
Mais de 500 integrantes de forças policiais, gendarmes e militares de 19 países participaram de um exercício internacional de repressão a manifestações e operações de “controle da ordem pública” na Romênia, entre 27 de setembro e 2 de outubro. Denominado Carpathian Blue Shield 2026 (Escudo Azul dos Cárpatos), o treinamento foi organizado pela Gendarmaria Romena, com financiamento da União Europeia (UE), e incluiu simulações de dispersão de protestos, uso de gás lacrimogêneo, operações táticas e coordenação entre forças de diferentes países. O acontecimento foi repercutido em 21 de outubro pelo portal O Arauto Vermelho, a partir de uma publicação do jornal revolucionário austríaco Die Rote Fahne. O portal alemão Dem Volke Dienen também divulgou o exercício.
Realizado principalmente no Centro de Treinamento da Gendarmaria Romena, em Ochiuri, no distrito de Dâmbovița, próximo à capital Bucareste, o exercício reuniu forças de repressão da França, Alemanha, Itália, Espanha, Polônia, Turquia, Ucrânia, EUA e outros 11 países. Segundo o Ministério do Interior romeno, o treinamento buscou ampliar a capacidade de intervenção conjunta, padronizar procedimentos e preparar os participantes para operações multinacionais em situações de crise.

Gás lacrimogêneo, drones e negociador do FBI
Durante uma demonstração realizada em 1º de outubro, tropas de choque simularam operações para restabelecer a chamada “ordem pública” diante de manifestações. Segundo reportagem do monopólio de imprensa Incomod Media, agentes utilizaram equipamentos de proteção, dispositivos de intervenção e materiais de efeito irritante lacrimogêneo em cenários que reproduziam protestos e confrontos nas ruas. As manobras foram acompanhadas pelo ministro do Interior, Cătălin Predoiu, por oficiais superiores e por representantes diplomáticos estrangeiros.
O treinamento não se restringiu às formações tradicionais de dispersão de multidões. Em Dâmbovița, integrantes da Gendarmaria Romena utilizaram drones para vigilância aérea, obtenção de informações e transmissão de dados aos comandos operacionais. As atividades procuraram testar a capacidade de coordenar diferentes unidades em tempo real, combinando reconhecimento, comunicações e deslocamento de tropas.
Em Târgoviște, outra cidade da região, uma simulação realizada nas instalações de uma escola técnica mobilizou a Brigada Especial de Intervenção da Gendarmaria, militares da Bulgária e da Itália e equipes de negociação. Entre os participantes estava um negociador do Birô Federal de Investigação (FBI) do EUA, integrado a uma equipe com agentes romenos. Observadores da França, de Portugal e do Catar acompanharam as operações.
A participação ianque já havia sido anunciada antes do início do exercício. Em 25 de setembro, a imprensa romena divulgou que representantes da Força de Gendarmaria Europeia (EUROGENDFOR), do Serviço Europeu de Ação Externa e do FBI acompanhariam as manobras, organizadas para reproduzir situações de conflito numa província fictícia marcada pela instabilidade.

UE financia preparação de forças para operações internacionais
O Carpathian Blue Shield 2026 contou com apoio financeiro da Comissão Europeia, por meio da Iniciativa de Formação da União Europeia (European Union Training Initiative, EUTI). O programa integra esforços de preparação de forças policiais, militares e civis para operações vinculadas à Política Comum de Segurança e Defesa da UE.
O próprio Centro para a Perspectiva Europeia, instituição participante da EUTI, informou, em 15 de outubro, que o exercício foi concebido para simular desafios de missões internacionais e aprimorar a interoperabilidade entre forças de diferentes países. A organização destacou a importância de harmonizar procedimentos, identificar deficiências operacionais e aperfeiçoar a atuação conjunta em futuras missões.
Também estiveram representados o Centro de Excelência em Policiamento de Estabilização da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a EUROGENDFOR e a missão de parceria da União Europeia na Moldávia. A presença desses organismos evidencia a articulação entre estruturas policiais militarizadas e instituições de segurança internacional, embora o exercício tenha sido formalmente organizado pela Romênia com apoio europeu.
Em pronunciamento realizado em 1º de outubro, Cătălin Predoiu defendeu que a integração entre forças repressivas de diferentes Estados deve acompanhar a transformação das ameaças à segurança. “Os riscos estão cada vez mais interligados. Por isso, a ação das forças de ordem também deve estar interligada”, afirmou o ministro.
Predoiu sustentou ainda que o exercício teria uma dimensão “democrática”, por fortalecer a capacidade estatal de proteger a ordem e os direitos dos cidadãos. A declaração foi feita precisamente durante uma jornada de demonstrações de força na qual unidades militarizadas ensaiaram intervenções contra multidões, com equipamentos destinados à dispersão de manifestações.

Treinamento ocorre semanas após repressão a camponeses romenos
O exercício aconteceu menos de duas semanas depois de a Gendarmaria Romena reprimir uma grande manifestação de camponeses e criadores de animais na capital. Em 15 de setembro, milhares de manifestantes se concentraram nas proximidades da sede do governo, em Bucareste, contra as restrições à exportação de animais, o abate de rebanhos e a ausência de indenizações suficientes para produtores atingidos por doenças e pela seca.
As reivindicações estavam relacionadas, entre outras questões, à decisão da Comissão Europeia de prolongar até 31 de dezembro as restrições às exportações de ovelhas e cabras da Romênia, adotadas em razão de surtos de doenças animais. Os manifestantes também exigiam compensações pelos prejuízos e mudanças na atuação das autoridades sanitárias.
A mobilização terminou em confrontos com a polícia. Segundo reportagens sobre os acontecimentos, agentes empregaram gás lacrimogêneo, enquanto manifestantes derrubaram barreiras policiais e enfrentaram os cordões de segurança. A imprensa internacional registrou 26 detidos e dezenas de pessoas que necessitaram de atendimento médico. Setores da extrema direita também procuraram intervir politicamente na manifestação, sem que isso eliminasse as reivindicações econômicas apresentadas pelos produtores rurais.
A repressão aos camponeses romenos insere-se num contexto de crescente descontentamento popular com o aumento do custo de vida, as medidas de austeridade e a deterioração das condições econômicas. A Romênia atravessa uma prolongada crise política e econômica, com inflação elevada e sucessivas disputas em torno dos cortes de gastos e das restrições impostas ao orçamento público.

Rebeliões populares se alastram pela Europa
Os exercícios de preparação das forças repressivas se situam no contexto da crescente rebelião popular na Europa e em todo o mundo. A carestia, a destruição dos serviços públicos, os ataques aos direitos sociais e a preparação para a guerra imperialista alimentam protestos, greves, ocupações e enfrentamentos em diferentes países. A expansão dessas lutas, com formas e ritmos distintos conforme as contradições de cada sociedade, expressa a situação revolucionária que se desenvolve de maneira desigual em escala mundial.
Na França, a rebelião estudantil e popular levou 800 mil pessoas às ruas em 17 de outubro, segundo as organizações convocantes, e passou a reunir secundaristas, universitários, trabalhadores e coletes amarelos. Em resposta, o governo imperialista de Emmanuel Macron ampliou toques de recolher e anunciou o emprego de patrulhamento militar dito “antiterrorista” na preparação de novas operações contra manifestações. O mesmo Estado que restringe verbas para a educação mobiliza tropas para conter uma juventude que exige condições dignas de estudo e de vida.

Na Itália, a juventude ocupa escolas e ergue barricadas contra a carestia e os cortes no ensino; na Albânia, estudantes e trabalhadores enfrentam a repressão em manifestações que atingiram ministérios, bancos e tribunais. No Estado espanhol, a luta por moradia e educação avança com bloqueios de vias, acampamentos e confrontos policiais. Em cada país, reivindicações concretas se chocam com governos que respondem à insatisfação popular com novas operações repressivas.
Em Portugal, acampamentos em Lisboa e no Porto impulsionam a luta por moradia e defendem sua articulação com greves; na Bélgica, trabalhadores e estudantes protestaram contra a austeridade e enfrentaram gás lacrimogêneo e canhões d’água. A difusão das rebeliões, longe de significar que se desenvolvam de modo idêntico em todos os países, evidencia o agravamento das contradições sociais diante do qual os Estados imperialistas ampliam sua reacionarização e aperfeiçoam seus aparatos de repressão.

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