
Manifestantes ergueram barricadas em Pamplona, estudantes enfrentaram a polícia na Universidade Autônoma de Barcelona e acampados defenderam a Puerta del Sol de ataques fascistas em Madri, nos protestos ocorridos na Espanha entre 12 e 20 de outubro. A luta por moradia e ensino público prosseguiu com bloqueios de vias e interrupções de eventos governamentais, enquanto as ocupações de praças da capital e de Sevilha reforçaram a preparação da greve geral de 11 de novembro.
Em 19 de outubro, centrais sindicais e organizações de inquilinos registraram a convocação da paralisação nacional para 11 de novembro. A pauta reúne moradia, salários, redução da jornada e defesa dos serviços públicos. Em Sevilha, os acampados decidiram permanecer por tempo indeterminado e organizar a adesão à greve nos bairros e locais de trabalho.
As reivindicações encontram amplo respaldo. No Barômetro de outubro do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), realizado entre os dias 1º e 6, com 5.024 entrevistas, 55,7% apontaram a moradia entre os três principais problemas do país. Para 82,3%, a prioridade deve ser seu reconhecimento como direito constitucional, enquanto apenas 11,5% preferem tratá-la como bem de mercado. A proibição dos despejos de famílias vulneráveis até 2030 recebeu apoio de 64,9%; a suspensão temporária da compra de imóveis por determinados fundos abutres e grandes investidores especulativos, de 67,1%.
O descrédito das instituições burguesas aparece em outra pesquisa do CIS, sobre a qualidade da democracia, feita de 9 a 12 de junho com 4.027 pessoas: 80,8% consideravam a democracia preferível a qualquer outra forma de governo, mas 56,9% estavam pouco ou nada satisfeitos com seu funcionamento na Espanha. Além disso, 74,1% avaliavam não ter influência sobre as decisões do governo e 78,4% discordavam de que a Justiça trate ricos e pobres igualmente. As aspirações democráticas se chocam com as instituições da velha democracia burguesa e com a exploração e opressão de classe que elas preservam.

Barricadas e enfrentamentos contra provocações fascistas
Em 19 de outubro, estudantes ocuparam a Praça Cívica da Universidade Autônoma de Barcelona e circularam pelo campus para protestar contra a tentativa de realização de um ato do agitador de extrema direita Vito Quiles. A universidade não havia autorizado a atividade, e os Mossos d’Esquadra impediram seu acesso. Quiles desistiu e transferiu a reunião com seus apoiadores para uma loja em Sabadell.
A mobilização terminou em confrontos entre estudantes e a polícia regional, com lançamento de objetos e cargas policiais. Quiles celebrou a repressão nas redes sociais.
Em 15 de outubro, em Pamplona, manifestantes ergueram barricadas com contêineres de lixo incendiados e enfrentaram a Polícia Nacional e a Polícia Foral durante protestos contra a visita de Quiles. Os confrontos se espalharam pelas ruas próximas à Praça Yamaguchi. A emissora basca EITB registrou três detenções e um homem ferido na cabeça por um projétil policial.
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Acampadas persistem e organizam a greve geral
No dia 12 de outubro, os acampados já haviam resistido a um ataque de grupos fascistas que chegaram à Puerta del Sol após o desfile militar da data. Para proteger as barracas, formaram um cordão ao redor do acampamento e responderam com a consigna “Madri será o túmulo do fascismo”. Houve confrontos nas ruas próximas à praça.
A ocupação da Puerta del Sol entrou em sua quarta semana sem ceder às pressões do governo regional para esvaziar a praça. Em 17 de outubro, a chefe do governo regional de Madri, Isabel Díaz Ayuso, mandou fechar a estação de metrô de Sol, alegando insegurança e insalubridade. Os sindicatos dos trabalhadores do metrô contestaram essa justificativa, e o acampamento permaneceu.
Em Sevilha, a assembleia manteve a ocupação de Las Setas, na Praça da Encarnação, depois que o Sindicato de Inquilinas anunciou, em 16 de outubro, que concentraria seus esforços na organização da greve nos bairros. No dia 19, os participantes reafirmaram a permanência por tempo indeterminado e aprovaram um manifesto que exige contratos de aluguel indefinidos, congelamento das hipotecas, aluguéis vinculados ao salário mínimo e proibição dos despejos por razões econômicas ou vulnerabilidade.
A porta-voz da acampada, Rebeca G. Quevedo, defendeu a organização da classe trabalhadora, incluindo os imigrantes, para paralisar a produção. “Por isso, convocamos todo o povo a se levantar”, declarou. O movimento denuncia um sistema econômico que transformou a moradia em negócio.
A crítica se dirige também ao governo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Iban Díaz, porta-voz do Sindicato de Inquilinas em Sevilha, denunciou sua falta de resposta à crise habitacional após anos no poder. A Assembleia pela Moradia reafirmou a disposição de lutar “governe quem governar” e de enfrentar o sistema capitalista e rentista. Sindicatos, associações e organizações de moradia articulam comitês nos bairros para levar a paralisação aos locais de trabalho.
A convocação registrada no dia 19 reúne a União Geral de Trabalhadores (UGT), CCOO, Confederação Geral do Trabalho (CGT), Confederação Nacional do Trabalho (CNT), Co.Bas, Intersindical, União de Atores e Atrizes, Solidariedade Operária e Confederação de Sindicatos de Inquilinas. A luta por moradia passou a compor uma pauta comum com as reivindicações salariais e trabalhistas. Em Portugal, as assembleias de Lisboa também defendem uma greve geral ibérica em 11 de novembro.

Carteiras escolares nas vias e atos do governo interrompidos
Na manhã de 19 de outubro, os grevistas interromperam uma via lateral da A-3, na altura de Moratalaz, durante o horário de maior movimento na entrada de Madri. Carteiras e cadeiras escolares formaram a barreira. O bloqueio durou cerca de meia hora e terminou com a retirada dos participantes, sem incidentes.
Em Vallecas, manifestantes cercaram o Instituto de Formação Profissional Antonio Palacios, onde a secretária regional de Educação, Mercedes Zarzalejo, participaria de uma atividade. Com faixas e sinalizadores coloridos, bloquearam a passagem de veículos e obrigaram o governo regional a cancelar o evento. A secretária vinha se recusando a receber o comitê de greve.
Depois, professores que protestavam diante da Secretaria de Educação seguiram até o Palácio de Santoña, onde Ayuso participava de um fórum. A concentração bloqueou a saída do edifício e atrasou em mais de meia hora a partida da governante. A Polícia Nacional atacou os docentes com cassetetes e escudos para abrir caminho ao carro oficial. “Somos professores, não delinquentes”, responderam os manifestantes.
Ayuso chamou os trabalhadores de “gente violenta” e os acusou de receber dinheiro dos sindicatos. Os grevistas anunciaram que seguirão a agenda das autoridades para levar suas reivindicações aos eventos oficiais. “Vamos pressionar até que se sentem para negociar”, afirmou o professor José à laSexta. “Não podemos continuar assim.”
A greve por tempo indeterminado começou em 14 de outubro. Na primeira jornada, docentes bloquearam o Paseo de la Castellana e estudantes se mobilizaram na Universidade Complutense de Madri, onde a polícia deteve cinco pessoas. O Servir al Pueblo destacou a união entre professores e estudantes contra a privatização do ensino.
Os sindicatos estimaram adesão de 50% à paralisação do dia 19. Em balanço divulgado no dia 20, a federação de educação das Comissões Operárias (CCOO) relacionou o conflito à crise da moradia: o custo de vida regional, calculado pelo sindicato como 20% superior ao de outras cidades espanholas, impede docentes de viver onde trabalham. As exigências abrangem salários, redução do número de alunos por turma, mais profissionais e recuperação das instalações escolares.
No dia 20, o comitê de greve cobrou explicações pelas agressões da véspera, que deixaram feridos, e a representação do governo central em Madri anunciou uma investigação. A repressão foi executada pela polícia subordinada ao Ministério do Interior do governo de Pedro Sánchez, do PSOE, enquanto a administração regional do Partido Popular (PP) atacava os grevistas.

LAI leva solidariedade à rebelião francesa à Puerta del Sol
A articulação internacional também ganhou expressão na praça ocupada de Madri. Em 18 de outubro, a seção da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) no Estado espanhol convocou uma concentração em solidariedade à rebelião francesa e aos presos por lutar. Cerca de 70 pessoas participaram, entre elas franceses que vivem e trabalham na Espanha, segundo o correspondente do Servir al Pueblo.
A concentração se transformou em marcha ao redor do acampamento, enquanto participantes saíam das tendas para aplaudir e se somar à solidariedade. Foram entoadas palavras de ordem em espanhol e francês. A LAI defendeu a organização independente dos trabalhadores para a greve geral, criticou a direção dos sindicatos conciliadores e convocou o boicote às eleições de 29 de novembro.
O encontro aproxima as lutas que atravessam a Europa contra a carestia, os despejos e a destruição dos serviços públicos. Ao lado das acampadas espanholas e portuguesas, as mobilizações na França, Itália e Albânia expõem a insatisfação de uma juventude à qual são negadas condições de estudar, trabalhar e morar. María González Acosta, historiadora e participante da acampada de Sol, resumiu à RTVE: “Estamos num momento de explosão”. “É uma questão material: as pessoas já não conseguem viver.”

ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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