A 61.ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM) encerró neste domingo, em Ricatla, distrito de Marracuene, província de Maputo, deixando um balanço marcado pela forte participação empresarial, pela procura de oportunidades de investimento e pela aproximação de Moçambique a mercados estratégicos de África, Ásia, Europa e América Latina.
Ao longo dos sete dias de programação, a feira recebeu aproximadamente 54 mil visitantes, promoveu 1.240 bolsas de contacto entre empresas e investidores e resultou na celebração de 105 acordos de negócios. Segundo a porta-voz da FACIM, Claire Zimba, o encontro também serviu para apresentar 23 novos produtos e serviços ao mercado moçambicano.
O resultado reforça a importância da FACIM como uma das principais plataformas de promoção comercial e atração de investimentos de Moçambique. Organizada pela Agência para a Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), a edição de 2026 teve como eixo a “Transformação Digital e Energética rumo a uma Economia Sustentável”, colocando tecnologia, energia, exportações e competitividade no centro das discussões.
Durante a feira foram realizados aproximadamente 76 seminários de investimento e quatro grandes fóruns empresariais, incluindo encontros entre Moçambique e Brasil, China e Emirados Árabes Unidos, além do Fórum de Negócios dos Pequenos Negócios da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Uma ponte entre África, Mercosul, Europa e Ásia
Um dos aspectos de maior interesse para a integração econômica internacional foi justamente a discussão sobre o papel dos países de língua portuguesa na abertura de novos mercados.
No Fórum da CPLP, realizado também no contexto dos 30 anos da organização, os participantes analisaram possibilidades de integração econômica entre os países lusófonos. Claire Zimba destacou que os países africanos da CPLP podem funcionar como porta de entrada para um mercado de aproximadamente 1,4 bilhão de consumidores, enquanto o Brasil representa uma conexão estratégica com o Mercosul e a Península Ibero-Americana, e Portugal oferece uma ligação direta com o mercado da União Europeia.
Essa dimensão torna a FACIM particularmente relevante para empresas que procuram internacionalizar suas atividades. A feira não se limita à exposição de produtos: os encontros B2B, seminários e fóruns permitem identificar compradores, fornecedores, investidores e potenciais parceiros para projetos futuros.
A participação brasileira ganhou destaque adicional porque o Brasil foi o País de Honra da FACIM 2026. Durante a programação, startups brasileiras dos setores de turismo, saúde, logística e veterinária participaram de encontros com empreendedores moçambicanos, numa iniciativa destinada a identificar oportunidades de cooperação e negócios.
Empresas procuram transformar contactos em contratos
Para pequenas e médias empresas moçambicanas, a feira representou uma oportunidade de apresentar produtos que normalmente teriam maior dificuldade para alcançar compradores nacionais e internacionais.
A Cooperativa Aliança Verde, que reúne sete empresas produtoras de licores, frutas secas, óleo de coco, farinha de malambe, mel, chás e cosméticos naturais, aproveitou a FACIM para estabelecer contactos com possíveis parceiros ligados a supermercados e distribuição. Embora nem todos os contactos tenham resultado imediatamente em contratos, a expectativa é transformar essas aproximações em negociações comerciais posteriores.
A Agronice Lda., empresa ligada ao fornecimento de insumos agrícolas e comercialização de produtos locais, também utilizou a feira para realizar reuniões B2B, apresentar soluções e estabelecer contactos com potenciais clientes. A empresa atua em Manica e no distrito de Chiúre, em Cabo Delgado.
Outro exemplo é uma empresa de consultoria sediada em Mocuba, na província da Zambézia, que apresentou serviços de topografia, estudos de impacto ambiental, arquitetura e projetos de construção civil, além de produtos agrícolas e alimentos como mel, cereais, feijão, farinhas e castanha de caju.
Tecnologia e energia entram no centro da estratégia
A edição deste ano também procurou mostrar que a transformação econômica de Moçambique passa cada vez mais pela digitalização e pela transição energética.
O programa oficial incluiu um pavilhão dedicado às comunicações e transformação digital, com foco em soluções digitais, conectividade e computação de alto desempenho. Outro espaço foi dedicado às exportações, aproximando produtores, financiadores e mercados.
O objetivo é utilizar a feira não apenas para promover empresas já consolidadas, mas também para criar condições para que pequenos produtores e novos empreendedores encontrem canais de comercialização, financiamento e parceiros tecnológicos.
Alemanha conquista o prêmio de melhor país expositor
O encerramento também foi marcado pela premiação dos melhores participantes. Na categoria de Melhor País Expositor, a Alemanha conquistou o primeiro lugar, seguida pela África do Sul, enquanto a Tailândia ficou na terceira posição. Os Emirados Árabes Unidos receberam ainda uma distinção especial pela participação na feira.
Entre as instituições públicas moçambicanas, o Ministério dos Transportes e Logística conquistou o primeiro lugar na categoria de Melhor Instituição Pública. O Ministério das Comunicações e Transformação Digital recebeu o prêmio de Instituição Pública Revelação e Excelência, enquanto o Ministério dos Recursos Minerais e Energia foi reconhecido pelo Melhor Pavilhão de Instituição Pública.
Também foram premiadas empresas, pequenas e médias empresas e províncias, levando em consideração critérios como inovação, qualidade da apresentação, informação comercial, atendimento ao público, responsabilidade social, criatividade e organização dos espaços.
O desafio agora é transformar exposição em desenvolvimento
O encerramento da FACIM deixa um desafio maior para o setor privado e para o próprio Governo: transformar os milhares de contactos realizados durante a feira em investimentos efetivos, contratos, exportações, empregos e novas cadeias produtivas.
Os números demonstram uma movimentação empresarial expressiva, mas o verdadeiro impacto da feira será medido nos próximos meses, quando os contactos realizados em Ricatla começarem — ou não — a transformar-se em negócios concretos.
Para Moçambique, a importância da FACIM está justamente nessa capacidade de conectar a produção nacional com mercados externos. Para o Mercosul, especialmente para empresas brasileiras, a presença na feira reforça a possibilidade de olhar para o país africano como uma plataforma de aproximação com mercados da África Austral e, simultaneamente, como ponto de conexão dentro do espaço econômico da CPLP.
A 61.ª FACIM encerra, portanto, com uma mensagem clara: Moçambique quer ampliar sua presença nos fluxos internacionais de comércio e investimento. A feira termina hoje, mas os negócios que começaram a ser negociados em Ricatla poderão determinar parte dos resultados econômicos dos próximos meses.
Foto: FACIM 2026 / APIEX
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