
O mercado financeiro já deixou a disputa eleitoral para trás e voltou as atenções para a composição do quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e para as primeiras medidas econômicas que serão apresentadas, segundo Solange Srour, diretora de macroeconomia Brasil do UBS GWM.
Na avaliação da economista, a carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL), na qual o senador voltou a contestar o resultado da eleição, produz ruído político, mas não deve, por enquanto, provocar reação relevante nos preços dos ativos. “Essa carta não vai fazer preço nenhum agora”, afirmou, em declaração ao Estadão nesta quarta-feira (28).
A atenção dos investidores, segundo Solange, está concentrada principalmente nos nomes que deverão compor o novo governo e na direção que será dada à política econômica.
Mercado espera turbulência política em 2027
Isso não significa, porém, que a política tenha deixado de representar um risco para os mercados.
Solange avalia que a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário tende a ser uma fonte de volatilidade ao longo de 2027, especialmente diante da nova composição do Congresso.
“Já trabalhamos com um cenário turbulento por conta de pautas como a reforma do Judiciário e o impeachment de ministros do Supremo”, afirmou.
Na visão da economista, esse ambiente pode dificultar a aprovação de medidas mais duras no próximo ano.
“Por isso, esperamos que, se for para o governo aprovar propostas mais duras, isso aconteça ainda este ano porque, em 2027, vai ser mais difícil”, disse.
“Governar quatro anos em dois meses”
Solange defende que o governo aproveite os últimos meses de 2026 para encaminhar ao Congresso propostas consideradas mais difíceis, enquanto ainda lida com uma composição parlamentar conhecida.
“É meio que governar quatro anos em dois meses”, resumiu.
Segundo ela, a antecipação dessas discussões poderia reduzir o número de conflitos que o governo terá de enfrentar depois da posse do novo Congresso.
A economista também chama atenção para a possibilidade de judicialização de medidas que alterem regras constitucionais ou despesas obrigatórias.
“É bom tratar desses temas de forma mais apaziguadora logo, porque a gente sabe que essas medidas que implicam mudanças constitucionais serão judicializadas, porque sempre é o que acontece quando se mexe em qualquer gasto obrigatório”, afirmou.
Carta faz parte de ambiente de polarização
Solange enquadra a movimentação de Flávio como parte de um cenário político de polarização que deverá permanecer no país.
Na primeira versão da carta divulgada dos Estados Unidos, Flávio se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil. Posteriormente, republicou o documento retirando essa referência e passou a se definir como “líder do Brasil”.
O senador, no entanto, manteve no texto a acusação de fraude eleitoral, sem apresentar provas, e a intenção de comandar a oposição a partir dos Estados Unidos.
“A gente já sabe que essa pauta vai acontecer e que vai ser inflamada”, disse Solange.
Para ela, o impacto desse tipo de embate sobre empresas e ativos dependerá, entre outros fatores, da correlação de forças no Congresso.
“Mas o grau de preocupação do mercado e a reação que isso pode ter em empresas e ativos vão depender muito de quem vai ser o presidente do Senado ano que vem”, afirmou.
Na avaliação da economista, os investidores devem continuar prestando mais atenção à política econômica, à formação do governo e às decisões que possam alterar as perspectivas para juros, dívida e contas públicas do que aos episódios isolados de tensão política.
“Flávio faz parte dessa confusão política e jurídica, mas não é o único que causará turbulência”, concluiu.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
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