
Ao defender a elevação dos gastos em defesa para até 2% do PIB, Celso Amorim recoloca no centro do debate uma questão sensível: como o Brasil deve se proteger em um mundo mais instável sem abdicar de escolhas históricas que moldaram sua política externa. O ponto central do argumento não é a ruptura com a Constituição de 1988, mas a adaptação a um cenário internacional radicalmente distinto daquele do fim da Guerra Fria.
Amorim é cuidadoso ao reafirmar a decisão brasileira de não desenvolver armas nucleares. Longe de ser um sinal de fraqueza, essa escolha foi estratégica: reduziu rivalidades regionais, aproximou Brasil e Argentina, viabilizou o Mercosul e permitiu que o país concentrasse esforços em agendas como o combate à fome e o desenvolvimento social. Na leitura do ex-chanceler, nuclearizar-se hoje não aumentaria a segurança nacional — ao contrário, colocaria o Brasil sob risco permanente de pressões externas e de “agressões preventivas”.
A defesa de mais recursos para o setor militar, portanto, não se confunde com militarismo. Amorim aponta para um modelo de defesa alinhado ao século XXI: sistemas antiaéreos modernos, capacidades cibernéticas, uso intensivo de drones e a consolidação de projetos estratégicos, como o submarino nuclear. Trata-se de dissuasão tecnológica e proteção da soberania, não de corrida armamentista.
Ao sugerir o patamar de 2% do PIB, Amorim dialoga com parâmetros internacionais, mas impõe uma clara: os recursos adicionais devem ser destinados exclusivamente a investimento, manutenção e operação de sistemas, evitando distorções orçamentárias. O recado é político e estratégico ao mesmo tempo — o Brasil precisa se defender melhor, mas sem abrir mão de sua tradição diplomática, de sua vocação pacífica e de sua autonomia decisória.
No fundo, a proposta revela uma visão pragmática: fortalecer a defesa nacional não para ameaçar, mas para não ser ameaçado. Em um mundo mais duro e menos previsível, essa distinção pode ser decisiva
Todas as declarações de Amorim foram feitas em uma entrevista a Revista Carta Capital.
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