A mudança no cenário geopolítico e comercial está levando a Europa a olhar com maior interesse para o agronegócio brasileiro. Na avaliação do primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten, a combinação entre a imprevisibilidade das políticas comerciais dos Estados Unidos, a crescente concorrência chinesa e as consequências da guerra na Ucrânia torna estratégica uma aproximação mais estreita entre Europa e América Latina. Nesse contexto, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul ganha uma dimensão que vai além da redução de tarifas: passa a ser visto também como instrumento de segurança alimentar, acesso a fertilizantes e diversificação de fornecedores.
Jetten afirmou que a Europa precisa encontrar parceiros mais previsíveis para garantir o abastecimento de alimentos e insumos agrícolas. Para o primeiro-ministro holandês, Brasil e União Europeia podem construir uma parceria capaz de transformar a região em uma potência global de produção de alimentos, aproveitando a escala agrícola brasileira e a capacidade europeia de processamento, tecnologia, logística e distribuição.
A dimensão brasileira ajuda a explicar esse interesse. O território do Brasil é cerca de 200 vezes maior que o da Holanda, enquanto sua área agrícola é quase 50 vezes superior, segundo dados citados pelo Insper Agro. Ao mesmo tempo, a Holanda possui uma das cadeias agroalimentares mais sofisticadas da Europa, com forte capacidade de importar matérias-primas, processá-las e redistribuí-las para outros mercados.
Holanda já é uma importante porta de entrada para produtos brasileiros
Os números mostram que essa relação não começa agora. Em 2025, o Brasil exportou US$ 11,74 bilhões para a Holanda, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O país foi o principal destino das exportações brasileiras dentro da União Europeia naquele período.
No conjunto da União Europeia, a importância do mercado também é expressiva. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram que as exportações agrícolas brasileiras para o bloco cresceram de US$ 12,4 bilhões em 2016 para US$ 21,8 bilhões em 2025. No mesmo período, as exportações totais brasileiras para a União Europeia passaram de US$ 27,1 bilhões para aproximadamente US$ 49,8 bilhões.
Essa relação ganha importância justamente quando o Brasil enfrenta um cenário internacional mais complexo. A China continua sendo o principal mercado do agronegócio brasileiro, mas Pequim vem adotando políticas destinadas a aumentar sua segurança alimentar e diversificar fornecedores. Nos Estados Unidos, mudanças tarifárias e regulatórias também aumentaram a incerteza para o comércio internacional.
China e Estados Unidos deixam o produtor brasileiro diante de um novo cenário
A dependência de grandes mercados tornou-se uma questão estratégica para o agronegócio brasileiro. A China representa uma parcela significativa das exportações agrícolas brasileiras, enquanto os Estados Unidos permanecem entre os principais parceiros comerciais.
Na área de carnes, por exemplo, o Brasil enfrenta simultaneamente novas barreiras e exigências em diferentes mercados. A China estabeleceu mecanismos de salvaguarda para controlar o crescimento das importações de carne bovina, enquanto a União Europeia adotou novas exigências relacionadas à produção animal. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm uma política comercial marcada por mudanças e negociações tarifárias.
Essa situação aumenta a importância da diversificação dos mercados compradores. Para o Brasil, vender para mais destinos reduz a exposição a decisões políticas ou econômicas tomadas por um único parceiro. Para a Europa, ampliar as fontes de alimentos e fertilizantes reduz a dependência de fornecedores considerados estratégicos ou instáveis.
É nesse ponto que os interesses brasileiros e europeus começam a convergir.
O acordo Mercosul–União Europeia ganha dimensão estratégica
O acordo entre Mercosul e União Europeia aparece, portanto, como uma ferramenta potencial para ampliar o comércio entre duas regiões que possuem características complementares.
O Brasil tem escala agrícola, disponibilidade de terras, produção diversificada e forte capacidade exportadora. A Europa possui mercado consumidor, tecnologia, infraestrutura logística, capacidade industrial e experiência em processamento e distribuição.
Para a Holanda, essa combinação pode ser particularmente importante. O país possui território limitado, mas transformou sua localização e infraestrutura em vantagens para o comércio internacional de alimentos. Segundo dados citados pelo Insper Agro, 69% das exportações agropecuárias holandesas tiveram como destino outros países da União Europeia entre 2000 e 2022.
A aproximação também pode atingir o setor de fertilizantes. A Europa enfrenta pressões provocadas pelos preços da energia e pelos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, enquanto o acesso a fertilizantes permanece fundamental para a produtividade agrícola.
Sustentabilidade passa a ser parte da negociação
A aproximação comercial, entretanto, não significa ausência de conflitos. A agricultura europeia enfrenta forte pressão para reduzir emissões e tornar a produção mais sustentável, enquanto os produtores brasileiros precisam atender a exigências ambientais e sanitárias cada vez mais rigorosas.
A Holanda estabeleceu como objetivo reduzir em 50% suas emissões de nitrogênio até 2030 em relação aos níveis de 1990. O setor agropecuário responde por aproximadamente metade dessas emissões no país.
Nesse cenário, tecnologia e inovação passam a ocupar posição central. O governo holandês aposta em energia verde, hidrogênio e captura de carbono para preservar sua capacidade industrial sem abandonar as metas climáticas. Um exemplo citado por Jetten é uma unidade da Yara em Sluiskil que recebeu investimento de € 200 milhões e poderá capturar até 800 mil toneladas de CO₂ por ano durante a produção de amônia.
Para o agronegócio brasileiro, a tendência significa que competitividade e sustentabilidade estarão cada vez mais conectadas. Produzir em grande escala já não será suficiente: será necessário demonstrar origem, rastreabilidade, eficiência ambiental e conformidade com padrões internacionais.
Uma oportunidade para o Mercosul
A movimentação europeia também interessa diretamente aos demais países do Mercosul. Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai possuem estruturas produtivas diferentes, mas podem se beneficiar de uma maior integração comercial com a União Europeia.
Para o bloco sul-americano, a diversificação de mercados pode reduzir a vulnerabilidade diante de mudanças nas políticas comerciais das grandes potências. Para a Europa, a aproximação oferece acesso a uma região com enorme capacidade de produção de alimentos e matérias-primas agrícolas.
O novo cenário mundial está, portanto, transformando o agronegócio em uma questão cada vez mais geopolítica. A disputa não envolve apenas quem produz mais, mas quem consegue garantir alimentos, fertilizantes, energia, tecnologia e rotas comerciais confiáveis.
Foto: Yara / Divulgação / Exame
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