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O alerta do instituto americano precisa ser entendido dentro da prรณpria histรณria do Mercosul. O bloco nasceu em 1991, com o Tratado de Assunรงรฃo, em um perรญodo no qual Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai buscavam transformar a aproximaรงรฃo econรดmica em uma estrutura permanente de integraรงรฃo. Ao longo das dรฉcadas seguintes, o comรฉrcio intrabloco cresceu mais de dez vezes entre 1991 e 2024, segundo o PIIE, e o Mercosul conseguiu formar um importante nรบcleo industrial integrado, apesar das sucessivas crises econรดmicas e polรญticas enfrentadas pelos paรญses membros.
O problema atual, portanto, nรฃo รฉ simplesmente uma divergรชncia entre dois presidentes. O que estรก em jogo รฉ o funcionamento de uma estrutura construรญda ao longo de mais de trรชs dรฉcadas. O Mercosul funciona como uma uniรฃo aduaneira, com uma Tarifa Externa Comum destinada a estabelecer condiรงรตes semelhantes para produtos provenientes de paรญses de fora do bloco. Essa lรณgica permite que uma mercadoria importada por um membro possa circular posteriormente pelo mercado regional sem que o sistema seja constantemente refeito em cada fronteira.
ร justamente esse mecanismo que comeรงa a ser pressionado pelo novo relacionamento comercial entre Argentina e Estados Unidos. Segundo o PIIE, o acordo bilateral negociado pelo governo de Javier Milei prevรช a retirada de tarifas americanas sobre 1.675 linhas tarifรกrias argentinas e eleva para 100 mil toneladas a cota de carne bovina argentina com acesso ao mercado dos Estados Unidos. Em contrapartida, a Argentina concederia acesso preferencial a aproximadamente 200 linhas tarifรกrias de produtos americanos.
A questรฃo central para o Brasil estรก no tratamento diferente que passa a existir entre os dois maiores integrantes do Mercosul. Se determinados produtos americanos puderem entrar na Argentina com tarifas preferenciais, mas continuarem sujeitos a tarifas significativamente superiores no Brasil, surge um problema dentro da prรณpria lรณgica da uniรฃo aduaneira.
Na prรกtica, um produto americano poderia ingressar na Argentina pagando uma tarifa reduzida e, posteriormente, ser encaminhado ao mercado brasileiro. Para impedir esse tipo de triangulaรงรฃo, o Brasil teria de reforรงar controles de origem, certificados e inspeรงรตes nas fronteiras internas. Isso representaria justamente o oposto do objetivo de uma uniรฃo aduaneira: em vez de facilitar a circulaรงรฃo, seria necessรกrio aumentar a fiscalizaรงรฃo para impedir que diferenรงas tarifรกrias criassem uma porta de entrada indireta para produtos americanos.
O governo brasileiro jรก demonstrou preocupaรงรฃo com esse risco. Em marรงo, a discussรฃo em Brasรญlia passou a envolver justamente a compatibilidade das reduรงรตes tarifรกrias negociadas entre Argentina e Estados Unidos com as regras da Tarifa Externa Comum do Mercosul e com as exceรงรตes que os paรญses membros podem adotar individualmente.
O problema รฉ ainda maior porque o Mercosul possui regras para negociaรงรตes comerciais com terceiros paรญses. A lรณgica estabelecida pelo bloco รฉ que os acordos externos sejam negociados conjuntamente, justamente porque a forรงa de negociaรงรฃo de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai รฉ muito maior quando os quatro atuam como um mercado integrado.
Quando um dos integrantes passa a negociar individualmente com uma grande potรชncia econรดmica, o poder de barganha coletivo diminui. ร esse ponto que preocupa especialmente o PIIE: se a exceรงรฃo argentina for aceita sem consequรชncias, outros membros poderรฃo concluir que tambรฉm podem negociar individualmente e, pouco a pouco, transformar a uniรฃo aduaneira em uma estrutura cada vez mais flexรญvel e menos integrada.
O cenรกrio fica mais complexo porque o Mercosul justamente comeรงou a ampliar sua agenda externa. O acordo comercial interino entre Uniรฃo Europeia e Mercosul passou a ser aplicado provisoriamente em 1ยบ de maio de 2026, criando novas condiรงรตes para comรฉrcio e investimentos entre os dois blocos. A Uniรฃo Europeia tambรฉm informa que determinados produtos tiveram tarifas reduzidas desde o primeiro dia da aplicaรงรฃo provisรณria.
Esse movimento europeu รฉ estratรฉgico porque representa uma alternativa ร dependรชncia de mercados individuais. O Mercosul tambรฉm mantรฉm negociaรงรตes ou processos relacionados a outros parceiros, incluindo EFTA, Canadรก e Japรฃo. Para o PIIE, quanto mais dรบvidas existirem sobre a continuidade do Mercosul como uniรฃo aduaneira, menor serรก o incentivo para parceiros externos negociarem longamente com um bloco cuja capacidade de manter compromissos conjuntos possa ser questionada.
Existe, portanto, uma contradiรงรฃo importante. De um lado, os paรญses do Mercosul precisam diversificar mercados em um momento de aumento do protecionismo internacional. De outro, a diversificaรงรฃo pode ser prejudicada se cada paรญs decidir buscar acordos individuais, porque a fragmentaรงรฃo reduz justamente o poder de negociaรงรฃo que o bloco oferece.
A pressรฃo americana acrescenta uma dimensรฃo geopolรญtica a esse processo. A polรญtica comercial de Washington nรฃo estรก tratando Brasil e Argentina da mesma maneira. Segundo o PIIE, os produtos brasileiros chegaram a enfrentar uma tarifa de 50% em 2025 e, depois de mudanรงas jurรญdicas e polรญticas, passaram a estar sujeitos a novas tarifas fundamentadas em diferentes instrumentos da legislaรงรฃo comercial americana. A Argentina, por outro lado, recebeu tratamento tarifรกrio mais favorรกvel dentro de seu novo acordo bilateral com Washington.
Essa assimetria nรฃo รฉ apenas econรดmica. Ela tambรฉm produz incentivos polรญticos. O governo de Javier Milei possui uma relaรงรฃo muito mais prรณxima com a administraรงรฃo de Donald Trump do que a mantida pelo governo de Luiz Inรกcio Lula da Silva. Ao mesmo tempo, Brasil e Estados Unidos atravessam uma fase de forte tensรฃo comercial, enquanto Brasรญlia procura defender seus interesses por meio de negociaรงรตes e mecanismos multilaterais, inclusive no รขmbito da Organizaรงรฃo Mundial do Comรฉrcio.
A dimensรฃo financeira tambรฉm aparece na anรกlise do PIIE. O instituto lembra que, em outubro de 2025, o Tesouro americano disponibilizou uma linha de swap de US$ 20 bilhรตes para a Argentina, em um movimento interpretado como apoio ร estabilidade financeira do governo Milei. Para o instituto, esse tipo de apoio reforรงa a proximidade entre Washington e Buenos Aires e pode influenciar as decisรตes argentinas dentro do Mercosul.
Ao mesmo tempo, a Argentina precisa equilibrar sua aproximaรงรฃo com os Estados Unidos com sua dependรชncia econรดmica do mercado regional. O Brasil continua sendo um dos principais destinos das exportaรงรตes argentinas e um dos maiores mercados para produtos industriais daquele paรญs. Por isso, uma ruptura profunda com o Mercosul poderia produzir custos econรดmicos relevantes tambรฉm para Buenos Aires.
Essa รฉ uma das principais razรตes pelas quais o debate nรฃo pode ser reduzido a uma escolha entre ยซEstados Unidos ou Mercosulยซ. Para a Argentina, o desafio รฉ aproveitar a abertura de mercado proporcionada pelos Estados Unidos sem destruir as vantagens comerciais que possui dentro da Amรฉrica do Sul.
Para o Brasil, a situaรงรฃo รฉ igualmente delicada. O paรญs possui interesse em preservar o Mercosul porque o bloco amplia sua capacidade de negociaรงรฃo internacional e oferece uma plataforma para acordos comerciais. Ao mesmo tempo, Brasรญlia precisa impedir que uma polรญtica tarifรกria individual de outro membro produza distorรงรตes dentro do mercado brasileiro.
A questรฃo ganha ainda mais peso porque 2026 รฉ ano eleitoral no Brasil. As eleiรงรตes presidenciais de outubro poderรฃo alterar profundamente a relaรงรฃo de Brasรญlia com Buenos Aires e com Washington. O PIIE considera que nenhum dos cenรกrios eleitorais mais provรกveis oferece uma soluรงรฃo simples para a crise do bloco.
Se Lula for reeleito, รฉ provรกvel que o Brasil continue defendendo uma estrutura mais integrada do Mercosul e uma polรญtica externa voltada ร diversificaรงรฃo de parceiros, enquanto as diferenรงas com o governo Milei poderรฃo permanecer. Caso a oposiรงรฃo de direita conquiste a Presidรชncia, porรฉm, a posiรงรฃo brasileira sobre o futuro do bloco poderรก sofrer uma mudanรงa significativa.
O PIIE chama atenรงรฃo especialmente para declaraรงรตes de Flรกvio Bolsonaro, que, durante as discussรตes tarifรกrias nos Estados Unidos, defendeu uma maior liberdade para o Brasil negociar diretamente com Washington e citou o acordo entre Argentina e Estados Unidos como exemplo. Segundo a anรกlise, uma eventual convergรชncia entre os governos argentino e brasileiro em favor de uma flexibilizaรงรฃo profunda do Mercosul poderia produzir uma transformaรงรฃo estrutural no bloco.
Isso mostra que o futuro do Mercosul poderรก depender nรฃo apenas das relaรงรตes entre os governos atuais, mas tambรฉm do resultado das eleiรงรตes brasileiras e argentinas e da direรงรฃo polรญtica que os dois maiores membros escolherem nos prรณximos anos.
Hรก, entretanto, uma questรฃo que permanece acima das disputas eleitorais: a capacidade de negociaรงรฃo internacional do Mercosul. O acordo com a Uniรฃo Europeia รฉ um exemplo claro. A aplicaรงรฃo provisรณria comeรงou em maio de 2026, mas a estrutura completa ainda depende de etapas institucionais europeias para sua conclusรฃo definitiva.
Para empresas brasileiras, argentinas, paraguaias e uruguaias, a previsibilidade รฉ tรฃo importante quanto a reduรงรฃo de tarifas. Investimentos industriais, cadeias de fornecedores e decisรตes de localizaรงรฃo dependem da confianรงa de que as regras comerciais permanecerรฃo relativamente estรกveis. Se as regras do bloco comeรงarem a mudar conforme cada governo negocia individualmente com grandes potรชncias, as empresas poderรฃo passar a incorporar mais riscos e custos ร s suas decisรตes.
Esse efeito pode ser particularmente importante para a indรบstria automotiva, mรกquinas, equipamentos, alimentos processados, produtos quรญmicos e outros setores que dependem de cadeias produtivas regionais. A integraรงรฃo construรญda entre Brasil e Argentina ao longo de dรฉcadas nรฃo desapareceria de um dia para o outro, mas poderia se tornar gradualmente menos eficiente.
O mesmo vale para o Paraguai e o Uruguai. Embora sejam economias menores, ambos se beneficiam da existรชncia de um mercado regional integrado e de uma estrutura que lhes permite negociar ao lado das duas maiores economias sul-americanas. Uma fragmentaรงรฃo do Mercosul reduziria proporcionalmente ainda mais seu poder de negociaรงรฃo internacional.
Hรก ainda a disputa global por influรชncia. A Amรฉrica do Sul tornou-se novamente uma regiรฃo estratรฉgica para Estados Unidos e China, especialmente por causa de alimentos, energia, minerais crรญticos, infraestrutura e novas cadeias de abastecimento. O Mercosul pode negociar com essas potรชncias como um bloco ou permitir que cada paรญs estabeleรงa relaรงรตes separadas.
A primeira opรงรฃo oferece maior poder de barganha. A segunda oferece maior liberdade individual, mas tambรฉm aumenta a dependรชncia de cada paรญs em relaรงรฃo ao parceiro mais poderoso.
ร justamente nesse ponto que o alerta do PIIE ganha maior dimensรฃo. O problema nรฃo seria simplesmente o desaparecimento formal do Mercosul. Os paรญses nรฃo precisam necessariamente anunciar sua saรญda do bloco para enfraquecรช-lo. Bastaria que as regras comuns deixassem de ser respeitadas, que os acordos externos passassem a ser negociados individualmente e que a Tarifa Externa Comum perdesse progressivamente sua funรงรฃo.
Antes, o Mercosul enfrentava crises econรดmicas, divergรชncias ideolรณgicas e disputas comerciais, mas seus integrantes continuavam reconhecendo a importรขncia estratรฉgica da integraรงรฃo. Agora, a combinaรงรฃo entre divergรชncia polรญtica entre Lula e Milei, pressรฃo tarifรกria dos Estados Unidos, aproximaรงรฃo argentina com Washington e competiรงรฃo geopolรญtica entre Washington e Pequim cria uma pressรฃo diferente.
No presente, o bloco ainda possui instrumentos importantes. O comรฉrcio regional continua relevante, o acordo com a Uniรฃo Europeia entrou em aplicaรงรฃo provisรณria e existem negociaรงรตes externas que podem ampliar o acesso dos quatro paรญses a mercados internacionais. ๎
O futuro, porรฉm, dependerรก de uma decisรฃo polรญtica fundamental: se os governos pretendem utilizar o Mercosul como uma plataforma coletiva para negociar com Estados Unidos, Uniรฃo Europeia, China, Japรฃo, Canadรก e outros parceiros, ou se cada paรญs passarรก a buscar individualmente suas prรณprias vantagens.
A crise atual, portanto, pode representar tanto uma ameaรงa quanto uma oportunidade. Se Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai conseguirem estabelecer regras claras para acordos individuais, preservar a Tarifa Externa Comum e manter uma estratรฉgia conjunta de abertura comercial, o Mercosul poderรก sair fortalecido. Se, ao contrรกrio, as exceรงรตes se multiplicarem e os acordos bilaterais substituรญrem progressivamente a polรญtica comercial comum, o bloco poderรก permanecer formalmente existente enquanto perde, pouco a pouco, sua principal funรงรฃo econรดmica.
O debate deixou de ser apenas sobre tarifas. ร uma discussรฃo sobre qual modelo de integraรงรฃo a Amรฉrica do Sul pretende ter diante de um mundo marcado por protecionismo, rivalidade entre grandes potรชncias e disputa por mercados. Para o Brasil, especialmente, preservar um Mercosul funcional significa manter uma das principais ferramentas disponรญveis para ampliar sua inserรงรฃo internacional sem depender exclusivamente das decisรตes comerciais de Washington ou Pequim.
O alerta do Peterson Institute for International Economics coloca essa escolha de maneira direta: o Mercosul nรฃo precisa desaparecer oficialmente para perder sua relevรขncia. Se suas regras forem continuamente contornadas e seus integrantes deixarem de negociar como um conjunto, a uniรฃo aduaneira poderรก ser esvaziada por dentro. ร essa possibilidade, mais do que uma ruptura formal imediata, que passa a representar o maior risco para o futuro do bloco.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileรฑo, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integraciรณn regional, geopolรญtica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el รกmbito de la comunicaciรณn internacional.
Posee un Mรกster en Desarrollo y Cooperaciรณn Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, acadรฉmicas y diplomรกticas en Amรฉrica Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrรณfono de Oro de la Asociaciรณn Nacional de Locutores de Mรฉxico (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional Mรฉxico Blanco (2020) y el tรญtulo de Amigo de la Niรฑez y la Adolescencia.
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