
No dia 2 de outubro, o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos e Serviços de Saúde de Juiz de Fora denunciou atrasos nos repasses da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) aos hospitais que prestam serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a entidade, os valores represados chegariam a cerca de R$ 70 milhões.
A crise levou seis hospitais conveniados ao SUS a suspender parcialmente os atendimentos eletivos: Santa Casa de Misericórdia, Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ), Hospital Ana Nery, Hospital São Vicente de Paulo, Instituto Oncológico – Hospital 9 de Julho e Ascomcer. Os atendimentos de urgência e emergência foram mantidos.
A retenção dos recursos atingiu diretamente o custeio dos serviços, com reflexos sobre medicamentos, insumos, equipamentos e pagamento dos trabalhadores. Para o povo pobre, que depende dos serviços do SUS, a crise financeira rapidamente se converte em demora, restrição de atendimento e piora de um sistema que já acumula anos de precarização.
‘Ficamos umas cinco horas sem nenhum atendimento’
Em relato exclusivo à correspondência local de AND, um morador de Juiz de Fora descreveu a situação enfrentada ao acompanhar a mãe até a Santa Casa. Ela chegou à unidade com pressão arterial em 20 por 11 e sintomas que poderiam indicar um Acidente Vascular Cerebral (AVC).
— Minha mãe tem plano, fomos à Santa Casa nessas semanas anteriores, pois a pressão dela estava 20 por 11. Muito alta, com sintomas de AVC. Ela tem uma doença autoimune, então vira e mexe temos problemas assim. Chegamos na Santa Casa às 15h e consegui voltar para casa somente meia-noite e meia. Ficamos umas cinco horas sem nenhum atendimento.
Segundo ele, depois da longa espera, a mãe teve a pressão novamente medida e recebeu medicamento, permanecendo por cerca de nove horas na unidade.
— No fim, realmente o “descaso” é pela falta de repasse. O hospital só dá atenção real a quem chega em estado gravíssimo de emergência. Agora, pessoas que chegam passando mal, com possibilidade de evoluir e morrer esperando, que lutem. […] É uma experiência que passamos por causa dessa situação, mas não vejo ninguém falando disso. Mesmo saindo em portais, tendo protestos nos hospitais e tudo mais, não vejo nenhuma responsabilização do governo municipal.
Após a paralisação e a pressão sobre a administração municipal, a Prefeitura apresentou um plano para repassar R$ 43,4 milhões às unidades hospitalares. Do valor anunciado, apenas parte corresponde aos débitos de períodos anteriores; o restante é formado por emendas parlamentares estaduais e federais.
O anúncio, portanto, não encerra a crise nem apaga os atrasos que já haviam levado hospitais a restringir serviços.
Oportunismo eleitoreiro em meio à guerra contra o povo
A crise da Saúde não aparece isolada da política aplicada pela Prefeitura sob o governo de turno de Margarida Salomão (PT), apelidada por democratas da cidade de “Margarida Thatcher”.
Nos últimos meses, diferentes setores das massas de Juiz de Fora têm enfrentado a administração municipal por ataques a direitos, abandono de bairros populares e precarização dos serviços públicos.
Em maio, servidores municipais paralisaram suas atividades e ocuparam a sede da Prefeitura contra o chamado PL “Frankenstein”, projeto denunciado pelos trabalhadores por contrariar negociações anteriores e atacar direitos da categoria.

A mesma administração que alega dificuldades para garantir o funcionamento regular dos serviços públicos tem ampliado mecanismos de vigilância e mobilizado o aparato de repressão diante da organização popular.
Esse cenário também foi visto no bairro Três Moinhos, uma das áreas mais atingidas pelas chuvas que devastaram Juiz de Fora no início do ano.
Três Moinhos: abandono também produz crise sanitária
No Três Moinhos, moradores passaram meses convivendo com lama, escombros, casas interditadas, falta de assistência e cortes no abastecimento de água. Em diversas ocasiões, moradores denunciaram à correspondência de AND que tiveram de limpar ruas, reconstruir acessos e reorganizar o bairro por conta própria.
O abandono produziu também consequências diretas para a saúde das famílias. A ausência de água, o contato constante com lama e a permanência de idosos e outras pessoas vulneráveis em uma área sem serviços básicos agravaram as condições sanitárias do bairro.
Ao mesmo tempo, a Prefeitura avançou sobre as casas com interdições e projetos de demolição, enquanto os moradores se organizavam para exigir o direito de permanecer no território.

A Prefeitura passou a apresentar o programa Compra Assistida como uma das respostas para as famílias atingidas pelas chuvas. Entretanto, moradores do Três Moinhos já denunciavam a demora, as restrições de acesso aos benefícios e a insuficiência das medidas diante da dimensão da destruição.
Em documento oficial, a própria PJF utiliza a tragédia provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul como parâmetro para destacar a rapidez de sua atuação. O texto afirma que, enquanto beneficiários da iniciativa no estado gaúcho teriam aguardado mais de um ano pela entrega dos imóveis, em Juiz de Fora o procedimento teria sido concluído em apenas quatro meses, classificado pela administração municipal como realizado em “tempo recorde”.

No documento, a comparação com o Rio Grande do Sul é utilizada pela Prefeitura para ressaltar a velocidade do Compra Assistida em Juiz de Fora. Ao mesmo tempo, moradores do próprio Três Moinhos seguem denunciando abandono, interdições e dificuldades para reconstruir suas vidas após as chuvas.
Além disso, o programa está longe de alcançar toda a população atingida. Conforme os dados apresentados pela própria Prefeitura, apenas 59 moradores do Três Moinhos foram contemplados pelo Compra Assistida, em um bairro que antes das chuvas reunia mais de 2 mil habitantes.
Mesmo o valor de até R$ 200 mil destinado à aquisição de outro imóvel foi questionado pelos moradores diante dos preços encontrados na cidade e da dificuldade de encontrar, com esse recurso, uma moradia capaz de acomodar famílias inteiras.

A política aplicada no Três Moinhos e a atual crise dos repasses da Saúde apresentam a mesma contradição: enquanto faltam recursos, assistência e respostas para necessidades elementares das massas, sobra aparato estatal para controlar, interditar e reprimir aqueles que se organizam para exigir seus direitos.

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