirão a guarda de prédios e pontos considerados sensíveis, liberando policiais e gendarmes para atuar nas manifestações. O dispositivo também prevê unidades especiais, helicópteros, blindados Centaure e canhões d’água. O governo estuda proibir inclusive atos previamente declarados, se considerar que os organizadores não conseguirão impedir os confrontos.
Em 19 de outubro, o Eliseu informou que Macron recusara o pedido de demissão de Nuñez. O ministro admitiu a perda de controle em grandes cidades, e a Presidência reconheceu falhas de antecipação e inteligência. Segundo o Ministério do Interior, quase mil policiais e gendarmes ficaram feridos na jornada do dia 17. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, informou no dia 19 que mais de 2.330 pessoas haviam sido colocadas sob custódia policial durante o fim de semana, 70% delas adultas.
Apavorado com a dimensão da rebelião, o cabecilha do imperialismo francês foi à televisão na noite de 18 de outubro para ladrar contra a “violência dos protestos” e anunciar mais repressão e terrorismo de Estado. No pronunciamento divulgado pelo Palácio do Eliseu, o chefete atribuiu os confrontos a “grupos da ultraesquerda e delinquentes”, cobrou punições e anunciou que os representantes do governo reacionário nas regiões poderiam proibir determinadas concentrações, em articulação com os prefeitos municipais. A velha democracia burguesa respira por aparelhos.
Embora tenha reconhecido a legitimidade das reivindicações de centenas de milhares de pessoas, Macron atacou os chamados à mobilização imediata. Invocando a eleição presidencial prevista para dali a seis meses, associou a urgência de ir às ruas e produzir desordem ao objetivo de “prejudicar a República e roubar o debate”. Para o debate político, recomendou reuniões partidárias, jornais e programas de televisão, além de concentrações pacíficas.
O apelo esbarra no resultado da própria Elabe: 65% defendiam manifestações imediatas pelo poder de compra, sem esperar pela eleição. A liberação de estoques estratégicos de combustível tampouco convencia: 88% avaliavam que a medida não aliviaria de fato o poder de compra.
O chefete do Estado francês exigiu que partidos, sindicatos e organizações patronais condenassem a violência e apelassem à calma. Ao primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, coube reunir essas entidades, estudantes e professores para formular propostas. O pronunciamento não apresentou uma resposta concreta às reivindicações sobre as condições de ensino e de vida. Já para a repressão, Macron cobrou providências de inteligência e antecipação, além de maior rigor nos processos contra os manifestantes acusados de destruição.

FSE: ‘Ele mente e não anuncia nada’
A FSE respondeu ao pronunciamento com um vídeo satírico que sobrepõe maquiagem de palhaço ao rosto de Macron. “Ele mente e não anuncia nada”, declarou. A organização denunciou o silêncio sobre as vítimas da repressão: “Nem uma palavra para as vítimas da violência policial, nem uma palavra para os mutilados”. Em seguida, condenou os elogios do chefete imperialista francês à polícia.
Em Mulhouse, o Ministério Público confirmou que uma adolescente de 17 anos perdeu definitivamente o olho esquerdo. Segundo o relato de Politis, reproduzido pela RTL, ela sequer participava da manifestação: ia comer com amigas quando foi atingida durante a dispersão policial. Foi aberta investigação por violência agravada. Em Saint–Étienne, outro jovem perdeu uma mão. O Ministério Público também investiga duas mortes registradas em Paris, em 17 e 19 de outubro. As circunstâncias seguem em investigação.
Macron atribuiu a alta dos combustíveis à guerra no Golfo Pérsico e anunciou uma viagem à região para negociar o abastecimento energético francês. A FSE rebateu a tentativa de deslocar para o exterior a responsabilidade pela deterioração das condições de vida: “Macron também tenta nos fazer acreditar que a culpa é do Oriente Médio, mas não somos ingênuos: sabemos que foram suas políticas que deixaram os serviços públicos nesse estado”.
Manchetes de caos, relatos de uma revolta de massas
Os monopólios de imprensa brasileiros deram destaque à condenação presidencial. O Estadão estampou “Macron se pronuncia após protestos na França: ‘Nada justifica’”; o g1, “Macron diz que nada justifica violência ‘desenfreada’ em protestos na França”; e a Folha de S.Paulo, “Nada justifica violência em protestos, diz Macron após dia de caos na França”.
Os próprios relatos, entretanto, registram uma revolta com reivindicações e bases sociais definidas. O g1 reconhece que a luta começou por melhorias na educação e se ampliou contra o custo de vida. A Folha aponta a incapacidade de Macron de responder à carestia e à deterioração dos serviços públicos, num país cujo orçamento sofre a pressão dos juros e do aumento dos gastos militares. No Estadão, a reportagem da AFP registra a convocação dos coletes amarelos e a presença de centenas de milhares de manifestantes.
Na França, o tabloide Journal du Dimanche publicou “17 de outubro: quando a ultraesquerda organiza o caos”. Para retratar a atuação militante como ameaça, chamou de “comissários políticos contemporâneos” os que incentivavam os manifestantes com megafones. O relato descreveu, porém, organização coletiva, divisão de tarefas e pessoas que socorriam os companheiros atingidos pelo gás lacrimogêneo, além de confrontos em Paris, Marselha, Bordeaux, Lyon e Limoges.
O rótulo de grupelhos esbarra na dimensão que os próprios representantes do Estado imperialista atribuem aos confrontos. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, falou em grupos de várias centenas e, conforme o lugar, milhares de pessoas. A explosividade se manifestou em numerosas cidades, numa jornada que reuniu a juventude, trabalhadores e coletes amarelos. A presença de militantes organizados integra essa mobilização; não explica por si só a amplitude da revolta nem elimina suas causas.
A atribuição generalizada dos confrontos à “ultraesquerda” esbarrou na própria procuradora de Paris, Laure Beccuau. Em entrevista à TF1, em 19 de outubro, ela afirmou não poder “absolutamente confirmar” esse perfil político entre os detidos na capital. Relatou que a maioria permanecia em silêncio, sem reivindicar posição política, e que havia forte presença de pessoas pouco conhecidas dos serviços policiais.

Até a versão dos serviços de inteligência difundida pela AFP, em despacho de 20 de outubro, descreve uma participação mais ampla. Uma fonte de segurança falou em jovens vindos das periferias “em grande número” e numa “aliança inédita” entre esses setores e militantes classificados como “ultraesquerda” e “extrema esquerda radical”. A própria retórica repressiva registra, assim, a aproximação entre a juventude dos bairros populares e o movimento revolucionário organizado.
O Mediapart publicou uma denúncia de manipulação dos informes policiais: um comissário da inteligência territorial afirmou ter recebido orientação para responsabilizar a França Insubmissa (LFI), organização da esquerda parlamentar, pelos protestos, embora considerasse falsa a acusação. Lecornu e Nuñez negaram ter dado essas ordens, na Assembleia Nacional, no dia 20.
A criminalização dos setores mais combativos fornece a justificativa para esse avanço reacionário. Os rótulos de “ultraesquerda” e “delinquentes”, repetidos pelos monopólios de imprensa, apresentam como ameaça policial uma contestação alimentada pela deterioração das condições de vida. Ao procurar isolar os revolucionários das massas, essa campanha trabalha para desarmar politicamente a rebelião e legitimar a supressão das liberdades em nome da defesa da própria velha democracia.
Para La Cause du Peuple, a discussão sobre a violência exige partir do caráter de classe do Estado: polícia, Exército, prisões e Justiça sustentam a dominação burguesa. “A violência se transforma em mal absoluto quando se torna instrumento político do proletariado e das massas populares”, denuncia o periódico ao expor o critério da burguesia em análise de 7 de outubro.
A seção francesa da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) já relacionava esses processos em sua declaração de 11 de outubro: “Devemos compreender que a Revolução Socialista está de volta e que veremos a grande burguesia revelar sua natureza fascista de modo cada vez mais nítido”. O documento associa a revolta ao empobrecimento das massas e aos preparativos para a guerra imperialista.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
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