O governo dos Estados Unidos ampliou em cerca de R$ 1,2 bilhão o financiamento destinado à compra de uma mineradora brasileira de terras raras, reforçando o interesse estratégico de Washington pelos minerais considerados essenciais para a indústria tecnológica, energética e de defesa. A operação coloca o Brasil no centro da disputa internacional pelo controle de uma cadeia de fornecimento que hoje é fortemente concentrada na China.
A iniciativa está relacionada à Serra Verde, empresa responsável por uma das principais operações de terras raras em desenvolvimento no Brasil, localizada em Minaçu, no estado de Goiás. O projeto ganhou importância internacional porque reúne elementos considerados estratégicos para a produção de ímãs permanentes utilizados em motores elétricos, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e sistemas militares.
O novo aporte americano representa uma ampliação significativa do compromisso financeiro dos Estados Unidos com a operação. O objetivo de Washington é ajudar uma empresa norte-americana a avançar na aquisição da mineradora brasileira e, ao mesmo tempo, garantir maior acesso a uma fonte de minerais críticos fora da cadeia de fornecimento dominada pela China.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos fundamentais para diversas tecnologias modernas. Apesar do nome, eles não são necessariamente raros na natureza; o problema está na concentração economicamente explorável e, principalmente, na dificuldade e no custo de separá-los e processá-los.
A China ocupa uma posição dominante nesse mercado mundial, especialmente nas etapas de processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado. Essa dependência se transformou em uma questão estratégica para Estados Unidos e outros países ocidentais, que procuram diversificar suas fontes de fornecimento.
O Brasil aparece nesse cenário como um dos países com maior potencial. O território brasileiro possui importantes reservas de terras raras, mas durante muitos anos esses recursos permaneceram relativamente pouco explorados em comparação com o potencial geológico existente.
A operação em Minaçu, Goiás, tornou-se um dos principais projetos brasileiros nesse setor. A Serra Verde trabalha com depósitos de argilas iônicas, um tipo de ocorrência que pode apresentar vantagens em relação a determinados depósitos convencionais porque os elementos podem ser extraídos por processos específicos de lixiviação.
Entre os elementos de maior interesse estão neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho. Esses materiais são fundamentais para equipamentos que precisam combinar potência, eficiência e tamanho reduzido.
O interesse americano não é apenas comercial. Existe uma clara dimensão geopolítica. Os minerais críticos passaram a ser tratados como componentes de segurança econômica e segurança nacional, especialmente porque são necessários para setores militares e tecnológicos.
A disputa ganhou força depois que as relações entre Estados Unidos e China se deterioraram em áreas como comércio, tecnologia e defesa. Pequim possui grande influência sobre o mercado de terras raras e já demonstrou que pode utilizar controles de exportação como instrumento de pressão econômica.
Nesse contexto, garantir uma fonte alternativa no Brasil interessa diretamente aos Estados Unidos. O Brasil possui recursos minerais, estabilidade institucional para grandes projetos e proximidade estratégica com o mercado americano, além de uma posição geográfica que facilita a construção de cadeias de fornecimento voltadas para o continente americano.
Para o Brasil, a movimentação também representa uma oportunidade. A entrada de capital estrangeiro pode acelerar investimentos, gerar empregos e aumentar a participação brasileira em uma cadeia considerada estratégica para a economia mundial.
Mas existe uma questão ainda mais importante: não basta retirar o minério do solo brasileiro para que o país se transforme em potência de terras raras. O maior valor econômico está justamente nas etapas de processamento, separação dos elementos e fabricação dos componentes tecnológicos.
Se o Brasil exportar principalmente o minério ou concentrado e importar os produtos de maior valor agregado, continuará ocupando uma posição relativamente baixa nessa cadeia. Por isso, especialistas defendem o desenvolvimento de capacidade industrial nacional para processar terras raras e produzir materiais estratégicos.
O interesse americano pode ajudar nesse processo caso os investimentos sejam acompanhados de transferência tecnológica, infraestrutura e desenvolvimento de uma cadeia industrial no próprio Brasil. Isso poderia transformar o país de fornecedor de matéria-prima em participante de segmentos mais sofisticados da indústria.
A expansão do financiamento dos Estados Unidos ocorre justamente em um momento em que Washington tenta reduzir sua dependência de fornecedores chineses. Para os americanos, diversificar a origem das terras raras é uma questão estratégica; para o Brasil, a oportunidade consiste em negociar essa demanda internacional de forma a ampliar sua própria capacidade industrial.
O movimento também aumenta a importância de Goiás no mapa mundial dos minerais críticos. Minaçu, que durante décadas esteve associada principalmente à mineração tradicional, passa a ser observada por governos e empresas estrangeiras interessadas em garantir acesso aos recursos necessários para a economia tecnológica.
A operação coloca Brasil, Estados Unidos e China dentro de uma mesma disputa econômica global. Washington busca novas fontes de minerais estratégicos; Pequim procura preservar sua posição dominante; e o Brasil possui recursos que podem ser decisivos para o equilíbrio dessa cadeia.
Para o governo brasileiro, o desafio será aproveitar o interesse estrangeiro sem limitar o país à condição de simples exportador de recursos naturais. A existência de grandes reservas oferece uma vantagem inicial, mas transformar essa riqueza geológica em desenvolvimento econômico exige investimentos em tecnologia, processamento, indústria e formação de mão de obra especializada.
O novo aporte de recursos americanos, portanto, ultrapassa o valor financeiro da operação. Ele sinaliza que as terras raras brasileiras passaram a fazer parte de uma disputa estratégica internacional, na qual minerais aparentemente desconhecidos do grande público podem determinar a capacidade de países produzirem veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa e tecnologias de energia limpa.
O Brasil possui uma das cartas mais importantes dessa nova disputa. Resta saber se conseguirá utilizá-la para construir uma indústria nacional de alto valor agregado ou se continuará exportando recursos minerais para que outros países capturem a maior parte da riqueza gerada por eles.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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