Foz do Iguaçu, no Paraná, tornou-se nesta semana um ponto de encontro para o debate sobre o futuro da formação e do trabalho técnico na América do Sul. Nos dias 10 e 11 de setembro, a cidade recebeu o Seminário Internacional dos Técnicos Industriais, SITI Mercosul 2026, promovido pela Federação Nacional dos Técnicos Industriais (FENTEC), com apoio institucional do Conselho Federal dos Técnicos Industriais (CFT). O encontro teve como eixo “Integração, Inovação e Desenvolvimento para as Profissões Técnicas no Mercosul”.
Mais do que uma reunião profissional, o seminário colocou em discussão uma questão estratégica para a integração regional: como permitir que a formação e as competências dos técnicos tenham maior reconhecimento e possam acompanhar a expansão das atividades econômicas entre os países do bloco. A proposta envolve intercâmbio de conhecimento, qualificação, valorização profissional, inovação e desenvolvimento sustentável.
Durante a abertura, o presidente do CFT, Gilberto Takao Sakamoto, defendeu a valorização dos profissionais técnicos e destacou a necessidade de ampliar o diálogo institucional para fortalecer também a indústria. O evento contou ainda com a participação do vice-presidente do CFT, João Batista Souza, e do diretor administrativo Luiz Antonio Castro dos Santos.
Um dos pontos de maior interesse para a integração profissional foi a discussão sobre a possibilidade de os técnicos ampliarem sua atuação para além das fronteiras nacionais. A assessora especial do CFT, Zilmara David Alencar, afirmou que a cooperação entre as entidades deve criar condições para que esses profissionais possam atravessar fronteiras no Mercosul e, futuramente, também ampliar oportunidades em relação à União Europeia e outros organismos internacionais, com garantias relacionadas ao trabalho decente.
A iniciativa também recuperou a trajetória da Organização Internacional dos Técnicos (OITEC). O presidente da FENTEC e da OITEC, Wilson Wanderlei Vieira, explicou que a organização nasceu justamente da necessidade de aproximar os profissionais técnicos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e criar uma representação internacional capaz de fortalecer seus interesses.
Entre os temas apresentados esteve o intercâmbio profissional no Mercosul, com participação do pesquisador Atahualpa Fidel Perez Blanchet Coelho, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Também foram discutidos os mecanismos de fiscalização do exercício profissional na Argentina e no Brasil, mostrando que a integração depende não apenas de aproximar profissionais, mas também de compreender como cada país regulamenta suas atividades.
Um dos assuntos mais diretamente relacionados às novas oportunidades regionais foi o minicurso “Georreferenciamento no Mercosul – Desafios e Oportunidades para Técnicos Industriais”, ministrado por Evandro Zanin Moura, do Conselho Regional dos Técnicos Industriais do Paraná. O tema demonstra como áreas técnicas específicas podem ganhar importância à medida que projetos de infraestrutura, território, logística e integração avançam entre os países sul-americanos.
A transformação do mercado de trabalho também esteve no centro do encontro. Foram abordados os impactos das novas formas de trabalho para o técnico industrial, além de saúde mental e inteligência emocional como novas competências para a excelência profissional. A discussão mostra que a formação técnica já não está restrita ao domínio de equipamentos e procedimentos: adaptação tecnológica, capacidade de trabalhar em ambientes internacionais e competências humanas também passam a fazer parte do perfil profissional exigido.
A energia foi outro eixo importante. Carlos David Romero Barrios, da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), empresa estatal do Paraguai, apresentou o tema “Regulação, Empregabilidade e Oportunidades para Técnicos em Eletrotécnica no Paraguai”. A uruguaia Adriana Perdomo, por sua vez, abordou o futuro da profissão técnica e a igualdade de gênero na área de eletrotécnica.
Para os profissionais paraguaios, argentinos, brasileiros e uruguaios, a discussão tem especial relevância porque o próprio desenvolvimento da integração econômica do Mercosul aumenta a necessidade de profissionais capazes de atuar em cadeias produtivas que atravessam fronteiras. O Mercosul tem como Estados Partes fundadores Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, enquanto Bolívia está em processo de incorporação plena e outros países sul-americanos participam como associados.
O encontro terminou com a leitura da chamada Carta de Foz do Iguaçu, documento que reúne propostas voltadas à valorização dos técnicos e à ampliação da cooperação entre os países do Mercosul. A carta representa, portanto, uma tentativa de transformar o debate realizado no seminário em uma agenda permanente de integração profissional.
Outro anúncio feito durante o evento também chama atenção dos profissionais brasileiros: na 7ª Semana Nacional dos Técnicos, prevista para ocorrer em Fortaleza entre 23 e 25 de setembro, o CFT informou que será assinado novo convênio com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). A proposta prevê acesso gratuito às normas técnicas para os profissionais registrados no Sistema CFT/CRTs, por tempo indeterminado, além de descontos em cursos específicos.
A importância do debate ultrapassa a categoria profissional. A modernização industrial, a expansão da infraestrutura, a transição energética, a digitalização e o avanço de novas tecnologias estão criando uma demanda crescente por trabalhadores com formação técnica especializada. O próprio CFT vem defendendo que os técnicos tenham maior protagonismo diante das transformações provocadas pela inteligência artificial e pela busca por eficiência nos processos produtivos.
O SITI Mercosul 2026 deixa, assim, uma mensagem que interessa diretamente ao futuro econômico da região: a integração não depende apenas de acordos comerciais e circulação de mercadorias. Ela também precisa aproximar conhecimentos, qualificações e profissionais.
A partir de Foz do Iguaçu, uma cidade brasileira situada no coração da região trinacional, o debate coloca os técnicos no centro de uma discussão maior sobre competitividade, mobilidade profissional e desenvolvimento do Mercosul. Se as propostas avançarem, a formação técnica poderá se tornar um dos instrumentos para aproximar ainda mais os mercados de trabalho dos países sul-americanos.
Foto: Rafael Lopes / CFT
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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