O mercado brasileiro de tecnologia atravessa uma fase de forte valorização profissional, combinando salários que podem chegar a R$ 53,6 mil mensais em posições executivas, crescimento da demanda empresarial e uma escassez significativa de trabalhadores qualificados. Um levantamento realizado pelo Inteli, instituto de tecnologia e liderança, em parceria com a consultoria WKS e divulgado pelo g1, mostra que entre 2019 e 2024 o mercado demandou aproximadamente 665 mil profissionais de tecnologia, enquanto a oferta de novos trabalhadores ficou em torno de 464 mil, produzindo um déficit estimado de 30,2%. O cenário ajuda a explicar por que empresas de bancos, indústria, varejo, hospitais, agronegócio e serviços passaram a disputar os mesmos especialistas. Ao mesmo tempo, outro levantamento utilizado como referência salarial, o Guia Salarial 2026 da Robert Half, mostra que cargos como CIO, CSO e CTO estão entre os mais bem remunerados do setor, enquanto áreas como dados, segurança da informação, desenvolvimento, cloud e inteligência artificial continuam ganhando importância estratégica.
A transformação é particularmente relevante porque a tecnologia deixou de ser um departamento restrito às empresas de informática. Hoje, praticamente qualquer organização de médio ou grande porte depende de sistemas digitais para operar, vender, processar pagamentos, proteger dados, administrar funcionários, controlar estoques e tomar decisões.
O levantamento divulgado pelo g1 indica que o setor de tecnologia já representa aproximadamente 6,5% do Produto Interno Bruto brasileiro, o que demonstra a dimensão alcançada pela atividade. A disputa por especialistas ocorre justamente porque empresas de setores completamente diferentes passaram a procurar profissionais com competências semelhantes.
A pesquisa do Inteli analisou 72,7 mil anúncios de emprego publicados entre abril e junho de 2025 e, depois de aplicar filtros metodológicos, chegou a uma amostra de 19.655 vagas de tecnologia. O objetivo foi identificar não apenas quais profissionais recebem mais, mas também quais competências estão sendo efetivamente procuradas pelas empresas.
O resultado desmonta parcialmente uma percepção que se consolidou nos últimos anos: a de que inteligência artificial seria praticamente sinônimo de emprego em tecnologia. Embora a IA esteja entre as áreas mais estratégicas e tenha enorme potencial de crescimento, a maior parte das contratações ainda está concentrada em funções tradicionais que sustentam a infraestrutura digital das empresas.
Segundo o levantamento, 35,7% das oportunidades estavam relacionadas ao desenvolvimento de software, enquanto 23,2% correspondiam a infraestrutura e suporte. Dados e inteligência artificial representaram 17,7%, projetos e gerenciamento ficaram com 12,9%, testes e controle de qualidade com 5,7% e segurança da informação com 2,5%.
Isso significa que a expansão da inteligência artificial não eliminou a necessidade de programadores, especialistas em infraestrutura, profissionais de redes, segurança e administradores de sistemas. Pelo contrário: quanto mais uma empresa utiliza IA e serviços digitais, maior tende a ser sua dependência de servidores, bancos de dados, redes, cloud computing, integração de sistemas e proteção cibernética.
As dez carreiras mais valorizadas
O ranking salarial apresentado a partir dos dados do mercado mostra que os maiores valores estão concentrados principalmente em posições de liderança e gestão. Os salários indicados representam o 75º percentil, ou seja, profissionais com experiência elevada, especializações e domínio das competências exigidas para a função. Não significa que todo trabalhador daquela profissão receberá esses valores.
1. CIO — Chief Information Officer: até R$ 53,6 mil mensais.
O CIO é o executivo responsável pela estratégia de tecnologia da informação da organização. Seu trabalho vai muito além de administrar computadores ou sistemas: envolve definir investimentos tecnológicos, coordenar transformação digital, governança, infraestrutura, segurança e alinhamento entre tecnologia e estratégia empresarial.
A faixa salarial divulgada pela Robert Half vai de R$ 32 mil a R$ 53,6 mil mensais, dependendo da experiência e do nível profissional.
2. CSO — Chief Security Officer: até R$ 52,5 mil.
A segunda posição mostra uma mudança importante no mercado. Segurança da informação deixou de ser uma preocupação exclusivamente técnica e passou a fazer parte da estratégia empresarial.
O CSO coordena políticas de segurança, gestão de riscos, proteção de dados e resposta a incidentes. A remuneração pode chegar a R$ 52,5 mil mensais no nível superior da faixa pesquisada.
3. CTO — Chief Technology Officer: até R$ 49,5 mil.
O CTO é responsável pela direção tecnológica e pela inovação da empresa. Em companhias digitais, pode participar diretamente da criação de produtos, arquitetura de software, escalabilidade dos sistemas e adoção de novas tecnologias.
A faixa chega a R$ 49,5 mil mensais, colocando o cargo entre as posições mais valorizadas do mercado brasileiro.
4. Gerente de Dados: até R$ 37,9 mil.
O crescimento dessa profissão está diretamente ligado ao aumento da quantidade de informações produzidas pelas empresas.
O gerente de dados coordena estratégias de governança, qualidade, armazenamento, segurança e utilização das informações. A remuneração pode alcançar aproximadamente R$ 37,9 mil mensais.
5. Gerente de Segurança da Informação: até R$ 37,2 mil.
Essa função ocupa posição cada vez mais estratégica diante do crescimento dos ataques cibernéticos, vazamentos de dados, fraudes digitais e exigências regulatórias.
O profissional precisa combinar conhecimento técnico com gestão de equipes, análise de riscos e planejamento de segurança. A faixa superior chega a aproximadamente R$ 37,2 mil mensais.
6. Gerente de TI Generalista: até R$ 35 mil.
Esse profissional administra diferentes áreas de tecnologia dentro de uma organização. Pode atuar sobre infraestrutura, sistemas, equipes, fornecedores, orçamento e projetos.
Sua importância aumenta principalmente em empresas que precisam integrar diversas áreas tecnológicas sem necessariamente manter uma estrutura altamente fragmentada.
7. Gerente de Desenvolvimento: até R$ 35 mil.
O gerente de desenvolvimento coordena equipes responsáveis pela criação e evolução de softwares e aplicações.
Além de conhecimento técnico, precisa dominar gestão de pessoas, planejamento, arquitetura de sistemas, metodologias de desenvolvimento e controle de projetos. A remuneração superior chega a aproximadamente R$ 35 mil.
8. Gerente de Sistemas: até R$ 33,8 mil.
A função está relacionada à administração e integração dos sistemas utilizados pelas organizações.
O profissional precisa garantir que diferentes plataformas funcionem de maneira integrada, confiável e segura. Em grandes empresas, uma falha de sistemas pode interromper operações inteiras, o que explica a valorização dessa posição.
9. Gerente de Business Intelligence: até R$ 32,5 mil.
O gerente de BI transforma dados empresariais em informações úteis para decisões estratégicas. É responsável por projetos de análise, indicadores, dashboards e relatórios.
A função ganhou importância porque as empresas não querem apenas armazenar dados: precisam transformá-los em decisões comerciais, financeiras e operacionais. A faixa superior chega a aproximadamente R$ 32,5 mil mensais.
10. Gerente de Infraestrutura: até R$ 27,9 mil.
Fecha o ranking uma profissão que continua sendo fundamental mesmo em meio ao avanço da inteligência artificial.
O gerente de infraestrutura administra servidores, redes, ambientes computacionais, disponibilidade dos sistemas e, cada vez mais, serviços de computação em nuvem. A faixa superior indicada pelo levantamento chega a aproximadamente R$ 27,9 mil.
O que explica salários tão altos?
A resposta está principalmente na combinação entre escassez de profissionais e aumento da responsabilidade tecnológica das empresas.
Quando uma empresa não consegue encontrar rapidamente um especialista capaz de administrar uma infraestrutura crítica, proteger seus dados ou liderar uma transformação digital, o custo de encontrar esse profissional aumenta.
É uma lógica clássica de mercado: quando a demanda cresce mais rapidamente do que a oferta de trabalhadores qualificados, a remuneração tende a subir.
O déficit de 30,2% identificado entre demanda e formação de profissionais ajuda a explicar esse fenômeno. Entre 2019 e 2024, foram necessários aproximadamente 665 mil profissionais, enquanto a oferta de novos trabalhadores chegou a apenas 464 mil.
Mas existe outro fator: experiência.
Um profissional que conhece uma linguagem de programação pode ser relativamente comum. Já alguém capaz de administrar uma infraestrutura crítica, liderar dezenas de profissionais, negociar contratos milionários, proteger informações sensíveis e tomar decisões tecnológicas que afetam toda uma empresa é muito mais raro.
É justamente essa combinação que leva as remunerações para níveis muito superiores.
Inteligência artificial não significa apenas trabalhar com IA
A pesquisa também revela uma diferença importante entre o que as pessoas imaginam e o que as empresas realmente estão contratando.
Entre os profissionais ouvidos pelo estudo, 79% consideraram inteligência artificial a área mais relevante do mercado atualmente. Entretanto, quando os pesquisadores observaram as vagas efetivamente abertas, o maior volume continuava concentrado em desenvolvimento, infraestrutura e suporte.
Isso demonstra que a inteligência artificial está funcionando, neste momento, mais como uma camada transversal da economia digital do que como uma única profissão isolada.
Uma empresa que implanta IA precisa de especialistas em dados. Esses especialistas precisam de bancos de dados. Os bancos precisam de infraestrutura. A infraestrutura necessita de segurança. Os sistemas precisam de desenvolvedores. E todos esses componentes precisam ser administrados.
Por isso, a expansão da IA pode acabar aumentando a demanda por diversas profissões que não possuem necessariamente «inteligência artificial» no nome.
As competências que mais abrem portas
Os levantamentos salariais indicam que algumas competências aparecem repetidamente entre as mais procuradas: cloud computing, ciência de dados, gerenciamento de bancos de dados, administração de redes e desenvolvimento de software e aplicações.
Na prática, isso significa que uma formação genérica em tecnologia pode não ser suficiente para alcançar as maiores remunerações.
O mercado está premiando cada vez mais a especialização.
Um profissional que domina simultaneamente desenvolvimento, cloud, segurança e ferramentas de IA pode apresentar um perfil muito mais competitivo do que alguém que conhece superficialmente várias tecnologias.
Também existe uma valorização crescente das chamadas competências híbridas: profissionais capazes de entender tecnologia e, ao mesmo tempo, compreender negócios, finanças, gestão de pessoas e estratégia.
O mercado também está mudando geograficamente
Outro aspecto importante identificado pelo levantamento é a concentração das oportunidades.
Segundo Lucas Niemeyer, coordenador de pesquisa e diretor de Comunidade e Cultura do Inteli, a concentração das vagas e necessidades empresariais no Sudeste, especialmente em São Paulo, é muito elevada.
Isso cria uma situação contraditória.
De um lado, existe um déficit nacional de profissionais. De outro, muitas oportunidades estão concentradas em determinados polos econômicos.
O trabalho remoto reduziu parcialmente essa barreira, permitindo que profissionais de outras regiões atendam empresas localizadas nos grandes centros. Entretanto, determinadas funções de liderança e infraestrutura continuam concentradas nos principais mercados corporativos.
Antes, agora e depois
Antes da atual revolução digital, profissionais de tecnologia eram vistos principalmente como especialistas responsáveis por computadores, sistemas e suporte técnico. A tecnologia era importante, mas muitas empresas ainda a tratavam como uma área operacional.
Agora, a situação é completamente diferente. Tecnologia tornou-se parte da estratégia empresarial, e decisões sobre dados, segurança, cloud e inteligência artificial podem determinar a competitividade de uma companhia.
Depois, a tendência deverá ser de uma integração ainda maior entre tecnologia e praticamente todos os setores econômicos.
O avanço da IA não deverá simplesmente produzir uma economia com menos profissionais de tecnologia. É provável que ele produza uma economia que necessite de profissionais diferentes, mais especializados e capazes de trabalhar com sistemas cada vez mais complexos.
Isso também explica por que a formação contínua se tornou praticamente obrigatória. Linguagens, plataformas e ferramentas mudam rapidamente, e uma competência que hoje é diferencial pode tornar-se comum em poucos anos.
O que o ranking realmente mostra
Os salários de até R$ 53,6 mil mensais chamam atenção, mas o dado mais importante talvez seja outro: o mercado está pagando caro pela combinação entre experiência, especialização, liderança e capacidade de resolver problemas críticos.
Não significa que qualquer pessoa que faça um curso de programação chegará rapidamente a salários de R$ 30 mil ou R$ 50 mil. Os valores mais elevados estão concentrados em profissionais altamente experientes e em posições de grande responsabilidade.
Para quem está começando, entretanto, o cenário continua apresentando oportunidades. A pesquisa indica demanda significativa por desenvolvimento, infraestrutura, segurança, dados e outras áreas fundamentais.
O caminho mais promissor parece estar menos na tentativa de seguir simplesmente a profissão «da moda» e mais na construção de uma combinação de competências que permaneça valiosa mesmo quando a tecnologia mudar.
O mercado brasileiro de tecnologia está entrando, portanto, em uma nova etapa: a inteligência artificial domina o debate, mas são dados, software, infraestrutura, segurança e gestão que continuam sustentando a economia digital. A escassez de profissionais qualificados transforma conhecimento técnico em ativo estratégico e ajuda a explicar por que algumas carreiras conseguem ultrapassar R$ 50 mil mensais. Para os próximos anos, a tendência é que a disputa por especialistas aumente, mas também que o mercado seja cada vez mais seletivo: não bastará saber utilizar tecnologia; será necessário compreender como construí-la, protegê-la, integrá-la e transformá-la em resultado para as organizações.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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