
247 – A democrata Annie Andrews conquistou uma vitória histórica na Carolina do Sul ao derrotar a republicana Darline Graham na disputa por uma cadeira no Senado dos Estados Unidos, em um dos resultados mais surpreendentes das eleições legislativas realizadas na terça-feira (3). Segundo a agência Reuters, que cita projeções da imprensa estadunidense, Andrews se tornou a primeira representante do Partido Democrata a vencer uma eleição para o Senado pelo estado em 28 anos, impondo um duro revés ao presidente Donald Trump em um território tradicionalmente conservador.
O resultado ganhou ainda mais relevância porque Trump havia vencido a Carolina do Sul por uma margem de 18 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024. A vitória de Andrews, que é pediatra, ocorreu em uma disputa inicialmente considerada pouco competitiva pelos dois principais partidos, mas que se transformou em uma das principais batalhas eleitorais das últimas semanas. O desempenho democrata reflete o crescente descontentamento de parte do eleitorado com a política econômica do governo, o custo de vida e a condução da guerra contra o Irã.
Além da Carolina do Sul, os democratas conquistaram cadeiras no Senado na Carolina do Norte, em Ohio, no Kansas e no Texas, conforme projeções divulgadas pela imprensa. Os resultados representam uma mudança expressiva no cenário político estadunidense e fortalecem as perspectivas do partido de recuperar o controle do Congresso, até então dominado pelos republicanos.
Vitória democrata expõe fragilidade de candidata apoiada por Trump
A eleição na Carolina do Sul ganhou dimensão nacional depois da morte repentina do senador republicano Lindsey Graham, em julho. Trump pressionou o governador Henry McMaster a nomear Darline Graham, irmã do parlamentar falecido, para ocupar temporariamente a cadeira e posteriormente incentivou sua candidatura ao mandato completo.
Funcionária pública sem experiência em cargos eletivos, Darline enfrentou dificuldades para consolidar sua candidatura. Embora tenha derrotado o deputado federal Ralph Norman no segundo turno das primárias republicanas, realizado em agosto, não conseguiu superar as divisões internas do partido.
Norman declarou à imprensa local que votaria na candidata, mas afirmou que seus familiares não fariam o mesmo. Também se recusou a participar de eventos de campanha ao lado dela, evidenciando a resistência de setores republicanos à escolha apoiada pelo presidente.
A situação se agravou após declarações de Darline sobre temas relacionados à segurança nacional. Durante a disputa interna, ela reconheceu não estar “tão bem informada sobre segurança nacional” e afirmou que o assunto “não era a minha praia”.
As declarações alimentaram questionamentos sobre sua preparação para exercer o mandato no Senado, especialmente em um contexto de envolvimento militar dos Estados Unidos no exterior.
Republicanos gastaram US$ 27 milhões para tentar evitar derrota
A deterioração da candidatura republicana obrigou aliados do partido a mobilizar recursos financeiros expressivos para preservar uma cadeira considerada segura até poucas semanas antes da votação.
Segundo a Reuters, grupos externos ligados aos republicanos investiram aproximadamente US$ 27 milhões na disputa, enquanto organizações alinhadas aos democratas destinaram US$ 24 milhões à campanha de Andrews.
Um estrategista republicano ouvido pela agência sob condição de anonimato relatou que dirigentes partidários demonstravam preocupação crescente com a fragilidade de Darline Graham. A necessidade de deslocar recursos nacionais para uma eleição inicialmente considerada tranquila provocou frustração entre integrantes do partido.
A candidata republicana também enfrentou dificuldades para reunir apoios importantes. O líder da maioria no Senado, John Thune, não declarou formalmente seu apoio, embora tenha afirmado que ela era uma candidata forte.
Em contrapartida, Andrews recebeu um apoio bipartidário significativo: o ex-governador republicano David Beasley e o ex-governador democrata Jim Hodges anunciaram conjuntamente seu respaldo à candidatura.
Durante um debate em outubro, Darline reconheceu que não era “uma política experiente”, mas sustentou que estava “tão qualificada” quanto sua adversária para exercer o cargo.
Trump tentou salvar candidatura em meio ao crescimento democrata
Com o avanço de Andrews nas pesquisas e o aumento da competitividade eleitoral, Trump realizou um comício na Carolina do Sul na semana anterior à votação, tentando mobilizar a base republicana.
Durante o evento, Darline Graham atacou a adversária, classificando-a como “completamente maluca”.
Andrews respondeu questionando se seria loucura “querer gasolina e alimentos mais baratos”, direcionando o debate para as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias estadunidenses.
A resposta sintetizou uma das principais estratégias utilizadas pelos democratas na campanha: associar o governo Trump ao aumento do custo de vida e à insatisfação dos consumidores.
A popularidade do presidente permanecia próxima de seus níveis historicamente mais baixos, em meio às críticas à guerra contra o Irã, aos preços elevados do diesel e às dificuldades econômicas da população.
Esses fatores contribuíram para tornar competitivas disputas em estados onde os republicanos tradicionalmente mantinham vantagens expressivas.
Democratas avançam em outros estados e ameaçam maioria republicana
O resultado na Carolina do Sul integrou uma sequência de vitórias democratas em disputas consideradas decisivas para a composição do próximo Congresso.
Antes das eleições, os republicanos controlavam o Senado por 53 cadeiras a 47. Os democratas precisavam de um ganho líquido de quatro assentos para alcançar a maioria de 51 integrantes.
As projeções de conquistas democratas na Carolina do Sul, Carolina do Norte, Ohio, Kansas e Texas indicavam uma mudança substancial na correlação de forças, embora o controle definitivo da Casa dependesse da confirmação dos demais resultados.
O estrategista democrata Simon Rosenberg interpretou o desempenho eleitoral como uma rejeição ao presidente e ao movimento político que o sustenta.
“Esta noite está se transformando em um repúdio muito claro a Trump, ao MAGA e ao Partido Republicano”, afirmou.
Na Flórida, os republicanos conseguiram preservar sua cadeira no Senado, mas por uma margem menor que a esperada. A republicana Ashley Moody derrotou a democrata Angie Nixon em uma disputa mais apertada do que indicavam as expectativas iniciais.
Resultados também fortalecem democratas na Câmara
O avanço democrata não ficou restrito ao Senado. O partido também obteve resultados expressivos em disputas para a Câmara dos Representantes, inclusive em distritos redesenhados para favorecer candidatos republicanos.
Na Carolina do Norte, na Flórida e em outros estados, candidatos democratas conseguiram defender cadeiras em regiões submetidas a mudanças nos mapas eleitorais.
O partido também apresentava perspectivas de conquistar distritos anteriormente considerados seguros para os republicanos, inclusive em estados de perfil fortemente conservador.
Uma eventual recuperação do controle das duas Casas do Congresso ampliaria a capacidade dos democratas de fiscalizar a administração Trump e impor obstáculos à agenda legislativa da Casa Branca.
Dirigentes partidários já anunciaram a intenção de promover investigações rigorosas sobre integrantes do governo, membros do gabinete presidencial e empresas que fizeram concessões à administração republicana ou atenderam a exigências do presidente.
A vitória de Annie Andrews na Carolina do Sul tornou-se, assim, um dos símbolos mais expressivos da mudança no cenário eleitoral estadunidense. Ao conquistar uma cadeira que permanecia fora do alcance democrata havia quase três décadas, a pediatra demonstrou que a insatisfação com o governo Trump ultrapassou estados tradicionalmente competitivos e atingiu redutos históricos do Partido Republicano.
https://www.brasil247.com/mundo/annie-andrews-vence-para-o-senado-na-carolina-do-sul-e-encerra-dominio-de-28-anos-dos-republicanos/
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