
A rebelião contra a carestia e a precariedade dos serviços públicos na Itália avançou com novas ocupações de escolas nesta terça-feira, 20 de outubro, após as jornadas de barricadas e enfrentamentos de 17 e 18 em Milão, Turim, Bolonha, Brescia e Bérgamo. Em Bolonha, estudantes ocuparam uma unidade do Colégio Minghetti. Em Florença, o Colégio Científico Gramsci está ocupado desde o dia 19, e secundaristas anunciaram ocupações de outras 11 escolas, segundo a emissora italiana RAI.
Na página recém-criada no Instagram, o Movimento 17 de Outubro anunciou manifestações todos os sábados, às 15h, em oito cidades, pela queda do governo de extrema direita de Giorgia Meloni. “Os violentos são vocês, que nos negaram o futuro; agora vamos tomá-lo”, afirma uma das publicações reproduzidas pelos monopólios de imprensa italianos. Milão, Bolonha, Turim, Roma, Florença, Pádua, Bari e Gênova estão na convocação.
O manifesto do movimento, divulgado nesta semana, declara: “Não confiamos nas instituições e neste governo”. O documento denuncia a restrição do direito de protestar e a resposta policial às reivindicações da juventude; também rejeita que partidos e sindicatos institucionais falem em seu nome.
O descrédito da velha democracia burguesa já aparecia antes das atuais jornadas. Na pesquisa Global Attitudes de 2026, do Pew Research Center, 62% dos italianos se declararam insatisfeitos com o funcionamento da democracia no país, contra 37% satisfeitos. O Relatório Itália 2026, do Eurispes registra confiança de apenas 26,1% no Parlamento, 32,1% no governo e 25,7% nos partidos políticos oficiais.
Entre os jovens de 18 a 24 anos ouvidos pelo Eurispes, 83,5% tinham pouca ou nenhuma confiança em receber ajuda das instituições. O próprio presidente do instituto, Gian Maria Fara, reconhece: “Os cidadãos não se abstêm porque não compreendem o valor da democracia, mas porque já não confiam que o voto mude alguma coisa”.

Meloni responde com militares e mais repressão
O balanço policial de domingo, 18, em Milão registrou 271 pessoas levadas à delegacia, 220 delas menores. Houve 32 prisões, 23 de menores, e 14 policiais feridos. O governo anunciou o envio de 500 militares para o policiamento da cidade.
Nesta terça-feira, após a reunião do Conselho de Ministros, Meloni anunciou um pacote que, segundo a RAI, estende a detenção preventiva aos menores, permite prisões com base em imagens dos atos e cria o delito de “participação violenta”. O ministro da Defesa, Guido Crosetto, classificou a revolta como “profundamente diferente do que vivemos em outras épocas” e atribuiu-a a uma suposta “guerra híbrida” pelas redes sociais.
As reivindicações publicadas pelos estudantes, entretanto, apontam responsáveis e problemas concretos: cortes no ensino, gastos militares, salários e condições de vida. A tentativa de reduzir a revolta a uma operação externa acompanha a ampliação dos instrumentos de repressão do Estado italiano.

Escolas ocupadas contra os cortes e o dinheiro para a guerra
Os Estudantes Ocupantes de Florença afirmam enfrentar “um governo que prioriza a guerra em detrimento da educação”. Em comunicado conjunto, denunciam cortes de cerca de 620 milhões de euros no ensino no triênio 2026–2028 e exigem mais verbas para as escolas e menos para o rearmamento. As 11 novas ocupações anunciadas se somam à do Colégio Científico Gramsci, iniciada em 19 de outubro.
Os estudantes descrevem salas que alagam quando chove, presença de mofo, ratos e insetos, equipamentos de climatização danificados e falta de materiais. Denunciam a precariedade dos contratos dos professores e a carência de pessoal, exigem manutenção dos edifícios e combatem o limite à presença de estudantes estrangeiros nas turmas. Também reivindicam o fim dos percursos de formação escolar em empresas, que consideram trabalho gratuito e arriscado.
Em Bolonha, os jovens bloquearam nesta manhã os acessos à unidade do Colégio Minghetti no Beco Stradellaccio, após as ocupações dos colégios Laura Bassi e Rosa Luxemburg. O coletivo vinculou o bloqueio à luta contra a guerra e a carestia e anunciou uma assembleia dos coletivos estudantis no espaço Split, para organizar a continuidade da mobilização.

Milão: barricadas e enfrentamentos na Praça do Duomo
Em Milão, mais de 5 mil manifestantes se reuniram na Praça do Duomo, onde fica a catedral da cidade, às 15h de sábado, 17, conforme o relato do portal ativista MilanoInMovimento. Estudantes e jovens trabalhadores marcharam com bandeiras palestinas, albanesas e da Resistência Antifascista italiana. A luta contra a carestia se encontrou nas ruas com a juventude mobilizada contra o genocídio na Palestina.
O portal relata que, por volta das 16h, a polícia bloqueou a marcha na Rua Broletto, fechou as saídas e avançou sobre os manifestantes, dividindo o bloco. Ao grito de “Somos todos antifascistas”, os jovens resistiram, recuaram diante das cargas e voltaram a se reunir. Os enfrentamentos se espalharam para as praças San Babila e Fontana e para a Rua Torino.
Na Praça do Duomo, os manifestantes obrigaram as tropas policiais a recuar sob o lançamento de objetos e ergueram barricadas. Houve incêndios, ataques a lojas e danos a uma viatura dos Carabineiros. A polícia empregou gás lacrimogêneo e canhões d’água. A própria agência ANSA descreveu o centro da cidade como um campo de batalha. No domingo, 18, novos grupos voltaram à região central e enfrentaram as tropas, prolongando a revolta pelo segundo dia.
Os enfrentamentos também alcançaram Turim e Bolonha. Em Turim, a juventude enfrentou os agentes nas proximidades da estação Porta Nuova, na Praça Castello e na Rua Po. Em Bolonha, houve barricadas e lançamentos de objetos contra as tropas na região da estação ferroviária; a repressão respondeu com gás e jatos d’água. As mobilizações do fim de semana também atingiram Brescia e Bérgamo.

Bloqueios de caminhoneiros atingem o abastecimento no sul
No sul, os bloqueios de caminhoneiros contra o diesel caro deixaram prateleiras e bombas de combustível vazias em Nápoles nesta terça-feira, 20. A mobilização dura uma semana e atinge centros de distribuição. Faltas de produtos também foram registradas na Sicília, Calábria e Apúlia, segundo a Associated Press.
Com o diesel cerca de um terço acima do preço anterior à guerra contra o Irã, Salvini recebeu associações de transportadores e prometeu créditos tributários para compensar os custos. Os bloqueios prosseguem.
‘Voltaremos às ruas’
A disposição de continuar aparece nos depoimentos de jovens ouvidos pela ANSA após deixarem a delegacia de Milão. “É o único jeito de sermos ouvidos”, afirmou Lallo, de 18 anos, filho de um carregador e morador da região de Lecco. Entre os entrevistados, Ale contou que o pai trabalha como mecânico por 800 euros mensais, renda com que três pessoas precisam viver. “O salário é muito baixo”, resumiram os jovens.
A rebelião italiana se soma às jornadas na França e na Albânia, em meio à expansão dos protestos por moradia e condições de vida em outros países europeus. A carestia, a preparação para a guerra e o descrédito das instituições alimentam a explosividade das massas, que desafiam nas ruas os governos e a repressão.
Aos que esperam encerrar a revolta com prisões, os jovens ouvidos em Milão responderam: “Voltaremos às ruas, e não importam as consequências”.

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