A integração entre o Mercosul e a União Europeia pode abrir uma nova etapa para investimentos, modernização industrial e expansão das exportações sul-americanas, mas exigirá segurança jurídica, infraestrutura e adaptação às exigências ambientais e comerciais europeias. Essa foi uma das principais conclusões do seminário realizado na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), que reuniu empresários e especialistas para discutir os efeitos práticos do acordo.
O encontro, realizado em 25 de agosto, teve como tema “Acordo Mercosul-União Europeia – Oportunidades, Competitividade e Integração Econômica”. Entre os participantes esteve Márcio Sette Fortes, ex-diretor do Brasil no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), responsável pelas relações institucionais da Multiterminais, professor do IBMEC e integrante do Conselho Empresarial de Comércio Exterior da ACRJ. Ele fez a abertura do seminário e posteriormente mediou o painel dedicado ao agronegócio.
A discussão ocorre em um momento em que o acordo já começa a produzir efeitos comerciais. O tratado, assinado em 17 de janeiro de 2026, integra um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas, com PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. A implementação provisória avançou em maio, criando novas possibilidades para empresas dos dois blocos, embora a aplicação integral ainda dependa das etapas de ratificação previstas para o acordo.
Energia e transição tecnológica entram no centro das oportunidades
Para Sette Fortes, uma das possibilidades mais relevantes está na capacidade de o acordo estimular investimentos europeus em setores estratégicos brasileiros. A transição energética aparece como uma área particularmente promissora, sobretudo em projetos destinados à redução das emissões de carbono.
A abertura comercial também pode favorecer a circulação de máquinas, equipamentos e tecnologias industriais necessárias para modernizar empresas e ampliar a eficiência produtiva. Mas, segundo a avaliação apresentada no seminário, a concretização desses investimentos depende de regras claras e garantias capazes de proporcionar maior segurança aos investidores dos dois lados do Atlântico.
Essa perspectiva ganha importância diante do movimento empresarial europeu em direção ao Mercosul. Uma missão italiana com cerca de 200 participantes, incluindo aproximadamente 90 empresários, iniciou nesta semana uma agenda no Brasil voltada a setores como transição energética, infraestrutura sustentável, máquinas, equipamentos, tecnologias digitais, agroindústria e indústria farmacêutica.
Agronegócio terá de combinar competitividade e sustentabilidade
O agronegócio foi outro eixo central do debate. Ao mediar o painel sobre o setor, Sette Fortes participou de uma discussão que colocou em evidência os desafios para ampliar a presença dos produtores brasileiros no mercado europeu.
Entre os pontos levantados estiveram o financiamento de infraestrutura sustentável, a modernização das frotas utilizadas no campo e a redução da pegada de carbono. A questão ambiental deixa de ser apenas uma preocupação relacionada à imagem das empresas e passa a ter impacto direto sobre a capacidade de acesso aos mercados europeus.
Também foi discutida a necessidade de definir como os benefícios decorrentes da redução de tarifas serão distribuídos entre produtores, importadores e distribuidores. A discussão é relevante porque a abertura comercial não significa automaticamente que todos os integrantes da cadeia produtiva terão os mesmos ganhos.
O painel contou com a participação de Antonio Melo Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional de Agricultura e diretor-superintendente do Sebrae Rio, e Guilherme Falcão, responsável pela área de comércio internacional e serviços bancários para transações do Crédit Agricole Brasil.
A oportunidade existe, mas não será automática
Para as empresas do Mercosul, especialmente as pequenas e médias, o novo cenário representa tanto uma oportunidade quanto um desafio. A redução ou eliminação gradual de tarifas pode melhorar a competitividade de determinados produtos, mas as empresas precisarão compreender regras de origem, exigências técnicas, padrões ambientais e procedimentos aduaneiros para efetivamente aproveitar as preferências comerciais.
O governo brasileiro já disponibiliza, por meio do Siscomex, informações específicas sobre o acordo, incluindo textos oficiais e preferências tarifárias. Portal Siscomex – Acordo Mercosul-União Europeia
A ApexBrasil também lançou uma ferramenta para ajudar empresas a identificar quais produtos podem se beneficiar da redução ou eliminação gradual de tarifas e quais mercados europeus apresentam maior potencial.
Um novo ciclo para a integração entre os dois blocos
O debate realizado no Rio de Janeiro mostra que o acordo Mercosul–União Europeia começa a ser analisado não apenas como um tratado diplomático ou comercial, mas como uma plataforma para novos investimentos, transferência de tecnologia, modernização industrial e expansão das cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, os acontecimentos recentes demonstram que a abertura comercial estará acompanhada de disputas e exigências. A União Europeia, por exemplo, mantém restrições a produtos de origem animal brasileiros por questões sanitárias, enquanto negociações técnicas procuram viabilizar a retomada das exportações.
Para o Mercosul, portanto, a oportunidade criada pelo acordo dependerá da capacidade de transformar a redução de barreiras em competitividade real. Energia limpa, agroindústria, máquinas, tecnologia, infraestrutura e inovação aparecem entre os setores com maior potencial, mas empresas e governos precisarão trabalhar simultaneamente em segurança jurídica, sustentabilidade, qualidade e acesso a financiamento.
O seminário da ACRJ reforça uma mensagem central: o acordo pode aproximar dois grandes mercados, mas serão os investimentos, a preparação das empresas e a capacidade de cumprir os novos padrões que determinarão quem efetivamente conseguirá transformar essa aproximação em negócios.
Foto: Reprodução / Diário do Rio
ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
Prensa Mercosur es un diario online de iniciativa privada que fue fundado en 2001, donde nuestro principal objetivos es trabajar y apoyar a órganos públicos y privados.
- ★Brasil: Mauro Vieira reforça alianza con Singapur y acelera la aproximación del Mercosur a la ASEAN
- ★Brasil: Europa mira o agronegócio brasileiro diante da instabilidade comercial de China e Estados Unidos
- ★Argentina: Tajani elogia el rumbo económico de Milei y plantea a Italia como puente entre América Latina y Europa
- ★Paraguay: Brasil pide reducir el costo del documento para cruzar en automóvil la nueva Puente de la Integración
- ★Mercosur: un estudio del Ipea revela cómo la integración transforma la vida en las regiones de frontera


