
247 – As escolhas pessoais de Donald Trump para algumas das principais disputas ao Senado dos Estados Unidos se transformaram em um duro revés para o Partido Republicano nas eleições legislativas de terça-feira (3). Candidatos promovidos pelo presidente foram derrotados em três estados estratégicos, contribuindo para a conquista da maioria da Casa pelos democratas e colocando em xeque a capacidade de Trump de transferir sua popularidade aos aliados.
Segundo reportagem da agência Reuters publicada nesta quarta-feira (4), os republicanos perderam disputas na Carolina do Sul, Carolina do Norte e Texas, enquanto Mike Rogers, candidato apoiado por Trump em Michigan, aparecia atrás do democrata Abdul El-Sayed na apuração inicial. Os resultados representam um golpe na estratégia do presidente de privilegiar nomes alinhados ao movimento Make America Great Again (MAGA), mesmo quando outros republicanos apresentavam maior experiência eleitoral e estruturas políticas mais consolidadas.
As derrotas ocorreram depois de Trump participar diretamente da seleção de candidatos e pedir aos eleitores que votassem como se ele próprio estivesse concorrendo. A estratégia, entretanto, não foi suficiente para assegurar o desempenho esperado pelo Partido Republicano.
Ao longo de mais de uma década, Trump consolidou seu domínio sobre a legenda, interferindo nas eleições primárias, promovendo aliados e enfraquecendo lideranças conservadoras que demonstravam independência em relação à sua orientação política. O resultado das eleições de meio de mandato revelou os limites dessa influência diante do eleitorado mais amplo.
Texas e Carolina do Sul registram derrotas históricas
Uma das maiores surpresas ocorreu na Carolina do Sul, estado tradicionalmente republicano que não elegia um senador democrata desde 1998. Em 2024, Trump havia vencido no estado por uma diferença de 18 pontos percentuais.
Mesmo nesse cenário favorável, Darline Graham, irmã do falecido senador republicano Lindsey Graham e candidata apoiada pelo presidente, acabou derrotada pela democrata Annie Andrews.
O resultado representou uma mudança significativa no equilíbrio político estadual e demonstrou que a influência de Trump sobre as bases republicanas não foi suficiente para garantir a vitória de sua candidata.
No Texas, a derrota teve consequências igualmente expressivas. O democrata James Talarico conquistou uma cadeira no Senado que seu partido não vencia desde 1988.
Trump havia interferido diretamente na disputa interna republicana para favorecer o procurador-geral Ken Paxton, envolvido em controvérsias políticas e judiciais, em detrimento do senador John Cornyn.
Embora Cornyn também fosse aliado do presidente, dirigentes republicanos consideravam sua candidatura mais competitiva para enfrentar os democratas na eleição geral.
A aposta em Paxton terminou com uma vitória confortável de Talarico, reforçando as críticas de que as intervenções presidenciais nas primárias prejudicaram as perspectivas eleitorais do próprio partido.
Carolina do Norte amplia perdas republicanas
Na Carolina do Norte, o ex-governador democrata Roy Cooper derrotou por ampla margem Michael Whatley, antigo dirigente da estrutura nacional de campanha republicana e escolhido por Trump.
A disputa foi marcada pelas consequências de um conflito anterior entre o presidente e o senador republicano Thom Tillis, que decidiu não concorrer à reeleição após romper publicamente com Trump.
O desentendimento ocorreu quando Tillis resistiu aos cortes no Medicaid, programa de assistência médica, previstos no pacote tributário e orçamentário defendido pela Casa Branca.
Trump chegou a ameaçar apoiar um adversário do senador nas primárias republicanas, aprofundando a divisão interna da legenda.
Para Thomas Kahn, professor da American University, a interferência presidencial contribuiu diretamente para entregar a cadeira aos democratas.
“Ele essencialmente entregou essa cadeira aos democratas”, afirmou Kahn à Reuters.
O professor também avaliou que a candidatura democrata teria enfrentado um cenário diferente caso Tillis permanecesse na disputa.
“Roy Cooper não teria concorrido se Thom Tillis tivesse disputado a reeleição”, acrescentou.
Trump também enfrenta dificuldades em Michigan
Outro estado acompanhado de perto pelos dirigentes republicanos é Michigan, onde o ex-deputado federal Mike Rogers, apoiado por Trump, aparecia atrás do democrata Abdul El-Sayed nos primeiros resultados.
Até o momento retratado pela Reuters, a disputa ainda não tinha um vencedor oficialmente definido.
Caso confirmado seu triunfo, El-Sayed se tornará o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado dos Estados Unidos, acrescentando uma dimensão histórica ao resultado eleitoral.
O desempenho republicano em Michigan reforçou a percepção de que o apoio pessoal do presidente deixou de representar uma garantia de competitividade em eleições disputadas fora das primárias partidárias.
Estrategistas republicanos apontam desgaste de Trump
As derrotas ocorreram em um momento de deterioração da popularidade presidencial. Pesquisas Reuters/Ipsos indicavam que Trump chegou às eleições com índices de aprovação inferiores aos registrados depois da invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
O cenário alimentou preocupações entre dirigentes republicanos sobre a transformação do presidente em um fator de desgaste eleitoral para o partido.
Doug Heye, estrategista republicano experiente, classificou o resultado como um terremoto político associado diretamente à figura presidencial.
“Este é um terremoto de Trump”, declarou.
Segundo Heye, a insatisfação dos eleitores com o aumento dos preços, provocado pelas tarifas comerciais e pela guerra no Irã, teve papel importante no desempenho dos candidatos republicanos.
“Trump passou o ano dizendo aos eleitores o que era importante para ele, não para eles”, afirmou o estrategista.
A avaliação aponta para uma desconexão entre as prioridades políticas da Casa Branca e as preocupações econômicas da população, especialmente em relação ao custo de vida.
Trump tenta afastar responsabilidade pelas derrotas
Apesar dos resultados negativos, Trump reagiu de maneira desafiadora à divulgação dos números eleitorais.
Em uma publicação nas redes sociais na noite de terça-feira, o presidente procurou atribuir as derrotas à sua ausência nas cédulas eleitorais.
“Eu não estava na cédula e, se estivesse, teríamos vencido DE LAVADA!”, escreveu.
A declaração contrastou com o envolvimento direto do presidente nas campanhas e na escolha dos candidatos republicanos derrotados.
Um integrante da Casa Branca, ouvido pela Reuters sob condição de anonimato, defendeu a atuação presidencial e afirmou que Trump “fez um trabalho melhor promovendo muitos dos candidatos que estavam na cédula do que os próprios candidatos”.
Outro alto funcionário do governo, também sem identificação, revelou que a administração já possuía pesquisas, havia pelo menos seis semanas, indicando que os republicanos perderiam o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado.
Diante dessas projeções, Trump iniciou uma campanha nacional de aproximadamente um mês para tentar recuperar as perspectivas eleitorais de seus aliados.
A mobilização, contudo, não conseguiu impedir a perda do controle das duas Casas do Congresso, segundo o cenário descrito pela Reuters.
Interferência nas primárias aprofundou divisões
Para analistas independentes, parte das derrotas poderia ter sido evitada caso Trump tivesse adotado uma postura menos intervencionista na seleção dos candidatos republicanos.
Thomas Kahn considerou particularmente prejudicial a decisão de apoiar Ken Paxton no Texas, em vez de John Cornyn.
Na avaliação do professor, a indicação de Cornyn teria oferecido condições muito mais favoráveis para a manutenção da cadeira pelo Partido Republicano.
“Seria uma vitória praticamente garantida para os republicanos”, afirmou.
As críticas também partiram de antigos dirigentes do próprio partido.
Pat McCrory, ex-governador republicano da Carolina do Norte, afirmou que as intervenções presidenciais nas eleições primárias provocaram divisões entre os conservadores em diferentes estados.
Na Carolina do Sul, segundo McCrory, Trump entrou em confronto com dois deputados federais republicanos locais, contribuindo para enfraquecer a unidade partidária.
O embate, em sua avaliação, “realmente dividiu o partido”.
McCrory também questionou a capacidade atual do presidente de manter a conexão com os trabalhadores que constituíram uma parcela fundamental de sua base eleitoral.
“Acho que a maior força do presidente Trump era sua capacidade de se conectar com as pessoas da classe trabalhadora”, afirmou.
“Ele perdeu essa habilidade. É melhor recuperá-la para o bem do país”, acrescentou.
Resultado coloca em xeque estratégia eleitoral do MAGA
As eleições de terça-feira evidenciaram uma contradição central na estratégia republicana: embora Trump continue exercendo influência decisiva sobre a escolha de candidatos, sua capacidade de assegurar vitórias nas eleições gerais mostrou-se limitada.
Durante anos, o presidente utilizou seu peso político para impor nomes alinhados à sua agenda, frequentemente em detrimento de dirigentes partidários com experiência administrativa e histórico de vitórias eleitorais.
As disputas no Texas e na Carolina do Norte se tornaram exemplos especialmente significativos desse processo, uma vez que decisões tomadas durante as primárias alteraram o quadro de competitividade republicana.
A perda de cadeiras em estados tradicionalmente conservadores também ampliou os questionamentos sobre a eficácia de uma estratégia centrada na lealdade pessoal ao presidente.
Com os democratas assumindo o controle do Senado, o resultado eleitoral representa não apenas uma derrota para candidatos específicos, mas também um enfraquecimento da capacidade de Trump de conduzir sua agenda política no Congresso.
O revés expõe ainda as dificuldades do Partido Republicano para conciliar a influência do movimento MAGA com a necessidade de conquistar eleitores independentes e setores da população insatisfeitos com a situação econômica.
https://www.brasil247.com/mundo/trump-escolheu-candidatos-ao-senado-a-dedo-e-impos-derrota-historica-aos-republicanos/
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